Contágio social



Raramente nos damos conta de que opiniões, atitudes e até estados de humor daqueles com quem convivemos, mesmo sem muita proximidade, influenciam de forma intensa nossos pensamentos, sentimentos e ações.

Revista Scientific American - por Nikolas Westerhoff

Em 30 de janeiro de 1962 três moças de um vilarejo na Tanzânia tiveram um ataque de riso incontrolado. Seu acesso durou várias horas - e foi contagioso. Até 18 de março, 94 habitantes caíram em uma alegria histérica. Dez dias mais tarde, o riso atingiu a província de Nshamba, a 90 km. Ali, segundo relatos, mais de 200 pessoas "adoeceram" e a onda se expandiu cada vez mais, contagiando milhares de pessoas no oeste da África.

O fenômeno, que se tornou conhecido como "epidemia de riso de Tanganika" foi documentado de forma confiável, sendo mais recentemente descrito em 2007 pelo pesquisador do humor Christian F. Hempelmann, da Universidade do Sul da Geórgia, em Satesboro, nos Estados Unidos. Para o médico e sociólogo Nicholas A. Christakis, da Universidade Harvard, em Boston, esse caso mostra de forma admirável como as emoções podem se propagar de uma pessoa para outra. Uma prova impressionante da grande influência que os outros exercem sobre os nossos sentimentos e ações.

Junto com o especialista em ciências políticas James H. Fowler, da Universidade da Califórnia em San Diego, Christakis reuniu vários desses exemplos - históricos e atuais, bizarros e rotineiros - no livro O poder das conexões - A importância do networking e como ele molda nossas vidas, lançado no Brasil pela editora Elsevier, em 2009. A conclusão dos dois pesqui­sadores: não apenas agentes patogênicos são transmitidos de uma pessoa para outra, mas também comportamentos - seja o riso ou atos suicidas, decisões sobre compras ou costumes alimentares. Esse "contágio social", segundo eles, domina várias áreas de nossa vida, frequentemente sem que tenhamos consciência disso.

A fim de criar uma base para sua tese, Fowlere Christakis ava­liaram as relações sociais de mais de 5 mil cidadãos americanos. Como cada indivíduo mantinha em média dez contatos mais próximos, surgiu um quadro geral de 50 mil pessoas das quais foram levantados regularmente inúmeros dados pessoais. A análise estatística revelou, por exemplo, que a variação de peso dos participantes dependia intensamente do fato de os três amigos mais próximos do sujeito terem engordado ou emagrecido!

Esse efeito, segundo os pesquisadores, não podia ser explicado apenas por refeições comuns. "Os aumentos de peso estavam associados a con­tatos sociais bastante variados: cônjuges e irmãos, por exemplo, parecem se influenciar tanto quanto colegas ou amigos", observa Fowler.

• Mapa da solidão

Essas análises comprovam com que prontidão as pessoas assumem comportamentos alheios. Outro estudo de Christakis e Fowler demonstrou que esse fenômeno se estende também a posturas e emoções: os dados relativos a como milhares de pessoas regularmente se sentem foram trans­formados pelos pesquisadores em uma espécie de mapa. Resultado: se um amigo que mora nas redondezas sente-se solitário, nossos próprios dias solitários aumentam. "Por incrível que pareça, o sentimento de solidão é transmitido mesmo entre conhecidos sem ligação: se o vizinho se sente assim durante dez dias no ano, acrescentam-se dois dias do outro lado da cerca. Somente entre pessoas que moram a mais de um quilômetro e meio de distância esse efeito se perde." O que parece uma espécie de "magia" é explicado cientificamente: os pesquisadores estão convencidos de que, em redes sociais, os sentimentos e preferências se espalham segundo uma regularidade matemática. O que uma pessoa sente não está obrigatoriamente associado a pa­rentes diretos ou vizinhos, mas também àqueles com os quais ela não mantém contato constante. É aí que entra o conceito de "rede": as interligações que nos unem muitas vezes são insuspeitas e nos afetam por canais perceptivos que escapam à consciência. Um exemplo simples? Ver cada vez mais pessoas usando matizes de roxo na rua, por exemplo, pode levar alguém a escolher uma peça de roupa dessa cor numa loja, sem notar que está sofrendo essa influência.

• Com o apoio uns dos outros

Aproximadamente 23 milhões de brasileiros necessitam de acompanhamento na área de saúde mental. Nesses casos, os problemas surgem com menos frequência nos locais onde há poucos psicoterapeutas: em regiões com mais profissionais da área há quase sempre mais pessoas com doenças psíquicas. Alguns pesquisadores avaliam esse fenômeno como uma forma especial de contágio social: onde há muitos psicólogos, as pessoas recorrem mais a eles. Diferentes características populacionais da cidade e do campo, por exemplo, também desempenham um papel importante. Possivelmente, em comunidades onde o contato social é maior e as pessoas contam mais umas com as outras, sendo conhecidas pelo nome e filiação, transtornos como depressão, ansiedade e até desequilíbrios mentais menos severos são assimilados e contidos pelo grupo, sem grandes dificuldades.

• Felicidade pega

Em outro estudo, Christakis e Fowler compila­ram mais uma vez em um trabalho minucioso, realizados por meio de questionários, os valores relativos à felicidade de milhares de habitantes da cidade de Framingham, no estado americano de Massachusetts. Os resultados do estudo de longo prazo que durou, no total, 32 anos, de 1971 a 2003, apresentaram de forma gráfica e demonstraram que as pessoas mais infelizes tendiam a se mover nas margens da rede social e na ponta de uma cadeia de relacionamentos sociais".

Análises demonstraram também quão efi­ciente é o contágio: a felicidade de quem estava em contato direto com uma pessoa feliz aumen­tava, em média, 15%! Quem conhecia apenas o amigo de uma pessoa feliz tinha um proveito de cerca de 10%. Já aqueles com ganhos materiais extras de US$ 10 mil contavam com acréscimo de apenas 2% em seu "índice pessoal" de satis­fação. Que o bem-estar das pessoas depende fortemente de quão os outros que estão à sua volta sejam felizes foi comprovado em 2009 pelos economistas John Knight, da Universidade de Oxford, e Ramani Gunatilaka, da Universidade Monash, em Melbourne. Os dois pesquisadores
avaliaram dados do China Household Income Project (Chip), um projeto de renda de famílias chinesas, de 1988. Nele foram compilados os ganhos e os valores relativos à satisfação de milhares de chineses de 22 províncias rurais. Em vilarejos onde predominava o bom humor havia apenas alguns habitantes isolados que apresen­tavam índices desoladores de felicidade.

No entanto, os pesquisadores perceberam que a felicidade individual não podia ser explicada apenas por fatores sociais: condições materiais para o bem-estar, trabalho que trouxesse satisfação e principalmente a saúde física desempenhavam importante papel. A isso, acrescenta-se o fato de que redes sociais são estruturas complexas, nas quais vários sentimentos são transmitidos ao mesmo tempo. Aparentemente elas também ajudam a determinar se engordamos ou emagrecemos, se estamos depressivos ou animados, se nos senti­mos solitários ou incluídos e amparados.

Mas será que elas também influenciam nossas decisões? Apesar de quase sempre nos propormos a agir de forma autônoma, frequen­temente assumimos o ponto de vista daqueles que estão próximos. E aquilo que consideramos certo ou errado, desejável ou repreensível, por outro lado, também influencia nossas ações seja em eleições políticas, em questões relativas à carreira ou ao planejamento familiar.

A economista Ilyana Kuziemko, da Univer­sidade de Princeton em Nova Jersey, analisou grande número de "dinastias familiares" ame­ricanas que haviam sido acompanhadas por pesquisadores da Universidade de Michigan em Ann Arbourdesde 1968. Com base nos dados do Panel Study Income Dynamics (PSI D), Kuziemko descreveu 823 famílias que denominou primá­rias. Elas geraram, no decorrer do tempo, 1.817 crianças que, por sua vez, também colocaram no mundo 3.666 crianças. A descoberta mais importante: irmãos se influenciam quanto à quantidade de filhos desejada.

Aqueles cujo irmão ou irmã tinham se tornado pai ou mãe havia pouco tempo muito provavelmente tinham eles próprios filhos no decorrer dos dois anos seguintes. A diferença de idade entre os filhos e a quantidade deles são amplamente influenciadas pela comuni­dade familiar, diz lIyana. Se, por exemplo, dois filhos eram considerados desejáveis, então os casais procuravam ter duas crianças. Se o ideal de apenas um filho era dominante, então havia apenas uma criança. Não apenas sentimentos, mas desejos e planos de vida aparentemente são também contagiosos.

• Gambá cheira gambá

Mas como chegamos a isso? Vários psicólogos sociais acreditam que o objetivo máximo dos membros de uma rede de convivência é provar que pensam, sentem e agem da mesma forma que os outros - embora não tenham consciên­cia dessa tendência. Isso fortalece a identidade do grupo e, como efeito colateral, estimula a cooperação e a sensação de pertencimento, que proporciona à maioria das pessoas uma sensação boa, Ihes dá segurança.

Isso é o que indica, por exemplo, o estudo Add-Health, um dos maiores levantamentos sobre o efeito de redes sociais. Pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, entrevistaram entre 1994 e 2008 mais de 90 mil estudantes. Cada participante devia citar cin­co pessoas de referência próximas e, entre outras coisas, fornecer informações sobre sua vida amo­rosa, crenças religiosas e eventuais experiências com drogas. Dessa forma, foi possível comprovar que nas estreitas redes de relacionamento dos adolescentes há um grau extremamente alto de contágio social. Fosse o sexo sem proteção, a frequência regular da igreja ou o consumo de maconha, os jovem faziam quase sempre aquilo que o seu círculo de amigos Ihes sugeria.

Uma pesquisa desenvolvida pelo sociólogo Peter Shawn Bearman, da Universidade Colum­bia, em Nova York, comprovou o poder sutil da formação de grupos. Ele estudou adolescentes religiosos ligados à Igreja Batista do Sul que ha­viam feito solenes votos de castidade. A maioria deles continuou fiel ao seu compromisso e não praticou sexo antes do casamento. Se um dos seguidores era rejeitado ou ridicularizado por outros de fora de seu círculo, a probabilidade de que mantivesse o comportamento sexual restritivo era maior. Mas, se ele reunia em torno de si simpatizantes que também queriam viver castos, sua tendência era de quebrar os votos! Parece contraditório? Bearman explica que se a promessa de uma minoria religiosa é assumida pela maioria, ela perde seu efeito gerador de identidade. As convenções de comunidades sociais, no entanto, têm exatamente essa função: devem unir um grupo e distingui-Io dos outros. Se isso não funciona mais ­ por exemplo, porque muitos já se deixaram "contagiar" -, as con­venções perdem sua utilidade.

Possivelmente, porém, há mais um motivo, bem menos sutil, para o fenômeno do contágio social: "Quando as pessoas podem fazer o que querem, em geral imitam as outras", já explicara o filósofo americano Eric Hoffer (1902-1983), estudioso de temas da moral. Segundo ele, a nossa espécie tem preferência pela sincronização: soldados marcham no mesmo ritmo, amantes pensam em harmonia, religiosos rezam em uníssono, fãs esportivos cantam a uma só voz.

Para entender os efeitos das ações sincrô­nicas, o psicólogo Scott S. Wiltermuth, da Uni­versidade Stanford, na Califórnia, transformou o campus de sua cidade em uma academia militar: para seu estudo, publicado em 2009, ele pediu aos voluntários da pesquisa que marchassem juntos. Em seguida, convidou­ os a participar de um jogo valendo dinheiro. Ficou demonstrado que os estudantes que haviam marchado anteriormente lado a lado cooperavam mais fortemente entre si do que os membros de um grupo de controle que só havia caminhado juntos pelo parque da univer­sidade no momento preparatório. Wiltermuth concluiu que os "marchadores sincrônicos" confiavam claramente mais uns nos outros e sentiam-se mais unidos que aqueles que apenas haviam passeado. Seu colega Char­les R. Seger, da Universidade de Indiana em Bloomington comprovou pouco depois como é fácil despertar sentimentos comunitários. Ele perguntou a seus colaboradores que participa­vam do experimento: de que forma você está se sentindo agora como americano? Eles deviam informar se sentiam orgulho patri­ótico, culpa ou mesmo raiva no momento e se viam o futuro com mais confiança ou temor. Para cada um Seger criou em seguida um "perfil emocional".

Depois ele tocou para alguns deles o hino nacional ameri­cano ou Ihes mostrou fotos de símbolos na­cionais. Por flrn, pediu­ Ihes que avaliassem mais uma vez seus sentimentos em de­talhes. Tanto o hino quanto os emblemas patrióticos tornaram o estado de espírito dos sujeitos mais semelhantes. De forma similar ao que ocorre com o movimento corporal, as emoções também se sincronizam sob determi­nadas circunstâncias, resumiu Seger.

Como a maioria dos processos nas redes sociais, o ato de imitação mútua tem como base a semelhança entre os membros de um determinado grupo. Similaridades criam con­fiança e compreensão mútua. Principalmente por esse motivo, médicos tendem mais a ser amigos de médicos e pedreiros de pedreiros. Pais de família se encontram com outros pais de família e mães solteiras com mulheres que também são mães solteiras. Faz sentido o di­tado popular: gambá cheira gambá.

 • Vários papéis sociais, menos estresse será?

Durante muito tempo pesquisadores acreditaram que a grande variedade de contatos sociais teria efeito negativo sobre o estado psíquico de uma pessoa, já que essas rela­ções também significam mais obrigações e estresse. Novos estudos, porém, indicam que a simples quantidade de relações tem menos significado que a sua qualidade experimentada subjetivamente. As psicólogas holandesas Elianne van Steenbergen e Naomi Ellemers, da Universidade de Leiden, entrevistaram mulheres que tinham grande sucesso profissional e eram engajadas em várias causas e projetos pessoais. Segundo as entrevistas, as "supertrabalhadoras" se sentiam ainda mais ativas quando se dedicavam à vida afetiva, aos parceiros, filhos e amigos. Já as que se dedicavam apenas à profissão, em detrimento de relações pessoais, mostravam-se mais cansadas e insatisfeitas. O resultado indica que não há, necessariamente, contradição entre trabalho e família - o maior desafio parece ser encontrar tempo para diversificar os interesses e investimentos afetivos e, assim, ter a possibilidade de viver experiências mais satisfatórias em diversas áreas.

• Parecido e ameaçador

Também não percebemos, mas nos cercar prin­cipalmente de pessoas que sejam semelhantes a nós em um ou outro ponto também esconde riscos. Em primeiro lugar, já foi comprovado empiricamente que em grupos homogêneos frequentemente só há troca de informações de que seus membros já dispõem. Em segundo lugar, a semelhança percebida com os outros pode se tornar uma ameaça - por exemplo, quando pessoas "semelhantes" enfrentam uma crise. Nesses casos somos tomados involun­tariamente pelo medo de que possamos ter o mesmo destino e, de forma inconsciente, nos predispomos a isso.

Para um pai de família, saber que um amigo com idade e posição social próximas às suas foi traído pela mulher incomoda mais que a um solteiro. Se um vizinho fumante adoece de câncer no pulmão, outros fumantes se sen­tem desconfortáveis - "poderia ser comigo", concluem. Consequência frequente: depois de um primeiro momento de acolhida, a pessoa "afetada" é isolada, pois o dissabor do outro nos faz questionar nossa própria forma de vida e temer a mesma experiência.

A socióloga alemã Martina Eller analisou há alguns anos as relações sociais de aproxi­madamente mil diabéticos. E concluiu: com o surgimento da doença, as suas redes sociais encolheram - não só porque quem adoece tende a ser excluído, mas também porque os doentes se tornam menos ativos e também se isolam.

Segundo Martina, essa situação é mais crí­tica porque o desenvolvimento de uma doença como diabete também depende da extensão e da estabilidade dos relacionamentos dos afetados. "Se uma pessoa tem uma rede so­cial grande, anos mais tarde ela estará menos prejudicada que aqueles que sempre tiveram poucos relacionamentos."

Hoje, inúmeros estudos comprovam que o isolamento social representa um risco à saúde. Pessoas que se sentem apoiadas vivem mais satisfeitas, durante mais tempo e envelhecem mais lentamente. Mais importante que a ajuda concreta do outro é a certeza de poder ser am­parado em qualquer emergência. Se essa supo­sição tem fundamento ou não, é irrelevante.

A médica Bernadette Boden-Alaba, da Uni­versidade Columbia, em Nova York, percebeu em um estudo com 656 pacientes que haviam sofrido infarto que aqueles que estavam so­cialmente isolados tinham probabilidade duas vezes maior de sofrer um segundo infarto do que pessoas bem integradas. Esse fator de risco, surpreendentemente, tinha peso até maior do que a falta de movimentação ou a arteriosclerose. O psicólogo Sheldon Cohen, da Universidade Carnegie Mellon, descobriu que tanto homens quanto mulheres que mantêm relacionamentos com grupos variados sofrem mais raramente de gripes ou resfriados - isso apesar de, como pessoas ativas, estarem mais expostas aos vírus. Pesquisadores especialistas em resiliência sabem a importância de encon­trarmos suporte social justamente em períodos de crise. Em geral, o psiquismo tira proveito de contatos variados: segundo a psicóloga social Jolanda Jetten, da Universidade de Queensland em Brisbane, Austrália, estudantes que se en­volvem com diversas redes de relacionamento tendem a ser mais imunes a depressões por longo prazo. Em outro estudo de 2010, Jolanda concluiu, junto com os pesquisadores em demência Cara Pugliese e James Tonks, da Universidade de Exeter, Grã-Bretanha, que pessoas com demência incipiente consideram em média seu estado de saúde pior do que aqueles nos quais a doença já está em estágio avançado. Aparentemente, os doentes mais comprometidos acreditam ainda estarem bem integrados à vida social. E enquanto se sentem bem relacionados, passam muito bem.

• Sem proteção

A suposição de que o apoio social estimula a saúde é bastante difundida. Na verdade, po­rém, ela não protege na mesma medida contra todas as doenças. "Redes de relacionamentos sociais têm influência positiva sobre o sistema cardiovascular. Se isso se aplica também a doenças que afetam o sistema imunológico, como hepatite C, ainda não temos a compro­vação. Em alguns estudos com pessoas com aids, por exemplo, obteve-se até mesmo uma associação negativa: "Quanto maior a rede de
relacionamentos, piores eram os números re­lativos ao sistema imunológico dos afetados", resume a psicóloga Beate Ditzen, pesquisadora da Universidade de Zurique.

Isso nos leva a pensar que o slogan gene­ralizado "redes sociais promovem a saúde" é provavelmente tão ilusório quanto a afirmação de que assistir à televisão contribui para a solidão. Ou seja, redes sociais não são o remédio universal contra doenças e dores - na verdade, é mais decisivo o que ocorre dentro delas.

Mas em que se diferenciam as relações favoráveis das desfavoráveis? As psicólogas Barbara G. Melamed e Gail F. Brenner obser­varam sistematicamente o comportamento de 35 casais de idosos nos quais um dos dois sofria de uma doença crônica havia pelo menos 14 anos. As pesquisadoras registraram em detalhes que tipo de ajuda os parceiros ofereciam um ao outro. Eles liam o jornal em voz alta? O doente recebia conselhos sobre alimentação? Eram carinhosos? Quais atitudes mais ajudavam o companheiro debilitado, na opinião do parceiro?

Curiosamente, a colaboração "prática", em­bora às vezes necessária, não era muito bem­ vista - provavelmente porque assim o doente se sentia ainda mais incapaz. Quem cortava a comida, arrumava as roupas e organizava o planejamento diário para o outro certamente tinha boas intenções, mas dessa forma fazia com que o companheiro se sentisse ainda mais dependente. Por outro lado, o apoio emocional e a demonstração de companheirismo sur­tiam melhor efeito. Em outras palavras: nada substitui a disponibilidade e o afeto. E, muitas vezes, é melhor fazer menos do que errado. A menos que seja absolutamente necessário, em vez de agir pela outra pessoa, dar conselhos e tomar atitudes seria melhor nos contentarmos em "apenas" estar presentes. Certamente isso nem sempre é fácil. No entanto, membros hiperativos de redes sociais aparentemente desconhecem um simples fato: não é preciso fazer muito para se ganhar confiança e sim­patia. Em geral basta agir com sinceridade e gentileza e deixar claro o sinal de que estará presente quando for necessário.

• Amigos de verdade?No máximo seis!

O sociólogo Sören Petermann, pesquisador da Universidade de Halle­-Wittenberg, na Alemanha, estima que cada pessoa tenha uma rede social com 11 integrantes, em média. A amplitude de disseminação, no entanto, é grande: nesse formato, atinge até 30 indivíduos. Peter­mann distingue três tipos de apoio social: instrumental (ajudar duran­te fase de mudança; realizar tarefas juntos), emocional (ouvir o outro e apoiá-Io em momentos dificeis; aconselhar) e companheiro (participar de atividades sociais e de lazer como festas e passeios). Segundo a regra geral, o apoio companheiro é o mais fácil de ser encontrado, já o instrumental é o mais dificil. É comum encontrar em pequenos grupos pessoas que reúnem em si os três aspectos. Quanto maior uma co­munidade, quase sempre mais especializados são os papéis de cada um. Em redes on-line como Facebook ou Twitter é teoricamente pos­sível manter centenas de contatos. No entanto, encontram-se de fato, em média, apenas seis parceiros-referência com os quais as pessoas trocam experiências. Em resumo: mesmo na internet não se costuma cultivar redes de relacionamento maiores - para tanto, à maioria sim­plesmente falta tempo.

Para saber mais

Declining autobiographical memory and the loss of iden­tity: effects on well-being. J. Jetten et al., em Joumal of Clinical and Experimental Neuropsychology 32(4), págs. 408-416,2010.
O Poder das conexões - A importância do networking e como ele molda nossas vidas. Nicolas A. Christakis e James H. Fowler. Elsevier, 2009.
Synchrony and cooperation. S. S. Wiltermuth e C. Heath, em Psychological Science, 20 (1), págs. 1-5, 2009.
Dynamic Spread of happi­ness in a large social network: longitudinal analysis over 20 years in The Framingham heartstudy. j. H. Fowlere N. A. Christakis, em British Medical Joumal 337, pág. a2338, 2008.

Sobre o autor

É doutor em psicologia e jornalista científico.

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