Pensamentos e Emoções Influenciam Nosso Sistema Imunológico


"Como a mente pode salvar o corpo ", matéria de capa no número de maio último (PLANETA 392), provocou muito interesse e uma avalanche de cartas e e-mails de leitores interessados em saber mais sobre o assunto. Eduardo Araia aprofunda agora o tema, abordando a psiconeuroimunologia. Uma das vertentes de vanguarda da pesquisa médica, essa nova disciplina comprova que pensamentos e emoções realmente influenciam o nosso sistema imunológico.

Revista Planeta - por Eduardo Araia

Há uns 40 anos, afirmar que a mente influencia a saúde provocaria nos médicos alopatas reações que iriam do menosprezo ao deboche. Afinal, argumentariam, o corpo é uma máquina, e que máquina se submete a emoções ou pensamentos? Provavelmente essa ainda é hoje a interpretação de muitos alopatas, mas um número crescente deles está se abrindo para aceitar o outro ponto de vista. O motivo dessa mudannça reside em uma das vertentes vanguardistas da medicina: a psiconeuroimunologia.

Essa palavra interminável é definida como o estudo da atuação do sistema imunológico e de suas relações com o cérebro e outros sistemas do organismo. Durante décadas, os cientistas esmiuçaram essas "forças armadas" que nos defendem contra a invasão de micróbios, vírus e bactérias, e concluíram que, depois do cérebro, o sistema imunológico é o mais complexo do corpo humano. Ele é capaz de desencadear reações rápidas e certeiras para a maioria dos agressores externos. Mas o funcionamento do sistema era considerado autônomo - colocá-Io em funcionamento não exigia nenhum comando. A influência da mente sobre o corpo era crença de homeopatas, médicos orientais ou espiritualistas, não uma hipótese que podia ser comprovada pela ciência.

Estudos apontando na outra direção vêm desde a década de 1930, mas um incidente com a missão Apollo 3, em 1966, deixou a questão mais em evidência. Uma explosão a bordo pôs em risco o retorno da nave à Terra, o que deixou os astronautas muito estressados. Os médicos da Nasa constataram que a quantidade de células do sistema imunológico diminuíra muiito nos três astronautas, e a resistência de dois deles baixou tanto que ambos ficaram gripados. Duas perguntas surrgiram: 1) Foi o estresse que baixou o número de células de defesa? 2) O sistema imunológico não é autônomo?

O que pode ser consideraado o marco zero da psiconeuroimunologia veio pouco mais de uma década depois, e o acaso teve novamente um papel importante. No fim dos anos 70, o psicólogo Robert Ader e o imunologista NichoIas Cohen, da Universidade de Rochester (EUA), iniciaram uma experiência com camundongos semelhante às de Pavlov. Ader e Cohen condicionaram os animais a rejeitar água com açúcar colocanndo na mistura ciclofosfamida, uma substância que provocava enjoos. Bastou uma sessão para os camundongos recusarem o preparado. A partir daí, eles associavam uma coisa à outra e rejeitavam a água com açúcar. Depois, Ader e Cohen retiraram a substânncia de sua "receita" e, com o tempo, os animais voltaram a tomar água com açúcar.

Várias semanas depois, porém, muitos camundongos ficaram doentes e alguns morreram. Como as cobaias eram jovens e saudáveis, o fato intrigou os cientistas. Será que a ciclofosfamida havia enfraquecido o sistema imunológico dos animais? Impossível: uma única dose não era suficiente para isso.

Ader e Cohen tiveram então um estalo: o sistema imunológico se debilitara ao longo do período em que aquela dose provocara aversão à água com açúcar, como consequência da reação psicológica à ciclofosfamida. Os animais aprenderam a relacionar a mistura ao enjoo e, cada vez que bebiam o líquido, o estado psicológico associado à rejeição vinha à tona, enfraquecendo continuamente o sistema imunológico. O resultado foi a doença e a morte.

Conclusão: o sistema psicológico é condicionável. Se os hábitos o influenciam, o cérebro certamente também o faz. Dessa maneira, o mito da autonomia do sistema imunológico naufragou e surgiu a psiconeuroimunologia.

A nova disciplina ainda está longe de ter um mapa completo dos mecanismos que norteiam a defesa do corpo humano, mas sua proposta de trabalho é instigante: o sistema imunológico acompanha tudo o que acontece no cérebro.

As células desse sistema "sabem" quando vivemos situações de estresse, depressão ou alegria, e alteram sua atividade a partir disso. Quem leva essas informações entre o cérebro e o sistema imunológico são os neurotransmissores e os peptídios. Produzidos pelo cérebro, eles se acopIam aos receptores das células do sistema imunológico e repassam as mensagens - positivas ou negativas. Em síntese, nosso sistema imunológico está" alegre" quando estamos alegres e "triste" quando estamos tristes.

O intercâmbio de informações não se limita ao cérebro. Intestino, estômago e rins, por exemplo, também fabricam substâncias transmissoras que influenciam emoções e pensamentos. O próprio sistema imunológico produz hormônios como a endorfina, nosso próprio analgésico.

O sistema endócrino também desempenha um importante papel nessa área. Ou seja: todo o corpo se comporta como uma rede de comunicação psicossomática. Nesse sentido, as divisões entre sistemas - nervoso, circulatório, digestivo, imunológico, endócrino, etc. - funcionam mais como simplficações para estudo do que como ferramentas para uma compreensão completa do que se passa dentro de nós.

A psiconeuroimunologia ainda não sabe como a mensagem a ser transmitida ao sistema imunológico é elaborada". Mas tem avançado no que se refere aos resultados deflagrados por diferentes padrões de pensamento e emoção no sistema. Um estudo da Universidade Stanford (EUA) com pacientes de poliartrite - uma doença que provoca um aumento contínuo de dores nas articulações e restringe progressivamente os movimentos dos membros - chamou a atenção nesse sentido.

Os pacientes receberam informações detalhadas sobre seu estado de saúde, fizeram exercícios de relaxamento físico e aprenderam técnicas para amenizar as dores. Com essas medidas, as dores diminuíram e os pacientes passaram a se movimentar cada vez melhor. O que acarretara essa melhora? Descobriu-se que não foram as informações, o relaxamento ou as técnicas de controle da dor: foi, basicamennte, a convicção de cada paciennte de que poderia melhorar sua saúde e superar a doença.

Essa esperança é importante, mas não constitui o único ingrediente ligado à cura e à saúde. Bom humor, otimismo, capacidade de desabafar, relacionamentos sociais e amizades também contam pontos a favor, Uma pesquisa da Universidade de Iowa (EUA) sobre mulheres com câncer de ovário, publicada em 2002, revelou que as que declararam ter uma boa vida social restringiam a formação de novos vasos para nutrir o tumor, o que lhes dava mais expectativa de vida.

Em outro estudo, realizado em 1993 com pacientes de câncer de pele, observou-se que os que participaram de um grupo de terapia psiquiátrica durante seis meses manifestaram menos dores e mostraram maior atividade das células NK (Natural Killer) do que os que não receberam nenhum cuidado terapêutico. Vantagens adicionais: os primeiros tiveram menos recorrência a metástases e sua sobrevida superou os seis anos.

O amor é outro fator de peso, como demonstrou um estudo do psicólogo David McClelland, da Universidade Harvard (EUA), Ele e seus alunos assistiram a um vídeo sobre o trabalho de madre Teresa de Calcutá com pessoas carentes, Enquanto os estudantes se emocionavam com o que viam, um exame mostrou que a quantidade de imunoglobulina A (anticorpo que combate infecções nas vias respiratórias) havia aumentado. Um filme sobre o guerreiro huno Átila teve efeito inverso: o número desses anticorpos no sistema diminuiu.

Outro elemento fundamental para a saúde é a capacidade de lidar com situações de pressão, assumir a responsabilidade pelo que lhe acontece, Isso é nítido sobretudo nos casos de câncer. O paciente que luta contra a doença tem melhores chances de sobreviver. Ele tem consciência da gravidade da moléstia, mas rejeita entregar-se a ela, Mesmo demonstrando medo, raiva ou desespero, vê o câncer como um desafio e se mobiliza por inteiro para derrotá-lo, Já quem acata a doença de forma resignada e altruística reduz drasticamente suas chances de cura.

Solidão, depressão e estresse são inimigos que devem ser combatidos, Numa pesquisa com estudantes de medicina citada pelo neurobiólogo David Felten em A cura e a mente (Ed, Rocco), os cientistas encontraram níveis imunológicos cronicamente baixos não nos alunos que corriam risco de reprovação, mas nos que se sentiam sozinhos e recebiam pouco apoio social.

Pesquisas com internados em asilos endossam essa idéia. E desde a década de 1980 uma série de estudos tem mostrado que a atividade dos linfócitos T (as células imunológicas por excelência) decresce muito em idosos com depressão.

Mas o papel de vilão-mor provavelmente cabe ao estresse prolongado, que desorganiza de forma generalizada as defesas do corpo. Mudanças significativas na vida, como a morte de um familiar, separação conjugal ou perda de emprego, começam o estrago estimulando a produção de corticoesteróides, hormônios que desativam o sistema de vigilância imunológica.

No primeiro estágio do estresse, o número e a atividade das células NK são ampliados, mas, se a pessoa não mostra capacidade de lidar com a situação, o processo é revertido e tanto a quantidade quanto a ação dessas células ficam abaixo do normal. Observam-se ainda alterações nos linfócitos T, na resposta de anticorpos, reativação de vírus latentes (como o da herpes simples), níveis anormais de hormônios como a adrenalina, etc.

As investigações têm mostrado a validade de processos de equilíbrio interior na reconquista e na manutenção da saúde. Meditação, relaxamento, técnicas de visualização criativa, psicoterapia - tudo isso deve ser usado para superar as doenças. O risco é caminharmos na direção oposta e pensarmos que a moléstia pode ser resolvida apenas com a mente. Talvez algum dia isso seja possível, mas, por enquanto, o mais sensato é contar com todos os recursos disponíveis - inclusive os remédios.

O que há para se ler

A cura e a mente, Bill Moyers, Ed. Rocco.
A doença como caminho, Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke, Ed. Cultrix.
A doença como símbolo, Rüdiger Dahlke, Ed. Cultrix.

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