Primórdios da Psicologia da Forma


A palavra Gestalt, alemã e sem tradução exata em português, refere-se ao que é "exposto ao olhar"; segundo a teoria, o todo "é sempre maior que a soma de suas partes.

Revista Scientific American - por Helmut E. Lück

"Uma rosa é uma rosa é uma rosa." A poetisa americana Gertrude Stein, autora desse célebre enunciado, não tinha muito a ver com a teoria da gestalt. Não obstante, em seu célebre verso (do poema Sacred Emily, de 1913) ela dá vazão a uma constatação que sobreveio também a alguns psicólogos de seu tempo. As quatro letras r, o, s, a não constituem em nossa mente simplesmente uma palavra: evocam a imagem da flor, seu cheiro e simbolismo - propriedades não exatamente relacionadas às letras. Em suma: criam uma forma, uma Gestalt. A palavra, alemã, significa "o que é colocado diante dos olhos, exposto ao olhar". Adotada hoje no mundo todo (e sem tradução para o português), refere-se a um processo de dar forma, de configurar.

De acordo com a teoria gestáltica, não se pode ter conhecimento do "todo" por meio de suas partes - e sim das partes pelo todo, pois o todo é maior que a soma de suas partes. Isso equivale a dizer que "A + B" não é simplesmente "(A+B)", mas sim um terceiro elemento "C', que possui características próprias. A esse aspecto se dá o nome de supersoma*.

Um segundo aspecto considerado pela gestalt é a transponibilidade: independentemente dos elementos que constituem determinado objeto, reconhecemos ali uma forma (gestalt). Admitimos, por exemplo, que uma cadeira é uma cadeira, seja ela feita de plástico, metal, madeira ou qualquer outra matéria-prima. Em outras palavras, a forma sobressai.

*O psicólogo austríaco Christian von Ehrenfels (1859-1932) apresentou esses dois critérios, supersoma e transponibilidade, pela primeira vez em 1890, em uma dissertação apresentada na Universidade de Graz.

  • Viagem interrompida

    Um dos principais representantes da gestalt da Escola de Graz (que também recebeu o nome de "teoria da produção") foi Max Wertheimer (1880-1943). Ele gostava de ilustrar os primórdios experimentais da psicologia da gestalt com uma história que deve ter se passado por volta de 1910: no final do verão, Wertheimer viajava de trem de Viena para algum lugar do estado da Renânia. Durante o percurso, meditava sobre a visualização do movimento.

    Quando lhe ocorreu, num dado momento da viagem, que podia provocar aquelas percepções artificialmente com uma espécie de rápido piscar consecutivo de luzes, como é possível fazer no estroboscópio, Wertheimer desceu intempestivamente em Frankfurt e comprou um aparelho que na época era tido como um brinquedo para crianças e começou a realizar os primeiros experimentos. Em seguida entrou em contato com psicólogo Friedrich Schumann (1858-1940), da Universidade de Frankfurt, que enviou seu assistente Wolfgang Kühler( 188771967) ao quarto de hotel de Wertheimer. Não foi preciso muito para que todos os envolvidos se convencessem de que os professores deveriam realizar o experimento juntos no laboratório de Schumann.

    É difícil saber se tudo se passou exatamente assim. Talvez Wertheimer já tivesse anos antes a intenção de desenvolver um novo tipo de estroboscópio em parceria com Schumann . De qualquer modo, os primeiros experimentos do pesquisador da gestalt de Franfkurt assumiram uma forma concreta no início do século XX. Em uma série de testes, Wertheimer mostrou aos voluntários do estudo dois estímulos, em rápida sequência: no primeiro podia ser vista, do lado esquerdo de uma gravura, uma linha horizontal no segundo, havia uma linha horizontal do mesmo comprimento, à direita. Se ambas as imagens fossem mostradas alternadamente, surgia a intervalos de cerca de 60 milésimos de segundos a impressão de um movimento aparente, como se as linhas oscilassem de um lado para o outro, como um limpador de pára-brisa.

    Nesse experimento, se a mudança de imagens for ainda mais rápida, os estímulos são vivenciados como simultâneos - ambas as linhas tremeluzem aparentemente ao mesmo tempo. Só quando a representação de determinada frequência não é transposta se tem a impressão de continuidade: vê-se ora uma linha, ora a outra, cada qual em um local e posição. Wertheimer deu ao movimento percebido em sequência mais rápida a denominação de "fenômeno phi".

    A tentativa de visualização do movimento por Wertheimer marca o início da escola mais conhecida da psicologia da gestalt. Além de Wertheimer, fizeram parte dela Wolfgang Kühler e Kurt Koffka (1886-1941). Nos anos 20, as pesquisas se expandiram pela Alemanha e numerosos trabalhos deram novo impulso não só à pesquisa da percepção, mas à psicologia de forma geral.

    Nas origens das escolas de Frankfurt e de Berlim - diferentemente do que se tinha na de Graz - estavam formas (gestalten). Segundo seus teóricos, as pessoas não as "produziam" como dados fundamentais dos sentidos e, tampouco, elas se constituíam paralelamente a estes as formas eram consideradas elas próprias as unidades fundamentais da vida anímica.

    Desde o começo Wertheimer evitou falar em ilusão da percepção como fenômeno phi. Reconheceu que para o observador não importava se o movimento percebido era produzido por dois estímulos semelhantes e sucessivos ou por um deslocamento eficaz. Nem mesmo quando se esclarecia o efeito aos voluntários que participavam dos testes e a ilusão era desmascarada, ela se dissipava - pelo contrário: após o esclarecimento, o fenômeno phi era, não raro, percebido com maior nitidez.

      Carta de protesto

      Wolfgang Köhler foi o único professor acadêmico de psicologia na Alemanha a criticar abertamente o regime nazista, mesmo não sendo judeu. Quando muitos de seus colegas da universidade se aproximavam da ideologia de Hitler e vários assistentes seus do Instituto de Psicologia de Berlim foram obrigados a se desligar, ele publicou, em 28 de abril de 1933, uma carta aberta no Deutschen Allgemeinen Zeitung, criticando as perseguições a cientistas por motivos étnicos e políticos. Dois anos depois, porém, também emigrou para os Estados Unidos, onde lecionou e coordenou pesquisas no Swarthmore College, Pensilvânia. Morreu em 11 de junho de 1967, em sua fazenda em Enfield, New Hampshire.

  • Adeus aos dogmas

    Os psicólogos da gestalt desenvolveram um programa teórico para refutar dogmas da fisiologia dos sentidos. Pesquisas pioneiras de Wolfgang Kühler com antropóides enfatizaram que não só a percepção humana, mas também nossas formas de pensar e agir funcionam, com frequência, de acordo com os pressupostos da gestalt. Atendendo à solicitação do médico berlinense Max Rothmann, a Academia Prussiana de Ciências instalou em 1913, na ilha de Tenerife, nas Canárias, uma estação para o estudo do comportamento de macacos. No posto de experimentação eram estudadas as capacidades dos animais em condições semelhantes às naturais. O filósofo e psicólogo alemão Carl Stumpf (1848-1936) nomeou Kühler diretor da estação, apesar de na época ele não ter mais que 26 anos e quase nenhuma experiência em biologia e psicologia de animais.

    Os experimentos de Köhler foram reconhecidos quando comprovaram que os chimpanzés têm condições de resolver problemas complexos, como conseguir alimentos que estão fora de seu alcance: para pegar bananas de um cacho, por exemplo, empilhavam caixas e usavam varas. Um macaco ruivo chegou a acoplar duas varetas de bambu a fim de se aproximar de uma guloseima.

    Fato menos conhecido é que, mesmo antes de Köhler, Leonard T. Hobhouse havia realizado experimentos semelhantes na Inglaterra. Köhler procedeu de maneira sistemática, protocolou cuidadosamente todos os resultados e filmou alguns. Mais decisivo para o seu êxito, entretanto, foi ter encontrado esclarecimentos convincentes para as suas observações. Segundo o método de "tentativa e erro", para chegarmos à solução correta de determinado problema não é necessário um longo período de experimentação.

    Para os macacos, parece que a "ficha cai" muito rapidamente a junção de objetivo e meios de auxílio permitem que se dê a gestalt. Köhler denominou o conhecimento resultante dessa experiência de "perspectiva". Quase concomitantemente aos estudos de percepção de Wertheimer, com quem Köhler, de Tenerife, manteve estreito contato por correspondência, revelava-se a ação sagaz, movida pelo uso da inteligência, como fenômeno da gestalt.

  • No zoológico de Berlin

    Köhler já havia pesquisado grande parte de seus chimpanzés submetidos a teste quando, em meados de 1914, irrompeu a Primeira Guerra Mundial. Mesmo a Espanha tendo se mantido neutra durante todo o conflito, ele só pôde deixar a ilha em 1920. Vez por outra, funcionários britânicos chegavam a cogitar que Köhler seria um espião alemão e a pesquisa com os chimpanzés, nada mais que um pretexto para que se construísse nas Ilhas Canárias uma pista de pouso para aviões alemães.

    O plano original de construir uma estação para estudar animais dos trópicos naufragou com a inflação do pós-guerra. E em 1920 mesmo os macacos foram enviados para o zoológico de Berlim. Quando Köhler publicou um livro sobre sua pesquisa, no ano seguinte, obteve grande visibilidade. Durante anos ele se esforçou para ter a comprovação de que nem só a percepção e o pensamento seguiam os princípios da gestalt, mas também a atividade cerebral obedecia a uma lógica fundamental semelhante.

    Em 1922, Köhler foi nomeado sucessor de Carl Stumpf na direção do Instituto de Psicologia de Berlim. Com isso, teve início a dinastia da psicologia da gestalt. O periódico Psychologische Jorschung (Pesquisa psicológica), cotado por Köhler, era o seu principal veículo de divulgação. Outras importantes sedes da pesquisa psicológica da gestalt na Alemanha foram a Universidade de Giessen, que em 1918 convidou Kurt Koffka para compor seu quadro docente, bem como a de Franfkurt, que acolheu Wertheimer em 1929.

    Este último trouxe contribuições significativas para a psicologia do pensamento. Seu livro póstumo de 1945 (edição alemã de 1957) sobre o pensar produtivo - hoje se falaria em criatividade - documenta o intenso inntercâmbio intelectual entre ele e Freud até 1933. Já Kurt Koffka salientou a utilidade da teoria da gestalt para a psicologia do desenvolvimento. Com isso sabe-se hoje que a leitura é um processo integral e que a sequência de estágios das letras tomadas individualmente, passando pelas palavras, chegando até as sentenças inteiras, pouco corresponde ao que se passa na percepção humana.

    Ainda antes da chegada dos nazistas ao poder Koffka emigrou para os Estados Unidos, onde se tornou um dos primeiros partidários da psicologia da gestalt. Depois de o próprio Wertheimer e do psicólogo e filósofo Kurt Lewin (1890-1947) terem sido obrigados a deixar a Alemanha, foi a vez de Wolfgang Köhler sair do país. Com isso, a psicologia da gestalt perdia os pioneiros que a conduziam em território alemão.

    Do outro lado do Atlântico, seus representantes depararam com um ambiente científico completamente diferente. Nos Estados Unidos, havia por parte dos behavioristas inúmeras críticas contra os psicólogos alemães da gestalt que discordavam das teorias tradicionais da consciência defendidas por Wilhelm Wundt. A situação era agravada pelo fato de os exilados quase não poderem trabalhar em estabelecimentos bem conceituados - e nas pequenas instituições dificilmente tinham direito a alguma promoção. Por tudo isso, esse ramo da psicologia teve papel irrelevante durante muito tempo nos Estados Unidos.

    No fim da década de 50, quando houve intensa divulgação da psicologia americana na Alemanha, a gestalt foi "reimportada", embora o interesse da geração mais jovem fosse direcionado principalmente para teorias behavioristas do aprendizado, diagnósticos e classificações da personalidade, psicologia social experimental e psicoterapias.

      Paciente não! Cliente

      Na década de 40, o psicanalista berlinense de origem judaica Fritz Perls (1893-1970) deixou a Alemanha e mudou-se primeiro para a África do Sul e depois para os Estados Unidos, onde desenvolveu a gestalt-terapia, em oposição à psicanálise. Com base na fenomenologia e no existencialismo europeus, com influências da obra de Sartre e Nietzsche, sua fundamentação parte da idéia de que o homem é o principal responsável por suas escolhas e pela forma como conduz sua vida. Segundo essa abordagem, a pessoa não é, portanto, um "paciente", mas um "cliente".

  • Cenas de crianças

    Nos anos 20 havia outra "escola da gestalt": a da psicologia da totalidade genética de Leipzig. Felix Krueger (1874-1948), assistente de Wundt em 1910, nomeado seu sucessor, defendeu a concepção de que os sentimentos tinham "qualidades gestálticas". Krueger contrapôs a isso, por um lado, a teoria dos elementos de seu professor, Wundt; por outro, criticou, nos experimentos da Escola de Berlim, o fato de a intuição não ser levada em conta.

    Hoje, a psicologia da totalidade de Leipzig é tida como metodologicamente obtusa e conceitualmente um tanto antiquada. Mesmo as contribuições de Krueger e de seu colaborador Friedrich Sander (1889-1971) caíram em descrédito, pois ambos estavam vinculados à ideologia nacional socialista, para a qual chegaram a transferir suas idéias, imprimindo nelas o viés de um "todo popular".

    Sander, por exemplo, escreveu em 1937 que a "eliminação do verme parasitário do judaísmo tinha sua justificação profunda nessa vontade de uma forma (gestalt) pura por parte do ser alemão". Considerando isso, é de admirar que ele e outros psicólogos da totalidade não tenham demorado a recuperar suas cadeiras logo aos primeiros anos da Alemanha do pós-guerra.

    Há ainda outra variante significativa da psicologia da gestalt que não deve ser esquecida: a teoria dos campos. No início do século XX, as forças de campo já eram conhecidas da teoria da gravitação e da eletrodinâmica; na década de 20, o conceito era utilizado pela física e pelas ciências sociais. Kurt Lewin se interessou pela idéia e tentou lhe dar denominações específicas: no início falou em "teoria dinâmica", depois em "psicologia de vetor topológico" e, por fim, adotou o termo "teoria dos campos".

    O cerne do pensamento de Lewin é bastante simples: uma pessoa (P) está em um espaço vital (Ev), onde há determinados elementos - lugares, objetos, outras pessoas - que apresentam a ela desafio positivo ou negativo (também chamado valência). A pessoa se sente atraída ou repelida por eles. Algumas áreas do espaço vital não oferecem acesso direto; na verdade são obstruídas por barreiras e, para chegar a elas, é preciso transpor regiões com valência negativa. Além disso, duas áreas podem assumir um caráter de desafio de força equiparável - e assim concorrerem umas com as outras.

    Lewin manteve a descrição matemática dos processos psicológicos bem no cerne de sua proposta. Ele tendia para uma linguagem "logicamente condicionada, que refletiria todos os outros meios de auxílio conhecidos da psicologia" e fazia uso da topologia. Durante muitos anos ele filmou documentários nos quais mantinha pessoas em "campos de forças" de seus afetos, conflitos e ações da vontade (em geral, crianças de sua própria família em situações de conflito), mas a maior parte de seus filmes caiu no esquecimento. Lewin filmava os seus pequenos sem que eles o percebessem, influenciado pelo cineasta russo Sergei Eisenstein (1898-1948). Por ter registrado cenas das crianças desde que eram recém-nascidas até a adolescência acabou criando um documentário de caráter único.

      Conceitos-chave

      - A gestalt ou psicologia da forma (que é diferente da gestalt-terapia, criada por Fritz Perls na década de 40) surgiu no início do século XX e trabalha com dois    conceitos propostos pelo psicólogo austríaco Christian von Ehrenfels (185991932): supersoma e transponibilidade.
      -O supersoma refere-se à idéia de que não se pode ter conhecimento do "todo" por meio de suas partes - e sim das partes pelo todo, pois o todo é maior que a soma de suas partes. Isso equivale a dizer que" A + B" não é simplesmente "(A+B)", mas sim um terceiro elemento "C", que possui características próprias.
      - Segundo o critério da transponibilidade, independentemente dos elementos que constituem determinado objeto reconhecemos ali uma forma (gestalt). Admitimos, por exemplo, que uma cadeira é uma cadeira, seja ela feita de plástico, metal, madeira ou qualquer outra matéria-prima: a forma sobressai.

  • Para conhecer mais

    Isto é gestalt. John O. Stevens. Summus Editorial, 1977.
    25 anos depois - Gestalt-terapia, psicodrama e terapias neo-reichianas no Brasil. S. Perazzo, S. Ciornai e L. M. Frazão. Ágora, 1995.
    Arte e gestalt - Padrões que convergem. Janie Rhyne. Summus Editorial, 2000.
  • Leitura Dinâmica e Memorização

    Próximas Turmas

    Grupos com 20 alunos

    03/12/2018 à 14/12/2018
    (10 Manhãs - 2ª à 6ª - das 9h às 12h)

    03/12/2018 à 14/12/2018
    (10 Noites - 2ª à 6ª das 19h30min às 22h30min)

    21/01/2019 à 01/02/2019
    (09 manhãs - 2ª à 6ª das 9h às 12h30min)

    21/01/2019 à 01/02/2019
    (09 noites - 2ª à 6ª das 19h às 22h30min)

    16/02/2019 à 04/05/2019
    (10 sábados - 13h às 16h)

    Preencha aqui seus dados