Pessoas distraídas são mais criativas



Quem se deixa perturbar por estímulos externos tem maior capacidade de resolver problemas que os mais concentrados. Tendência a dispersão e a fazer associações inusitadas é comum a criativos e a pessoas com esquizofrenia.

Folha de São Paulo - por Ricardo Bonalume Neto

Quem diria: se distrair pode ser a melhor maneira de resolver um problema difícil de forma criativa. "Distração" costumava ter uma conotação negativa em estudos médicos: por exemplo, pesquisas que mostram o maior risco de causar um acidente de carro ao se distrair falando ao celular.

Mas trabalhos recentes têm demonstrado que a distração está vinculada à criatividade, especialmente na hora de resolver problemas complexos. Só que até certo ponto: em excesso, distração combina com esquizofrenia - um distúrbio psíquico que pode incluir alucinações, delírios e fuga da realidade.

 Como a distração ajuda a ser criativo e produzir soluções? Para muita gente, a prática de "dar um t empo", "fazer uma pausa no  trabalho", costuma fazer a resposta para um problema surgir de repente, como mágica. É só assistir ao seriado "House" (Universal) para entender como funciona.

O médico Gregory House e sua equipe são escalados para diagnosticar e tratar apenas os casos mais cabeludos. O enredo tem uma fórmula básica. Eles passam três quartos do programa raciocinando logicamente sobre sintomas, tratamentos e causas de doenças. Mas só no fim do espisódio, quando House se distrai ou tem a atenção chamada para algo bizarro, que uma resposta "clica" no seu cérebro.

Evolução

Ignorar estímulos irrelevantes ao nosso redor é uma conquista da evolução biológica. Um animal que presta atenção a tudo e caminha pelos prados distraído acaba não percebendo o predador até que seja tarde demais. Essa capacidade de abstrair o ruído inútil é chamada de inibição latente. Esquizofrênicos têm inibição latente muito reduzida: prestam atenção a tudo, e por isso, paradoxalmente, fogem da realidade. Mas esse traço também caracteriza pessoas saudáveis e altamente criativas.

Um estudo feito pela qquipe de Fredrik Ullén, do Instituo Karolinska, da Suécia, publicado na revista científica "PLoS One", apontou que os cérebros dos eqsquizofrênicos e o dos criativos têm um sistema semelhante do neurotransmissor dopamina. Produzida em várias partes do cérebro, a dopamina tem funções na transmissão do impulso elétrico entre as células nervosas, notadamente na cognição, motivação e nos mecanismos de punição e recompensa.

"A teoria da dopamina e esquizofrenia vê o distúrbio como uma forma extrema de criatividade", diz Adam Galinsky, da Escola Kellogg de Administração da Universidade Northwestern, EUA. O pesquisador explica que a dopamina tende a alterar processos cognitivos, de modo que as associações são mais soltas e as categorias conceituais são ampliadas. "Isso pode facilitar a criatividade, mas também levar a padrões de pensamento desorganizados e anomalias de percepção".

Galinsky e colegas fizeram testes de associação com 94 voluntários que tinham que identificar uma quarta palavra vinculada a três outras. Alguns passavam por distrações, outros não. Os distraídos identiificaram sequências de letra como palavras válidas mais rápido.

O estudo foi publicado na revista "Psychological Science" e afirma que o processo de solução de problemas inclui  tanto a distração quanto um período de pensamento consciente, sem o qual o problema não tem como ser racionalmente resolvido.

Radar

Estudos feitos com universidatários nos EUA e no Canadá pela equipe de Shelley H. Carson, do Departamento de Psicologia de Harvard, mostraram que aqueles que se distraem facilmente, com o "radar ligado" para tudo em torno, são mais criativos: os mais criativos tinham sete vezes menos inibição latente. O estudo original, publicado em 2003, foi replicado depois. "Dois outros laboratórios testaram a baixa inibição latente e descobriam que está associada com criatividade. Nós também estamos continuando os testes", afirma Carson.

"Há um corpo substancial de pesquisa que indica que a esquizofrenia está associada com inibição latente baixa e também com deficits na memória de trabalho", continua o pesquisador. Para Carson, comentando o estudo de Galinsky, a pessoa criativa é capaz de permitir, temporariamente, que o excesso de distrações seja canalizado em percepção consciente, para fazer conexões entre os estímulos.

"Mas a pessoa tem a capacidade de alternar entre estados do cérebro para exercitar maior controle cognitivo e realmente formular e acessar essas conexões", afirma o pesquisador.

Sem "filtro" - cérebro criativo percebe estímulos de forma ampliada

1) O tálamo filtra as informações que chegam ao cérebro, antes que atinjam o córtex, área responsável pela cognição e razão.
2) Esse filtro ajuda o cérebro a ignorar estímulos "irrelevantes" no ambiente para se concentrar na atividade principal. Essa capacidade de ignorar estímulos é chamada de "inibição latente".
3) A redução da inibição latente já foi ligada à psicose e à esquizofrenia, mas também é ssociada à criatividade. A capacidade de fazer associações bizarras é comprtilhada por esquizofrênicos e pessoas saudáveis criativas.

Como a distrição ajuda
1) Percepção dos estímlos ao redor: estudos com universitários mostraram que a percepção maior dos estímulos do ambiente ajuda ao pensamento criativo. Os alunos mais criativos tinham a inibição latente sete vezes mais baixa do que os demais.
2) Solução de problemas: a distração ajuda a resolver problemas complexos, algo que muitos experimentam ao "dar uma pausa" e achar a respposta. O processo envolve duas fases: distração e, depois, um período de pensamento consciente para a percepção da solução do problema.

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