Quais as diferenças entre medo, fobia e transtorno ansioso



Há uma crença popular acerca dos transtornos psiquiátricos de que são exageros de uma condição humana normal. Por um lado tem sentido, mas pode ser, no entanto, geradora de muitos estigmas para quem sofre de determinadas patologias.

Revista Psique - por Bruno Lima Nogueira*

A realidade é de que sofrer de transtornos psíquicos ou psiquiátricos, quan­o bem diagnosticados, claro, é sofrer de uma condição de natureza e magnitude muito dife­rente das condições habituais de um ser humano. Um medo comum é bem diferente de uma fobia. Uma tristeza comum, como um luto, a perda do emprego ou uma triste­za de alguns dias aparentemente sem motivo é bem diferente de um transtorno depressivo. Crer naquela forma estigmatizada de ver os trans­tornos psiquiátricos pode até levar a propor formas destrutivas de se enfrentar essas dificuldades como, por exemplo, expor o indivíduo ao objeto ameaçador, fóbico, sem o devido preparo. A fobia não é medo apenas, mas um medo superlativo, incomum e descabido diante das vivências de qualquer ser humano. Não existe também qualquer tipo de descrição científica que leve a crer que as fobias possam levar a outros transtornos, mais ou menos graves que sejam, como transtorno de pâni­co. O que é sabido, no entanto, é que é bastante comum que sujeitos que preencham critérios diagnósticos para quaisquer transtornos psiqui­átricos de um espectro tenham sin­tomas de outros diagnósticos dentro do mesmo espectro.

Espectro da ansiedade

As fobias pertencem ao espectro da ansiedade. Embora o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 4ª edição revisada) estabeleça critérios para o diag­nóstico de transtornos psiquiátricos específicos e separados dos demais, mais e mais os estudos vêm mostran­do que dificilmente encontramos indivíduos que têm apenas uma pa­tologia, mas sim que normalmente expressam sintomas que fecham cri­térios para diversos diagnósticos. Es­tes, então, podem ser agrupados em leques ou espectros de sintomas e pa­tologias. No caso do espectro da an­siedade, falamos nos seguintes diag­nósticos: transtorno de ansiedade generalizada, fobia, fobia específica, transtorno de pânico, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo.

Isso não significa que os pacien­tes que apresentem um transtorno apresentarão necessariamente os de­mais do espectro, mas sim que têm uma chance maior de apresentá-los ou mesmo de expressar alguns sinto­mas esperados nos demais transtor­nos. Por exemplo, é bastante comum que um paciente com fobia social tenha um grau de ansiedade muito grande a maior parte do tempo (cri­tério para transtorno de ansiedade generalizada) e possa surgir com rituais de comportamento para con­seguir lidar melhor com sua dificul­dade de contato social, aliviando a ansiedade decorrente desse contato. Os transtornos de um mesmo espec­tro são os principais diagnósticos
diferenciais de um dado transtorno desse mesmo espectro.

Vale lembrar que para a saúde mental temos uma regra muito va­liosa: apenas falamos de transtornos mentais ou psíquicos quando des­cartamos toda e qualquer possibi­lidade de uma doença orgânica. Es­ses sintomas de ansiedade sobre os quais falamos podem advir de situ­ações como hiperfunção da tireoide, feocromocitoma ou hipoglicemia, que devem sempre ser descartados.

Além dessas relações, os trans­tornos compartilham sintomas de ansiedade, como o próprio nome diz, e os têm como base. Estes são de excitação psicológica e orgânica como írritabilidade, hipersensibi­lidade ao barulho, inquietação, dificuldade de concentração, pensa­mentos de preocupação, boca seca, e alteração no padrão das evacuações, palpitação cardíaca, opressão no pei­to. Também tensão muscular e possi­bilidade de tonturas, formigamento de extremidades, sensação de falta de ar e insônia.

• Tipos de fobia

- Fobia especffica

Há um objeto específico causador do mal-estar.

- Fobia social

O objeto causador de mal-estar é a exposição ao possível julgamento dos outros.

- Transtorno de pânico

Não há objeto causador do mal-estar, portanto, acontece sem desencadeante.

Fobia social

As fobias, segundo a classifica­ção diagnóstica DSM-IV TR, são divididas em dois tipos: as fo­bias sociais e as fobias específicas. E fala ainda de outro tipo de fobia, a agorafobia. As fobias específicas têm seu aparecimento mais comumente na infância. Nesses casos, o pacien­te apresenta ansiedade importante, evitativa e antecipatória com relação aum objeto. Ou seja, a ansiedade depende do objeto desencadeante. Segundo o DSM-IV TR, as formas reconhecidas de fobias específicas são: de animais, de aspectos do am­biente, de sangue, injeção e ferimen­to, de situações específicas e de ou­tros agentes.

Com relação a animais, as mais conhecidas são em relação a insetos, em particular baratas ou aranhas, mas pode ocorrer com quaisquer animais. Quanto a aspectos do am­biente podemos incluir o escuro, por exemplo. Para situações especí­ficas, podemos exemplificar os luga­res altos e, por último, com relação a outros agentes, é possível men­cionar situações mais direcionadas, como a famosa fobia do "motorzi­nho" do dentista.

Sobre a etiologia, ou seja, à origem destes transtornos fóbicos, existe uma ampla gama de teorias, que de alguma forma ajudam a compreender melhor esse distúrbio. Contudo, nenhuma teoria ainda contempla de maneira pouco contestável esse quesito.

Com relação às fobias sociais, es­ses são estados em que o indivíduo apresenta o mesmo tipo de ansiedade intensa, evitativa e antecipatória, po­rém relacionada a eventos em que se sente observado e poderia assim ser criticado. Pode se relacionar a situa­ções sociais específicas, como tocar um instrumento, fazer uma apresen­tação ou abranger quase qualquer tipo de interação social de uma pes­soa. A fobia social tem uma associa­ção importante com abuso de álcool, com o qual, de maneira "torta", o pa­ciente procura aliviar seus sintomas. Essa condição geralmente começa entre os 17 e os 30 anos, e pode ser bastante destrutiva na possibilidade do indivíduo em aproveitar sua vida de maneira plena.

A agorafobia compreende o mesmo tipo de reação ansiosa inten­sa, porém relacionada a situações de estar longe de casa, em multi­dões ou ainda de confinamento. A comorbidade com transtornos de pânico é bastante comum, assim como cognições ansiosas sobre desmaio e perda do controle, ou seja, o sujeito vive a certeza de que esses dois fatos vão acon­tecer quando se sentem mal. A maioria dos casos surge no início ou na metade da terceira década de vida (20 a 25 anos), embora haja outro período de maior incidência na metade da quarta década (35 anos). Historicamente, a "ansie­dade social patológica" foi descrita desde a Grécia antiga, por Hipócra­tes: Na ocasião, o pai da medicina falava de condições ex­tremas de medo de multidões que leva­vam a condições de extrema ansiedade e evitação. Estamos falando, portanto, de uma condição antiga e muito conhecida.

Vale a pena ainda revermos ao menos mais um destes diagnósticos do espectro da ansiedade, pela sua proximidade com os transtornos fó­bicos: o transtorno do pânico, que é definido pelo próprio ataque de pânico, caracterizado por ataques súbitos de ansiedade nos quais os sintomas físicos predominam e são acompanhados por medo de uma consequência grave como um ataque cardíaco. Esta última correlação não existe realmente: há chance irrisória de morte quando se tem um ataque de pânico. Em geral, durante essas crises o indivíduo passa a respirar muito rapidamente, o que pode levar à piora das sensações físicas ruins ex­perimentadas. Também ainda não há explicações causais completamente aceitas para este transtorno.

A boa notícia em relação a esses transtornos é que possuem trata­mento atualmente. Para os três aco­metimentos indica-se a utilização de inibidores seletivos de receptação de serotonina. Estas medicações são representadas por: fluoxetina, sertralina, citalopram, entre outros. No cérebro, elas agem reequilibran­do conexões neuronais em áreas antes deficitárias, agindo sobre a concentração de seus receptores. Es­sas medicações não viciam. Depois do tempo adequado de tratamento, pode-se retirá-Ias tranquilamente, desde que devagar e com acompa­nhamento médico. De acordo com a literatura especializada, preconiza-se manutenção da medicação, depois da remissão dos sintomas, de pelo me­nos um ano, período que assegura a maior possibilidade de tempo futu­ro livre de sintomas. As medicações são principalmente responsáveis pela parte mais física dos sintomas de ansiedade e específicos destes trans­tornos e não consegue ser suficiente sem o apoio de algum modelo de Psi­coterapia. As fobias, por exemplo, ne­cessitam desse tipo de trabalho para desfazer as associações destrutivas relacionadas ao fator ameaçador, que 'agora são possíveis depois da medi­cação diminuir o impacto mais físico da ansiedade - gerada por aquele fator. Isso torna possível aproximar-se e mesmo voltar a pensar e falar nesses fatores ameaçadores. Para o trans­torno de pânico, da mesma forma, a Psicoterapia faz-se necessária para o paciente desfazer as associações evi­tativas não funcionais decorrentes do transtorno e poder reconstruir seu corpo saudável e inteiro dentro de seu mundo psíquico.

 • Sinais do Transtorno de Ansiedade

A ansiedade pode variar de forma importante em sua intensidade e número de sintomas que pode estar ou não ligado a um fator desencadeante. Podem ser divididos em reações de natureza psíquica (sinais como irritabilidade e
dificuldade de pensar de modo ordenado, voltando o pensamento insistentemente a situação potencialmente ofensora) e de natureza orgânica (sinais como taquicardia, respiração acelerada, opressão no peito, tremor de extremidades, sudorese, boca seca). No ataque de Pânico, os sinais são disparo agudo do conjunto de sintomas próprios da ansiedade, sem desencadeante, com uma proporção de sintomas bem maior da parte orgânica, acompanhado mentalmente da sensação de risco de morte ou perda do controle iminente. podendo chegar a perda temporária da nocao do eu.

 

* É medico psiquiatra pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP. Chefe de plantão de Psiquiatria do Hospital São Paulo e Responsável Técnico do CAPS Cidade Ademar. Especializado em Psicoterapia Interpessoal. transtomos de Personalidade pela UNIFESP e em avaliação de serviços pela Universidade de Toronto - Canadá. Pesquisa na área de Psiquiatria e Cultura. Contato: brunopsiquiatria@gmail.com

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