O cérebro que medita



A prática milenar transforma a dinâmica dos mecanismos neurológicos, favorecendo a atenção, a consciência e até a tolerância e a empatia em relação ao sofrimento dos outros.

Revista Scientific American por Antoine Lutz.

Há alguns anos soaria estranho associar a ciência à atitude contemplativa. Foi a partir do lIuminismo, no século 18, que a investigação científica passou a ser concebida separadamente da religião e destinada ao estudo quantitativo das leis da matéria. A espiritualidade foi, assim, relegada ao domínio da subjetividade e da experiência qualitativa - não observáveis ou mensuráveis.

Nos últimos anos, porém, a ciência ocidental passou a se interessar pelos fenômenos próprios das práticas espirituais, em especial a meditação. Esta fusão remonta ao encontro, em 1983, entre o neurocientista Francisco Varela e o Dalai Lama. Na época, o primeiro decidiu criar um fórum para iniciar o diálogo entre renomados pesquisadores e representantes religiosos.

Em abril do ano passado, foi realizado em Denver, nos Estados Unidos, o primeiro simpósio internacional voltado ao estudo das "ciências contemplativas". Centenas de psicólogos, médicos, neurocientistas e especialistas em meditação compartilharam descobertas a respeito dos mecanismos cognitivos e neurais envolvidos na base das práticas contemplativas, seus efeitos sobre a saúde mental e física e as possíveis aplicações no campo da educação.

O termo meditação inclui grande variedade de exercícios mentais, que vão de técnicas de relaxamento a práticas para produzir sensações de bem-estar. Trata-se de uma gama de complexos métodos de regulação dos sentimentos e da atenção, ativados para os mais diversos fins, entre os quais a compreensão dos fenômenos psíquicos e o equilíbrio das emoções. A meditação budista, uma das mais antigas e tradicionais, é também uma das mais estudadas - e seus benefícios cientificamente comprovados.

Mas, afinal, o que dizem os textos budistas que embasam a prática? Em primeiro lugar afirmam que o objetivo da meditação é a eliminação do sofrimento mental, causado por pensamentos obsessivos e emoções que nos fazem mal (raiva, inveja, ciúme etc.). Ensinam métodos eficazes para introduzir mudanças nos estados emotivos e cognitivos, em particular em nossos hábitos. Enfatizam que as mudanças devem partir da observação detalhada dos próprios estados emotivos e da compreensão dos fenômenos mentais. Mas de que maneira? Como o cérebro participa deste objetivo? Os neurocientistas interessam-se hoje por três "tipos" , de meditação: atenção focalizada, mindfulness (atenção , consciente) e voltada ao desenvolvimento da compaixão.

A primeira consiste em concentrar-se em um foco, como a chama de uma vela ou a própria respiração e estabilizar a atenção para aprender, progressivamente, a controlá-Ia. O objetivo é acalmar a mente, reduzir as distrações e atingir um estado de controle dos processos internos - pensamentos ou percepções. No decorrer da prática, o desenvolvimento dessa capacidade permite passar ao segundo tipo de prática meditativa, que os budistas chamam de Vipassana, meditação de plena consciência. Trata-se, então, de permanecer em estado de vigilância sem focalizar a atenção em um objeto particular. A experiência subjetiva que a prática deflagra é profunda e está relacionada tanto à intensidade das percepções - seu valor emotivo, concentração, ampliação da capacidade cognitiva (clareza a respeito dos próprios pensamentos e do modo como se desenrolam) - quanto à possibilidade de ressignificar as próprias vivências e convicções. Esses dois tipos de prática costumam favorecer a meditação voltada à ampliação da compaixão e da generosidade, também associada ao cultivo de comportamentos altruísticos, emoções positivas e inibição de tendências centradas apenas em si mesmo.

• RUMO AO EQUILIBRIO

Se por acaso um dia você se sentar por dez minutos, de preferência sobre uma almofada, com as pernas cruzadas, em um lugar tranquilo sem nada a fazer senão harmonizar-se com as sensações produzidas por sua respiração, então poderá viver a experiência de assistir ao movimento turbulento e involuntário de pensamentos, sensações e pensamentos. Meditar é, em grande parte, tomar consciência desse fluxo: direcionar a atenção para si mesmo e, gradualmente, desenvolver a capacidade de regular as emoções.

O que surpreende até os mais céticos é a comprovação - garantida por sofisticados exames de neuroimagem - de que a prática regular modifica a atividade e até a anatomia cerebral. Em nosso grupo de pesquisa na Universidade de Wisconsin examinamos pessoas que praticam assiduamente a meditação de atenção plena, acumulando a média de 10 mil horas. Constatamos que quando esses voluntários são expostos a sons angustiantes, como vozes que exprimem sofrimento, a atividade da amígdala - crucial para as emoções, em particular para angústia, medo e estresse - é consideravelmente reduzida em relação à de pessoas que não exercitam esta prática. Portanto, não seria exagero dizer que a meditação desenvolve a equanimidade, o equilíbrio e a habilidade de conservar um estado emotivo estável, propício à focalização da atenção.

Mas, afinal, como praticar? Parece muito simples: basta buscar um lugar sem distrações, sentar-se numa posição ao mesmo tempo relaxada e concentrada e voltar a atenção para o ar que se inspira e se expira, sem se deixar levar por distrações. Se, como sempre ocorre, a pessoa toma consciência de ter se distraído após alguns minutos (às vezes segundos, em especial nas primeiras tentativas), deve desconectar sua atenção do objeto de distração e trazê-Ia para o objeto inicial - a própria respiração.

A neurocientista Wendy Hasenkamp, pesquisadora da Universidade de Atlanta, tem se empenhado em identificar as redes funcionais na base da prática da atenção focalizada. Durante realização do escâner obtido por meio de ressonância magnética, os participantes do estudo liderado por ela se dedicaram ao exercício de prestar atenção à respiração, indicando o fim de cada episódio de distração apertando um botão.

Wendy identificou quatro fases durante o que definimos de ciclo cognitivo: um episódio de "errância da mente", um momento de tomada de consciência dessa desatenção, outro de reorientação da concentração e, por fim, uma fase de atenção intensa e focalizada. Cada um dos episódios está ligado à atividade de uma rede cerebral, a rede de modo default, que funciona quando estamos absortos em nossos pensamentos. Esse sistema reagrupa, em particular, diversas regiões mediais do córtex pré-frontal e do cíngulo.

O segundo episódio está associado à tomada de consciência da distração. Essa capacidade essencial, desenvolvida por meio da meditação, faz com que a introspecção ative a ação de determinadas áreas cerebrais, como a ínsula anterior, o córtex somatossensorial e o córtex do cíngulo anterior. Essas regiões formam a chamada rede de saliência, que regula a percepção das emoções e dos sentimentos, respondendo a eventos que têm uma relevância particular para o organismo, quer se trate de estímulos externos (assustadores, por exemplo), ou internos (percepção da dor física). Quando entra em ação, o circuito de saliência interrompe outros mecanismos cerebrais, como a circulação dos pensamentos sustentada pela rede de modo default, primeiro episódio do ciclo. Além disso, quando a atividade da rede de saliência aumenta, a do sistema de modo default diminui.

O terceiro e o quarto episódios do ciclo meditativo estão respectivamente associados ao fato de "retomar" a atenção afastando o estímulo de distração - possível graças à atividade do sulco frontal superior e do intraparietal- e à manutenção da meditação, uma função a cargo do córtex pré-frontal dorsolateral.

No grupo de pesquisa de Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, estudamos o impacto causado por três meses de meditação intensa - oito horas por dia de meditação com atenção focalizada. Durante um experimento, os participantes usavam fones de ouvido que difundiam estímulos sonoros em determinada frequência, mesclando sons ligeiramente mais agudos. Os participantes deviam se concentrar nos sons difundidos em um único ouvido, e reconhecer cada emissão de um som parasita enquanto registrávamos seu tempo de reação (esta tarefa, muito repetitiva, facilmente causa episódios de distração que se traduzem em grande variedade dos tempos de reação). Mas os voluntários habituados a praticar a meditação apresentavam menos variações, as oscilações elétricas dos neurônios da zona anterior do cérebro dessas pessoas eram mais regulares de um teste para outro e a atenção, mais estável.

• PRESENÇA ATENTA

Em outra pesquisa, observamos a atividade cerebral de praticantes iniciantes e de nível intermediário durante a atenção focalizada. Os que já tinham mais tempo na atividade manifestaram aumento da atividade em diversas regiões do cérebro implicadas no envolvimento da atenção (córtex visual), na sua conservação (córtex pré-frontal dorsolateral) e na sua orientação (sulco frontal superior e intraparietal).

Entretanto, havíamos constatado que existem diferenças com base no grau de experiência de quem medita. Se os praticantes intermediários - com 19 mil horas de prática - apresentavam aumento da atividade em diversas áreas, os experientes - que totalizaram 44 mil horas - viam reduzir a atividade cerebral.

Esta evolução - primeiro aumento, depois diminuição da atividade cerebral - é observada na maior parte dos campos da aprendizagem. Depois de um treinamento intensivo de meditação com atenção focalizada, a pessoa fica tão familiarizada que praticamente não precisa fazer nenhum esforço para focar sua atenção.
Os mais experientes apresentam, além disso, menor ativação da amígdala, o que permite que se emancipem das reações emotivas. Outros experimentos demonstraram que esses praticantes chegam a inibir as reações automáticas em determinados testes psicomotores. Isso induziu psicólogos a criar o termo "desautomatização" de emoções e comportamentos - o que vale dizer que a pessoa adquire maior autonomia sobre a forma como sente e age.

Focalizar a atenção em algo - por exemplo, na respiração - é um exercício útil para evitar que a pessoa se distraia. A concentração por si só, no entanto, não é suficiente para obter o controle da atenção e para regular as emoções. Essas habilidades implicam também uma vigilância global, desvinculada das rotinas emotivas, cognitivas e motoras que emergem da atividade mental.

Atletas e músicos conhecem bem esta modalidade de atenção global: de fato, obtêm resultados melhores quando se encontram no "fluxo" das experiências sensoriais, emotivas e cognitivas. Trata-se da prática da plena consciência, do cultivo de uma forma mais ampla de direcionamento da concentração, na qual não há controle explícito e objetivo da sua atenção.

NUM PISCAR DE OLHOS

Quem medita se abre para a experiência no sentido lato, ou seja, para tudo o que acontece dentro e em torno de si. As manifestações podem ser mais ou menos prazerosas, porque o objetivo é se aproximar de si mesmo, observando-se sem esforçar-se para controlar emoções e pensamentos. Podemos comparar essa forma de meditação com a prática do surfe: a pessoa desliza sobre as ondas seguindo os movimentos espontâneos. Ou com a da vela, na qual mantemos a rota independentemente do vento e das ondas.

Na meditação de plena consciência o praticante se torna menos reativo às próprias emoções, adquire consciência mais clara dos seus processos mentais - e assim descobre um meio para transformá-Ios. Trabalhando com Heleen Slagter, da Universidade de Amsterdã, procuramos descobrir se o treinamento dessa forma de "monitoramento aberto" (open monitoring) ou atenção difusa, durante a prática de consciência plena, poderia modificar a capacidade de conservar a atenção global e não reativa a estímulos internos e externos. Usamos a chamada tarefa do "piscar atencional", o attentional blink. Nessa atividade, o participante deve destacar dois números apresentados muito rapidamente em meio a uma sucessão de letras. Se o segundo algarismo aparece cerca de 300 milissegundos depois do primeiro, passa despercebido, como se a pessoa tivesse piscado. Se aparece após um intervalo de 600 milissegundos, em geral é distinguido facilmente.

O piscar atencional reflete a limitação dos recursos: as regiões frontais do cérebro, empenhadas em memorizar a primeira cifra, não estão mais disponíveis para observar a segunda. A atenção sobre o primeiro número é acompanhada por uma onda cerebral, a onda P300, que reflete a atividade de uma rede que reagrupa zonas frontais, temporais e parietais - que podemos revelar por meio de eletrodos colocados na zona parietal posterior do cérebro.

Avançamos na hipótese de que esta forma de atenção global favoreça o uso dos recursos de atenção e, portanto, haja redução do piscar. Avaliamos o desempenho e a onda P300 dos voluntários antes e depois de um período intensivo de meditação. Nos praticantes tanto o piscar atencional - eles veem com maior frequência a segunda cifra - quanto a onda P300 são mais fracos. A prática da meditação aberta, ou de plena consciência, permite, portanto, uma espécie de desbloqueio em uma sensação, um pensamento ou uma percepção-tornando a concentração mais disponível ao que ocorre no fluxo da consciência.

• CAMINHO DA COMPAIXÃO

 O terceiro tipo de prática meditativa consiste em desenvolver, de forma consciente, um estado emotivo de empatia, afeto e compreensão em relação a si mesmo e aos outros. Diferentemente do que ocorre de forma "espontânea" - quando nos comovemos com o sofrimento daqueles a quem temos afeição ou com os quais nos identificamos -, podemos aprender, por opção, a nos compadecer até mesmo de pessoas que nos tenham ofendido ou de quem não gostamos.

Em 2008 estudamos a atividade do cérebro de meditadores que treinavam a compaixão e constatamos atividade maior de duas regiões cerebrais como reação a sons de vozes humanas que exprimiam desespero. Estas regiões são a rnsula anterior e o córtex do dngulo anterior, ambos implicados na percepção da dor alheia.
Não parece haver dúvidas de que na meditação voltada para a compaixão o cérebro de fato se  torna mais empático face ao sofrimento. Além  disso, os mais experientes apresentam um aumento de atividade no córtex somatossensorial secundário, fundamental para a elaboração de sensações orgânicas, um indfcio de que os praticantes experientes provariam "na própria carne" a dor dos outros. Curiosamente, porém, embora essa situação traga pesar, o que predomina são sensações de compreensão, tolerância e predisposição ao acolhimento, sem que seja um peso emocional excessivo.

Podemos pensar que a meditação é uma exploração da natureza da mente. E reapresenta antigas perguntas: o que é consciência? E o que é subjetividade? Com os pesquisadores Richard Davidson e Matthieu Ricard aprofundamos a questão, com a ajuda de um grupo de budistas experientes. Medimos o grau de sincronização dos sinais elétricos produzidos pelo cérebro de cada um em pontos com distância maior que 10 centímetros, inspirados na teoria de que a sincronização entre regiões cerebrais distantes indica correlação essencial da consciência para a sua capacidade de unificar informações diversas em uma experiência global.

Observamos sincronizações muito nítidas das ondas gama - entre os 25 e os 45 hertz nos voluntários com 50 mil horas de prática. Este resultado nos levou a reconhecer o "estado de meditação" como mecanismo de integração global das atividades de diferentes regiões cerebrais. O nfvel de sincronização atingido pelos mais experientes, em particular nas regiões frontais e parietais, é nitidamente superior ao de um cérebro "normal" em repouso.

Podemos deduzir que a experiência .consciente traz vantagens para esses indivíduos? Neste momento em que tanto se fala em desenvolver habilidades cerebrais, a meditação pode ser uma via promissora - acessfvel, sem necessidade de pilulas ou invasivos implantes neurais - para desenvolver o próprio estado de consciência em relação a si mesmo e ao mundo a nossa volta. Os achados científicos até agora parecem confirmar que aumento do grau de consciência é, na maioria das vezes, sinônimo de amadurecimento psíquico, decisões melhores, comprometimento, capacidade de compartilhar e evitar a violência. Isso nos faz melhores? Parece que sim...

Como o cérebro cura o corpo.

Meditar pode ser tão eficaz quanto medicamentos para tratar a depressão.

As técnicas de meditação são atualmente usadas no âmbito hospitalar, e sua eficácia clínica foi estabelecida em alguns campos aplicativos, em particular no caso da depressão e da dor crônica. O psicólogo cognitivo Zindel Segal e seus colegas do Centro de Dependência e Saúde Mental de Toronto, no Canadá, acompanharam 84 pacientes que sofriam de depressão e haviam tomado antidepressivos até a remissão dos sintomas. No final desta primeira fase, um terço dos pacientes continuou o tratamento antidepressivo, um terço recebeu placebo e o restante participou de sessões de terapia baseada na meditação de plena consciência.

Um ano e meio depois, 30% dos pacientes que se dedicaram à meditação de plena consciência voltaram a sofrer de depressão - um número equivalente ao das pessoas do grupo tratado com antidepressivos, enquanto a proporção atingia 70% dentre os que haviam tomado o placebo. Os pesquisadores concluíram que a prática de plena consciência pode ser tão eficaz quanto os antidepressivos para evitar uma recaída. Os efeitos positivos da meditação para a saúde  se baseiam em uma modificação da atividade cerebral.

O caso da dor crônica foi estudado em particular pelo neurocientista Fadei Zeidan e por seus colegas da Universidade da Carolina do Norte. A equipe do pesquisador avaliou a atividade cerebral dos praticantes que receberam estímulos dolorosos. Nestas pessoas a intensidade percebida da dor havia diminuído em 40% e a sensação de desconforto (que se refere à maneira como a pessoa experiência) em 57%, em relação aos participantes do grupo de controle. Essa diminuição da intensidade dolorosa está associada ao aumento da atividade do córtex a do cíngulo e à baixa atividade da ínsula anterior, regiões que participam da regulação cognitiva da dor, influindo na percepção. Além disso, uma ativação do córtex orbitofrontal permite considerar a dor "menos desagradável".

• PARA SABER MAIS

Mind wandering and attention during focused meditation; a fine-grained temporal analysis offluctuating cognitive states.
Hasenkamp W. e outros, em Neuroimage, vol. 59, n" 11, págs. 750-760, 2012.

Mental training enhances attentional stability: neural and behavioral evidence. Lutz A. e outros, emJoumalofNeuroscience, vol. 29, n" 42, págs.
13418-13427, 2009.

Neural correlates of attentional expertise in long-tenn meditation practitioners. Brefcynski-Lewis e outros, em Proceedings ofthe National Academy of Sciences, vol. 104, riQ 27, págs.
11483-11488,2007.

Inconsciente e impermanência. Benilton Bezerra. Mente e Cérebro Grandes temas n° 1- O lugar da divindade no cérebro, págs. 56-63.

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