Combatendo a obesidade



Como solucionar a crise da obesidade. Apesar de a ciência ter revelado muito sobre os processos metabólicos que influenciam o peso, a solução para esse desafio pode estar no estudo do comportamento social.

Revista Scientific American - Por David H. Freedman

Em síntese

EPIDEMIA MODERNA: Por milê­nios, a falta de alimento foi um problema mundial. Atualmente, a obesidade é um fardo global que afeta meio bilhão de pessoas. Entre 1980 e 2008, a obesidade no mundo dobrou.

A OBESIDADE É COMPLEXA: pesquisadores desenvolveram idéias-chave sobre os fatores metabólicos, genéticos e neuro­lógicos relacionados à obesida­de. Mas essas ideias não criaram uma solução para esse problema de saúde pública.

FOCO NO COMPORTAMENTO: a adoção de técnicas que prova­ram ser efetivas para o tratamento do autismo, gagueira e alcoolismo pode ser fundamental para a per­da e prevenção do ganho de peso.

PRÓXIMOS PASSOS: estudos comportamentais mostram que registrar as calorias ingeridas, os exercícios físicos, o peso e adotar metas modestas, além de parti­cipar de um grupo de apoio, au­menta as chances de sucesso.

A obesidade é uma crise de saúde em várias partes do mundo. Nos Estados Unidos, se as tendências atuais continuarem, em breve será o fator mais importante de morte precoce, redução da quali­dade de vida e de gastos com cuidados de saúde, ultrapassando o tabagismo.

De acordo com o Centro de Controle e Pre­venção de Doenças de Atlanta (CDC/USA), um terço dos adultos é obeso, outro terço está com sobrepeso e, a cada ano, os americanos engordam mais. Um estudo publicado no periódico Journal of the American Medical Association indicou que a obesidade é respon­sável por mais de 160 mil "excessos" de mortes por ano no país. Se­gundo pesquisadores da George Washington University, uma pessoa obesa custa mais de US$ 7 mil por ano para a sociedade, devido à perda de produtividade e custos adicionais com trata­mentos médicos. Os gastos com cuidados de saúde ao longo da vida de uma pessoa com excesso de peso de 30 quilos ou mais somam US$ 30 mil, dependendo da etnia e do sexo.

Tudo isso confere urgência a essa questão: por que é tão difícil emagrecer e se manter no peso ideal? A resposta não parece difícil. A fórmula básica para a perda de peso é simples e bem conhecida: consumir menos calorias do que se gasta. Mas se realmente fosse fácil, a obesidade não seria o principal problema de saúde relacionado ao estilo de vida. Para uma espécie que evoluiu para consu­mir alimentos altamente energéticos - em um ambiente onde a fome era uma ameaça constante - perder peso e permanecer magro em meio à abundância, alimentado por mensagens de ma­rketing e por calorias vazias e baratas, realmente é difícil. A maior parte das pessoas que tenta fazer um regime parece falhar a longo prazo - uma revisão de 31 estudos sobre dietas de redução de peso, feita pela American Psychological Association, em 2007, identifi­cou que, após dois anos, cerca de dois terços das pessoas acabam pesando mais que antes do início do regime.

A ciência tem aperfeiçoado suas armas nessas batalhas. A agên­cia americana National Institutes of Health (NIH) gasta cerca de US$ 800 milhões por ano em estudos sobre os fatores metabólicos, genéticos e neurológicos da obesidade. Em seu orçamento para pes­quisas em obesidade de 2011, o NIH indicou os caminhos mais promissores, nesta ordem: uso de modelos animais para a determina­ção das funções de proteínas em tecidos específicos; estudo das vias de sinalização complexas no cérebro e entre o cérebro e outros órgãos; identificação de variações genéticas relacionadas à obesida­de e dos mecanismos epigenéticos que regulam o metabolismo.

As pesquisas têm trazido informações importantes sobre como as proteínas interagem no organismo para extrair e distribuir ener­gia dos alimentos e produzir e armazenar gordura; como o cérebro indica que estamos com fome; por que alguns de nós parecem ter nascido com maior probabilidade de ser obesos e se a exposição a determinados alimentos e a substâncias tóxicas pode modificar ou mitigar alguns desses fatores. Os estudos também têm sugerido à indústria farmacêutica diversos alvos potenciais para o desenvolvi­mento de medicamentos. Mas, ainda assim, sem sucesso.

Talvez um dia a biologia desenvolva uma solução que gerencie o metabolismo para queimar mais calorias ou modifique desejos e assim passemos a preferir, por exemplo, brócolis a bifes. Mas, até lá, a melhor estratégia podem ser métodos comportamentais-psí­cológicos desenvolvidos ao longo dos últimos 50 anos. Centenas de estudo comprovaram sua eficiência.

• Epidemia de obsidade - Um Problema Crescente

Nos últimos 30 anos a obesidade no mundo dobrou. Segun­do estudo publicado pela revista médica Lancet no início de fevereiro de 2011, existe hoje meio bilhão de pessoas obesas espalhadas por 199 países. Acompanhando a tendência mundial, o tema tomou-se um sério problema de saúde pú­blica no Brasil. Em três décadas, houve um crescimento ex­plosivo de sobrepeso no país. O número quase triplicou em homens adultos: saltou de 18,5% em 1974, para 50,1% em 2009. Nas mulheres, de 28,7% para 48%. Os resultados são da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (lBGE), em parceria com o Ministério da Saúde. De acordo com a pesquisa, que analisou dados de 188 mil pessoas, quase metade da população brasileira (49%) com 20 anos ou mais em todos os grupos de renda e todas as regiões do Brasil está com excesso de peso.

Também nos pequenos, a situação é alarmante: em 2009,uma em cada três crianças de 5 a 9 anos e um em cada cinco adolescentes estavam acima do peso recomendado pela Organização Mundial da Saúde. O aumento do sobrepeso e da obesidade prediz uma crescente carga de acidente vascular cerebral, doenças cardíacas, diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer e outros problemas crônicos de saúde ao longo deste século.

• Como chegamos aqui

O desespero da pessoas obesas e com sobrepeso está refletido no fluxo constante de conselhos despejado por fontes tão diferentes quanto revistas científicas, best-sellers, jornais ou blogs. Nosso apetite por qualquer tipo de dieta de emagrecimento ou artifício que traga a promessa da perda rápida de peso parece tão insaciá­vel quanto o desejo por alimentos que engordam. Gostamos de acreditar em soluções engenhosas indicadas pelos meios de comu­nicação, destacando novas descobertas científicas, em manchetes sucessivas, como se fossem soluções, Mas isso não adianta, pois, com frequência, elas parecem estar em conflito,

Um estudo publicado na edição de setembro do American Journal of Clinical Nutrition; por exemplo, constatou uma associação entre maior consumo de laticínios e perda de peso, Mas uma análise que saiu na edição de maio de 2008 do Nutrition Reviews não confirmou essa associação, Um artigo publicado no Journal of Ocupational and Environmental Medicine de janeiro de 2010 sugere a associação entre estresse no trabalho e obesidade. Mas, de acordo com outro artigo, publicado na Obesity de outubro, essa relação também não existe, Parte das dificuldades nessa área de saúde pública é que os pesquisadores parecem os cegos da parábola onde se tenta conhecer um elefante tateando diferentes partes do animal. O fato é que as conclusões de pesquisas individuais são apenas peças de um quebra-cabeça. Quando as pesquisas são analisadas em conjunto, fica claro que a solução para o problema da obesidade não pode ser obtida com a indicação de consumir esse ou aquele tipo de alimento, ou pela adoção de outra ação simples.

Muitos atores contribuem para esse problema: o excesso de peso está relacionado, em parte, ao ambiente (hábitos alimentares de amigos, tipo de alimento mais disponível em casa e lojas locais, oportunidade para se movimentar no trabalho), O complemento disso pode estar na biologia (algumas pessoas podem ter predisposição genética para armazenamento maior de gordura, limites de saciedade maiores e paladar mais sensível). E, em parte ainda, por aspectos econômicos (alimentos com alto teor calórico, mas níveis reduzidos de nutrientes são mais baratos que produtos frescos). E isso é também obra do marketing - as empresas de alimentos são mestres em explorar a natureza social humana e de nossa "programação" evolutiva, porduzindo alimentação não saudável, mas rentável. É por tudo isso que soluções simplistas falham.

• Esforço e recompensa

Em dietas de emagrecimento e exercícios físicos, conta­mos com a força de vontade para superar impulsos de comer em excesso, Assim, desfrutamos da recompensa de ficarmos esbeltos e atraentes para nos manter no caminho. É gratificante perder peso, mas infelizmente o tempo trabalha contra nós. À medida que o peso diminui temos mais fome, com desejos mais intenso, e também exaustão com os exercícios físicos. Enquanto isso, a perda de peso inevitavelmente desacelera porque o metabolismo tenta compensar a privação, tornando-se mais parcimonioso com as calorias. Nessas condições, a punição por seguirmos com a dieta de perda de peso se toma cada vez mais dura e constante, afastando a recompensa esperalda para o futuro, "Essa lacuna entre o reforço para se alimentar mais, e talvez perder peso mais tarde, é um desafio enorme", avalia Sungwoo Kahng, pesquisador da área de neurocomporta­mento da faculdade de medicina da Johns Hopkins University e do Instituto Kennedy Krieger, nos Estados Unidos.

Até o momento, a forma mais bem­ sucedida de perder peso, pelo menos uma quantidade moderada dele, é manter essa perda, com uma dieta equi­librada e prática de exercícios físicos, combinada com programas de mudan­ças de comportamento. A abordagem comportamental envolve pequenos ajus­tes nos hábitos alimentares e na prática de exercícios físicos, com o incentivo de pessoas próximas e do ambiente.

As pesquisas defendendo abordagem behaviorista foram iniciadas há mais de meio século, época do desenvolvimento da análise comportamen­tal proposta pelo psicólogo B. F. Skinner, da Harvard University. Esse campo é baseado na ideia de que os cientistas não podem saber o que está acontecendo no cérebro de uma pessoa, e, mesmo a ressonância magnética funcional, o estado da arte para essa ex­ploração é insuficiente para isso. Mas os pesquisadores podem ob­servar e medir, de forma objetiva e reproduzível, o comportamento físico e o ambiente em que ele ocorre, e isso permite identificar as relações entre o ambiente e o comportamento.

A eficácia das intervenções comportamentais tem sido ampla­mente demonstrada para uma grande variedade de doenças e pro­blemas de comportamento. Uma análise publicada no Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology em 2009 concluiu que "a intervenção comportamental precoce e intensiva deve ser a inter­venção de escolha para crianças com autismo" Uma revisão siste­mática, patrocinada pelo painel independente de especialistas U.S. Preventive Services Task Force, observou que até mesmo um acon­selhamento comportamental breve é capaz de reduzir entre 13% e 34% o número de bebidas ingeridas por dependentes por quatro anos. Revisões da literatura têm encontrado resultados similares sugerindo o sucesso do uso de intervenções comportamentais em desafios tão diversos como a redução da gagueira, aumento do de­sempenho atlético e melhora da produtividade no trabalho.

Para combater a obesidade, os analistas comportamentais exa­minam as influências ambientais relacionadas ao problema: que fatores externos levam as pessoas a comer demais ou consumir ali­mentos apenas calóricos e quais encarajam uma alimentação sau­dável? Em que situações os comportamentos e os comentários dos demais afetam a alimentação não saudável? O que parece efetiva­mente encorajar uma alimentação saudável em longo prazo? O que pode reforçar a prática de exercícios físicos?

Desde a década de 1960, os estudos focados em aspectos com­portamentais sobre a obesidade e dietas de redução de peso reco­nheceram algumas condições básicas que parecem relacionadas a uma maior chance de perder peso e manter o emagrecimento: mensurar e registrar de forma rigorosa as calorias consumidas, praticar exercícios físicos; adotar mudanças pequenas e graduais, evitando alterações drásticas; consumir uma dieta equilibrada, com pouca gordura e açúcar; definir objetivos claros e modestos, focando mudanças de hábitos de vida em vez de dietas de emagre­cimento de curto prazo e, especialmente, participar de um grupo de apoio para receber incentivo e reconhecimento do esforço despendido.

Se essas estratégias soam como con­selhos antigos e bem conhecidos porque têm sido popularizadas por quase meio século pelo Vigilantes do Peso. Fundado em 1963, como forma de apoio a pessoas que fazem dietas de re­dução de peso, esse grupo adicionou em suas práticas outras abordagens e con­selhos de acordo com dados de estudo, comportamentais e desenvolveu-se como um "programa de mudança de comportamento': "Quaisquer que sejam os detalhes de como perder peso, a base é sempre a mudança de cornportamen­to", resume a pesquisadora da área de nutrição e chefe científico do Vigilantes do Peso, Karen Miller-Kovach, para quem "isso é uma habilidade aprendida".

Estudos recentes voltaram a utilizar a abordagem comporta­mental para a perda de peso. Uma revisão da literatura de 2003. solicitada pelo U.S. Department of Health and Human Services, concluiu que "o aconselhamento e as intervenções comportamen­tais proporcionaram graus moderados de perda de peso, sustentá­veis por pelo menos um ano" - e um ano é uma eternidade no mundo do emagrecimento.

Uma análise de oito programas populares de redução de peso publicada em 2005 pelo Annals of Internal Medicine, descobrir que o programa Vigilantes do Peso (na época, em sua revisão pré-2010) é o único programa eficaz possibilitando perda de peso de 3% mantida durante os dois anos do estudo. Neste ínterim, um estudo publicado no Journal of the American Medical Association (Jama), em 2005, verificou que o Vigilantes do Peso - junto com a dieta Zone, que também recomenda uma dieta balanceada com proteínas, carboidratos e gorduras - obteve o maior percentual (65%) de adesão durante um ano, em relação a outras dietas. Os autores da pesquisa destacaram que "o nível de adesão foi o fator determinante dos benefícios clínicos, mais que o tipo de dieta'.

Um estudo de 2010 publicado no Journai of Pediatrics constatou que, após um ano, crianças que passaram por terapia comportamental mantiveram índice de massa corporal (IMC) 1,9 a 3,3 vezes ínferior ao de crianças que não fizeram a terapia (índice de massa corporal é uma relação numérica entre o peso e a altura; IMC igualou menor que 18,5 indica que a pessoa está com um peso abaixo do normal, enquanto um valor superior a 25 é considerado peso acima do normal). 

Algumas evidências sugerem que "essas melhorias podem ser mantidas ao longo dos 12 meses após o término do tratamento. Um estudo publicado no Obesity, em 2010, observou que os participantes do Take Off Pounds Sensibly (TOPS) - uma organização nacional, sem fins lucrativos, que utiliza a mudança comportamental para a perda de peso - mantiveram uma perda entre 5% e 7% do seu peso corporal durante os três anos da investigação.

No ano passado, a organização britânica Medical Research Council divulgou uma pesquisa de longo prazo demonstrando que os programas baseados em princípios comportamentais têm mais possibilidades de ajudar as pessoas a perder e manter o peso que outras abordagens (esse estudo foi financiado pelo Vigilantes do Peso, mas sem a participação dessa organização). 

Nos últimos anos, alguns pesquisadores voltaram a atenção para o aprimoramento, ampliação e adequação das técnicas comportamentais, obtendo resultados encorajadores. Michael Came­ron, chefe do departamento de pós-graduação em análise do com­portamento da Simmons College e membro do corpo docente da Harvard Medical School, por exemplo, está concentrando suas pes­quisas nas técnicas comportamentais. Há um ano Cameron desen­volve um estudo com quatro pessoas - em geral analistas compor­tamentais utilizam grupos pequenos ou mesmo uma única pessoa, para adaptar uma intervenção de forma mais detalhada e observar efeitos individuais - que se reúnem com ele por videoconferências para reforço, avaliação de peso (com a transmissão dos dados por redes sem fio) e terem suas dietas otimizadas. Neste último caso, tanto para reduzir a densidade calórica como para atender a prefe­rências alimentares individuais. Alimentos favoritos são usados como recompensa para a prática do exercício físico. Até agora, as pessoas perderam entre 8% e 20% do peso corporal.

Matt Normand, analista do comportamento da University of the Pacific, está pesquisando estratégias para seguir com mais pre­cisão a ingestão e o gasto calórico das pessoas. Entre elas se inclui a coleta de recibos de compra de alimentos, fornecimento de listas de alimentos para ser anotado o que se está consumindo, uso de vários tipos de pedômetros, contadores de passos em caminhadas, e outros dispositivos para medir a atividade física. Informações di­árias detalhadas sobre fluxo de calorias são oferecidas aos partici­pantes. Segundo um estudo publicado por Normand, três dos quatro participantes do estudo reduziram a ingestão de calorias para níveis recomendados.

Richard Fleming, pesquisador do Shriver Center da University of Mas­sachusetts Medical School's, avalia formas de incentivar pais a orientar seus filhos para escolhas mais saudá­veis. Uma das técnicas consideradas úteis pela pesquisa é mostrar para os pais a porção adequada dos diferentes alimentos. Outro truque de sucesso: deixar as crianças escolherem uma re­compensa em uma pequena loja de alimentos, enquanto caminham por ela. ''As crianças podem realmente responder a essa recompensa por serem ativas'; garante ele.

Por que as intervenções comportamentais são efetivas? Segun­do Laurette Dubé, que realiza pesquisas na área de marketing e sobre os aspectos psicológicos do estilo de vida na McGill Universitys Faculty of Management, em nosso meio ambiente, es­forços de marketing, sofisticados e onipresentes, alimentam-se da necessidade natural de gratificação sensorial e vulnerabilidade à desinformação. Além disso, a má alimentação e a pouca prática de exercícios físicos observadas em amigos, familiares e colegas servem como exemplo. Essencialmente, as intervenções comportamentais buscam transformar esse ambiente para uma situação em que as necessidades de informações, gratificação e estímulo social encorajem o consumo de alimentos saudáveis e a adoção de exercício físico. "Quando recebemos as mensagens corretas, de forma adequada, temos melhor chance de resistir ao desejo de comer mais que precisamos", avalia Dubé.

• Mudança na política

O Vigilantes do peso, de longe o programa mais popular, conta com apenas 600 mil membros em suas fileiras na América do Norte. Isso significa que menos de um em cada 100 obesos americanos e cerca de uma em cada 200 pessoas com sobrepeso participam de um programa de modificação comportamental formal. Mas a polí­tica pública pode estar mudando. O U.S. Surgeon General's Office e o Centers of Disease Control and Prevention (CDC) têm afirmado que as abordagens comportamentais são a principal arma na cru­zada contra a obesidade. A campanha contra a obesidade infantil Let's Move, lançada pela primeira-dama americana Michelle Obama, é composta quase inteiramente por recomendações sobre comportamentos que levam à perda de peso, ou seja, estimula a busca por formas de incentivar as crianças a comer alimentos menos calóricos e a se tornarem mais ativas, de forma prazerosa.

A recente proposta de proibição da entrega de brinquedos junto com o McLanche Feliz da rede McDonald's, em São Francis­co, sugere que as autoridades podem estar se preparando para pressionar a indústria de alimentos contra a contaminação do am­biente com táticas de marketing que colaboram para a obesidade. Para facilitar e tornar mais tentadora a compra de alimentos mais saudáveis, nas áreas mais pobres dos Estados Unidos, as comuni­dades com maior excesso de peso, a Casa Branca propôs subsidiar os preços de frutas e legumes. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, está entre os que defendem a modificação dos progra­mas assistenciais, restringindo a compra de bebidas com alto teor de açúcar. No ano passado, foi promulgada a taxação de 6% de im­postos sobre as bebidas açucaradas em Washington, De. A cidade de Nova York também tem oferecido cupons para compra de produtos em mercados de fazendeiros (feiras) para famílias de baixa renda e incentivos às lojas para oferecerem ali­mentação mais saudável.

Especialistas estão tentando pres­sionar o governo a reescrever os códi­gos de zoneamento e de construção para garantir que bairros e edifícios fa­voreçam os pedestres, ciclistas e usuá­rios de escada. Um estudo realizado em 2009, por pesquisadores da Louisiana State University Medical School, iden­tificou que se uma pessoa aumentar
em apenas 2,8% o uso de escadas, pode evitar o adicional de uma libra (0.45 kg) de peso por ano. A correlação entre níveis de atividade física e peso saudável é um dos pressupostos mais bem estabelecidos na pesquisa sobre a obesidade, de acordo com William M. Hartman, psicólogo e diretor do programa comportamental  Weight Managment Program do California Pacific Medical Center, de São Francisco.

Aumentar o acesso à terapia comportamental pode ajudar também. Muitas pessoas com sobrepeso podem precisar apenas de ferramentas on-line para o monitoramento, suporte e compartilha­mento do progresso, que se revelaram moderadamente efetivas em estudos. Outras podem necessitar de intervenções mais intensivas e personalizadas, como as que Cameron desenvolve. O tratamento com a terapia comportamental pode ser necessário apenas por um ou dois anos para estabelecer novos hábitos alimentares e de exercí­cios físicos permanentes, e a economia trazida por essa mudança de comportamento pode continuar por toda a vida.

Ao menos nos Estados Unidos ainda é cedo para dizer se a popu­lação aceitará os esforços do governo para empurrá-Ia para esco­lhas mais saudáveis. Em São Francisco, o plano para proibir o McLanche Feliz provocou reações iradas em uma comunidade co­nhecida por ser especialmente favorável às iniciativas de saúde pública, e, por isso, o prefeito local, Gavin Newsom, vetou o projeto. Os esforços da campanha Let's Move para a introdução de alimentos mais saudáveis nas cantinas escolares têm sido intensamente criti­cados como uma grande intrusão. Mesmo com a eventual imple­mentação completa dessas estratégias em todo o país, não há como prever se vão reduzir significativamente a obesidade. A atual taxa de obesidade americana está muito além do que já havia ocorrido no planeta, portanto, uma solução em larga escala será um experi­mento de mudança de comportamento em massa. As pesquisas su­gerem que, como grande experimento, essa seria a melhor chance de limitar a obesidade, e há muitas razões para ter esperança de su­cesso. E esse é um resultado que cientistas, especialistas em políti­cas públicas e autoridades do governo americano estão ansiosos para conhecer e colocar em prática, ainda nesta década. 

• Uma selva urbana mais saudável

Nova York está usando a política e a economia para melhorar o "ambiente alimentar" .

Um pesquisador me disse uma vez que o progresso na ciência biomédica pode ser medido pelo tamanho cada vez mais redu­lido do seu foco. Antigamente, só conhecíamos as diferenças entre pessoas doentes e saudáveis. Hoje, buscamos as diferen­ças entre moléculas doentes e saudáveis.

Esse tipo de pensamento levou alguns a procurar a solu­ção para a obesidade no interior das células do nosso corpo. No entanto, a epidemia será revertida não por meio da gené­tica ou da fisiologia e sim através da sociologia e da econo­mia. Em Nova York, onde logo teremos milhões de pessoas com sobrepeso ou pró­ximas a ele, estamos usando as políticas pú­blicas e os incentivos econômicos para criar um ambiente com ali­mentos saudáveis.

Comer é um com­portamento individual, então por que conside­rar o ambiente em vez de educar as pessoas a fazer escolhas melho­res? A resposta é sim­ples. Somos as mesmas criaturas há décadas, mas o mundo em que vivemos mudou radical­mente. Hoje a alimenta­ção é onipresente, bara­ta, altamente calórica, e oferecida em porções maiores que o necessário. A maioria de nós vive em pântanos de alimentos, afogan do-se em calorias em excesso.

É muito mais fácil descrever esse ambiente alimentar que modificá-lo para melhor. Mas em Nova York, estamos tentando fazer com que o sistema ofereça uma mistura saudável de pro­dutos em porções adequadas. A prefeitura fornece cupons de US$ 2 para as pessoas incluídas no Supplernental Nutrition As­sistance Proçrarn (SNAP), como incentivo à compra de frutas e legumes frescos, com baixa densidade calórica. Incentivamos lojas de alimentação a estocar alimentos de baixas calorias e adotamos o zoneamento e incentivos financeiros para a insta­lação de supermercados em bairros onde existem apenas pe­quenos mercados. Estamos melhorando a qualidade dos ali­mentos vendidos em cantinas escolares e removendo bebidas altamente calóricas das máquinas das escolas. Além disso, es­tabelecemos padrões nutricionais para os alimentos vendidos ou distribuídos por todas as agências municipais, que, juntas, oferecem cerca de 225 milhões de refeições por ano.

Em 2008, Nova York começou a exigir que cadeias de res­taurantes divulgassem a quantidade de calorias dos alimentos em seus cardápios e placas com o menu. O efeito imediato foi modesto: cerca de 25% dos clientes que liam a quantidade de calorias as utilizam para escolher o que pedir, reduzindo cerca de 100 calorias de sua refeição. O maior benefício potencial dessa exigência é levar os restaurantes a diminuir o tamanho das porções.

Qualquer esforço para criar um ambiente alimentar saudá­vel deve incluir as bebidas adoçadas, responsáveis em grande parte pelo aumento de 300 calorias nas dietas diárias dos ame­ricanos durante os últimos 30 anos. Refrigerantes açucarados estão associados à obesidade ou ganho de peso de acordo com estudos observacionais
e ensaios clínicos. Nova York apoia legislações estaduais que preveem imposto sobre essas bebidas. Os modelos econôrnicos sugerem que um aumento de 10% em seu preço pode reduzir as vendas em cerca de 8%.

Em 2010, a prefeitura implementou um proje­to para testar o efeito do fim do subsídio de pro­dutos açucarados no SNAP. A medida acaba­ria com urna contradi­ção fundamental nas políticas públicas: se in­formamos os cidadãos. de todas as formas possíveis, que as bebidas adoçadas com açúcar causam obesidade e diabetes. como po­demos justificar a entrega de cupons para a população consu­mir esses produtos de forma gratuita como parte de um pro grama nutricional? A iniciativa também deve alterar os incenti­vos no mercado. Se o comércio não puder vender garrafas de 3 litros de refrigerante com açúcar por meio do SNAP, talvez ve­nha a promover algo saudável, elegível pelo SNAP.

Pesquisas mostram que adultos vêm diminuindo o consu­mo de bebidas adoçadas com açúcar desde 2007. Essas mes­ mas pesquisas acompanham a altura e o peso em adultos (me­didos por eles mesmos) e monitoram ativamente a condição fi­sica e o índice de massa corporal de 1.2 milhão de alunos de escolas públicas. E cedo para saber se as alterações estão afe­tando as taxas de obesidade. A epidemia existe há 30 anos e re­vertê-Ia levará tempo. Mas acreditamos ter identificado o alvo certo. A menos que nossa visão de um futuro mais brilhante seja a maioria dos americanos tomando urna pílula contra a obesidade todos os dias, é o nosso ambiente que precisa mu­dar, não a nossa fisiologia.

• Quatro Passos para Perder Peso

Estudos sobre as técnicas de comportamento para o controle da obesi­dade identificaram características básicas que parecem relacionadas a uma maior chance de promover o emagrecimento e a manutenção do peso ideal: defini­ção clara e objetivos modestos, focando hábitos para serem adotados por toda a vida, entre outros. A maioria dessa mudanças de comportamento pertence a quatro categorias principais.

- Avaliação inicial

As pesquisas reforçam a necessidade da escolha de uma medida basal. Quanto a pessoa pesa? Quais são os rituais e as rotinas que contribuem para a alirnentação em excesso (por exemplo, o estresse) ou para a baixa adesão aos exercícios físicos (expectativas irreais)? Um médico, uma enfermeira um nutricionista podem ajudar na avaliação.

- Mudanças de comportamento

Muitas pessoas acham mais fácil fazer pequenas mudanças no início - como, por exemplo, subir escadas em vez de usar o elevador, e verifi­car alimentos oferecidos em um bufê antes de se servir é interessan­te (estudos mostram que essa ação ajuda a pessoa a colocar menos comida no prato), 

- Automonitorização

O registro do peso corporal, quanti­dade de calorias ingeridas e ações adota das possibilita a elaboração de um retorno sobre os resultados obti­dos com a mudança de hábitos. Os estudos comportamentais têm de­monstrado que tanto registros em papel como também sistemas de mo­nitoração wireless trazem benefícios.

- Grupos de Apoio

Estudos identificaram os benefícios do incen­tivo de outras pessoas. Fazer parte de um grupo - para a prática de exercícios físicos, apoio formal ou até mesmo virtual - permite aos integrantes compartilhar triunfos, parti­lhar dificuldades e encontrar soluções.

Para conhecer mais 

About behaviorism. B. F. Skinner. Vintage, 1974 (obra clássica sobre mudança de comportamento).
You on a diet lhe owner's manual for waist management. Michael F. Roizen e Menmet C. Oz. Free Press,2006 (um bom guia para leigos sobre vários aspectos sobre o gerenciamento do peso).
Determining the effectiveness of take off pounds sensibly (TOPS), a nationally available nonprofit weight loss program. Nia S. Mitchell et aI. (publicado na revista Obesity, di5ponibilizado em versão on-line em 23/912010, no endereço: www.nature.com/oby/journallvaop/ncurrent/full/oby2010202a.html).
Visite o portal da NIH para conhecer as pesquisas sobre obesidade no endereço: obesi­tyresearch.nih.gov

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