O poder das emoções sobre o coração


Alegria, raiva, tristeza, ansiedade, paixão. A ciência começa a explicar como os sentimentos podem proteger ou piorar a saúde.

Revista ISTOÉ - por Cilene Pereira

O coração é o símbolo das emoções. É como se todos os nossos sentímentos por ele passassem e nele deixassem suas marcas, as boas e as ruins. Milenar, essa concepção tem servido de matéria-prima para os poetas ao longo da história. Agora, a ciência está mostrando que influência das emoções sobre o coração vai muito além da beleza da poesia. Novas pesquisas começam a revelar que amor, raiva, alegria, irritação, tristeza e toda a vasta gama de sentímentos experimentada pelo ser humano promovem modificações orgânicas de tal dimensão que podem contribuir de maneira decisiva para o vigor ou a falência do órgão. Pela primeira vez, essas descobertas dão as pistas do real peso das emoções sobre a saúde cardíaca. E forma-se pelo mundo uma corrente de especialistas que defende a inclusão de sentimentos como ansiedade e depressão na lista dos fatores de risco para males cardiovasculares. Eles estariam ao lado do colesterol, da hipertensão, o sedentarismo e de outras ameaças conhecidas.

  • O risco da ansiedade

    Empiricamente, médicos e cientistas intuíam, há décadas, que os sentimentos tinham um papel na manifestação das enfermidades cardíacas. Eles baseavam suas inferências nas observações que faziam da evolução dos pacientes, que podia ir melhor ou pior de acordo com o estado emocional. Há cerca de cinco anos, porém, começaram a surgir os primeiros estudos maís consistentes confirmando a associação entre a mente e o coração. Hoje, os trabalhos sobre o tema se multiplicaram e apresentam resultados tão coincidentes quanto preocupantes. Tome-se como exemplo os mais recentes. Na edição de janeiro do jornal do Colégio Americano de Cardiologia - uma das entidades mais importantes da área - está publicado um artigo revelando que a exposição crônica à ansiedade e aos outros sentimentos a ela conjugados, como o medo, eleva em 30% a 40% a chance de um indivíduo saudável sofrer um infarto. "O risco que constatamos diz respeito somente à ansiedade. Está além do que poderia ser explicado pela pressão arterial, obesidade, pelo fumo ou outros fatores", explicou à ISTOÉ Biing-Jiun Shen, coordenador do trabalho e professor de psicologia da University of Southern California, onde o estudo foi realizado. As conclusões foram baseadas em avaliações feitas em 735 homens saudáveis, acompanhados durante 12 anos.

    Outros trabalhos intrigantes dizem respeito ao papel da depressão. Há três meses, médicos do departamento de psiquiatria da Universidade de Colúmbia (EUA) divulgaram estudo no qual mostram que a doença praticamente triplica o risco de morte após um infarto. E no início do mês, cientistas de instituições americanas reconhecidas mundialmente, como Universidade de Harvard, de Yale e da Clínica Mayo, publicaram um artigo no Journal of Affeetive Disorders revelando que os efeitos negativos da doença sobre o coração permanecem mesmo após cinco anos. "Achávamos que a influência era mais forte até os primeiros seis meses depois do infarto. Mas não foi isso o que descobrimos", explicou Robert Carney, professor da Universidade de Washington e líder do estudo.

    As investigações sobre o impacto da presença concomitante de ansiedade e depressão são ainda mais assustadoras. É possível ter uma idéia de quanto essa combinação pode ser uma bomba para o coração a partir de trabalhos como o da Universidade de Montreal, no Canadá, publicado na edição de janeiro do Arehives of General Psychiatry. Após entrevistar 804 portadores de doença coronariana sob controle, os cientistas verificaram que aqueles que se mostravam ansiosos e depressivos apresentavam o dobro de possibilidade de sofrer um novo infarto em comparação aos que não manifestavam as mesmas emoções. Mas há outros dados preocupantes na pesquisa. "Descobrimos também que os pacientes cardíacos são mais depressivos e ansiosos do que a população em geral", contou à ISTOÉ Nancy Frasure Smith, coordenadora do trabalho.

  • Do cérebro ao músculo cardíaco

    Ao mesmo tempo que crescem as evidências da atuação dos sentimentos sobre o coração, aumentam as investigações para elucidar de que maneira eles interferem no mecanismo cardíaco. Trata-se de uma pesquisa refinada, que se vale das ainda não muito numerosas informações sobre como se dão as ligações entre o cérebro, onde os sentimentos são processados, e o coração. Por enquanto, o que se sabe é que as emoções, tanto as boas quanto as ruins, disparam no cérebro dois processos. "O primeiro é o envio de sinais elétricos ao músculo cardíaco, via sistema nervoso. Isso vai repercutir no ritmo dos batimentos", explica Ricardo Monezi, professor de fisiologia do comportamento da PUC/SP e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo. "O segundo é a produção de uma cascata de substâncias químicas que terão impacto em várias estruturas do coração", afirma.

    Embora os caminhos sejam os mesmos, as repercussões irão variar de acordo com a natureza da emoção. Até este momento, conhece-se mais o que ocorre quando elas são negativas. Irritação, mágoa e tristeza, por exemplo, causam a redução do calibre dos vasos sangüíneos, provocando a elevação da pressão arterial. Também há aumento da freqüência cardíaca. Só estes dois fatores já obrigam o músculo cardíaco a trabalhar mais. E se essa situação se toma crônica, o desgaste fica maior.

  • Síndrome do coração partido

    Entretanto, há mais complicações que só agora começam a ser identificadas. Uma delas foi revelada há um mês por cientistas da Indiana University-Purdue University Indianapolis (EUA). Eles foram responsáveis por uma pesquisa que comprovou pela primeira vez que sentimentos de hostilidade e depressão aumentam a produção de duas substâncias inflamatórias, a interleucina-6 e a proteína C-reativa. Isso é péssimo para o coração. Hoje, a aterosclerose, doença caracterizaada pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias, já é conceituada como uma enfermidade inflamatória. Isso porque se acredita que a inflamação tenha um papel-chave no desenvolvimento do problema. "Por isso, a circulação de grandes quantidades de substâncias inflamatórias contribui para agravar a doença", explicou à ISTOÉ Jesse Stewart, coordenador da pesquisa.

    Um dos fenômenos que mais têm chamado a atenção dos médicos, porém, é a ocorrência da chamada sindrome do coração partido. Trata-se de um problema singular e diretamente relacionado às emoções: ele atinge indivíduos sem fator de risco tradicional, mas submetidos a sentimentos negativos de forma crônica ou aguda. Mesmo sem uma artéria obstruída por placas de gordura, por exemplo, o paciente sofre os sintomas de um infarto, como dor no peito, e acaba apresentando um espasmo nas artérias coronárias, as que irrigam o coração, além de ficar com o músculo cardíaco dilatado.

  • Proteção garantida

    Os primeiros casos começaram a ser registrados há cerca de dez anos. Hoje, há registros em todo o mundo, inclusive no Brasil. O tratamento é o mesmo dado a casos de infarto, mas sem a necessidade de desobstrução das artérias. Entre os medicamentos indicados estão os betabloqueadores. "Eles blindam o coração da descarga de adrenalina que ocorrre nessas situações", explica o cardiologista Marcelo Paiva, do Hospital Nove de Julho, em São Paulo. A adrenalina é liberada em situações de prolongada exposição a sentimentos negativos ou durante explosões de raiva, por exemplo. E em grande parte é ela a responsável pelos efeitos prejudiciais desses sentimentos. Bastar saber que é a adrenalina que, entre outras coisas, causa o estreitamento do calibre dos vasos sangüíneos. Por isso a razão de tentar controlar sua concentração no organismo.

    A boa notícia é que a ciência está descobrindo que, se fazem mal, as emoções também fazem bem ao nosso coração. Diversos estudos demonstram que as boas situações da vida, como a paixão e a alegria, disparam uma cadeia de reações - a exemplo das negativas -, mas com efeitos protetores. Nesses casos, há liberação de substâncias como a serotonina e a dopamina, que, entre outras funções, melhoram a atividade cardíaca e contribuem para regular a pressão arterial. "Além disso, há a fabricação de endorfinas", explica o cardiologista Femando Bacal, do Instituto do Coração e do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.

    Uma das conseqüências do "banho" de endorfina é a maior proteção do endotélio, o tecido que reveste a parede dos vasos sangüíneos. Tratando-se de saúde cardíaca, isso é fundamental. Quanto mais íntegro o endotélio, menor a chance de acúmulo de placas de gordura nessa superfície. Outra vantagem é que o sistema de defesa do organismo fica mais forte, deixando as estruturas cardíacas menos vulneráveis a infecções. Há mais ganhos. De acordo com um trabalho da Universidade de Ohio (EUA), quando um indivíduo controla melhor sua raiva, cresce a capacidade de o organismo se recuperar de eventuais lesões. A explicação, segundo o cientista Steve Bloom, do Imperial College London, é simples. "O corpo prioriza uma ação por vez. Se você está com raiva e estressado, ele irá primeiro lidar com esses sentimentos, antes de se dedicar a acelerar processos de cura", disse.

  • Revolução na cardiologia

    Informações como essas tornaram-se preciosas para a moderna cardiologia e estão provocando uma revolução na maneira de cuidar do coração. "Hoje, temos certeza de que as emoções podem precipitar eventos cardíacos", afirma o cardiologista Valdir Moisés, assessor médico em cardiologia do Fleury Medicina e Saúde, de São Paulo. Baseados nessa constatação, muitos especialistas defendem que é hora de incluir os sentimentos na lista dos fatores de risco oficiais para doenças cardiovasculares. "Já há evidências científicas suficientes para que emoções negativas, especialmente a depressão, sejam assim consideradas", afirmou à ISTOÉ Jesse Stewart, da Indiana University-Purdue University Indianapolis. No Brasil, essa corrente também ganha força. No consultório do médico Costantino Costantini, diretor de um hospital especializado em cardiologia com sede em Curitiba, os doentes também têm suas emoções avaliadas, assim como os dados sobre colesterol e pressão arterial. "Considero que, dependendo de sua natureza, elas são sim fatores de risco", justifica o especialista.

  • Mudança no tratamento

    A forma de tratar o coração também mudou. No receituário, em muitos casos há a indicação de antidepressivos ou ansiolíticos (contra ansiedade). "Receitamos quando é necessário", explica o médico Ricardo Pavanello, supervisor de cardiologia do Hospital do Coração, de São Paulo. Também tomou-se imprescindível o suporte psicológico. Em centros de primeira linha, os serviços de psicologia são cada vez mais atuantes e têm uma missão tão dificil quanto especial. "Ajudamos os pacientes a dar novo significado à vida", explica Maria Elenita Favarato, psicóloga-chefe do serviço de psicologia do Instituto do Coração (InCor).

    De fato, o auxílio especializado é fundamental para que o paciente compreenda o processo emocional que conntribuiu para levá-lo ao hospital. "O infarto é um jeito agressivo de mostrar que algumas coisas na vida não estão bem. Por isso é importante entender o que está acontecendo", explica o cardiologista Carlos Alberto Pastore, diretor de serviços médicos do InCor. A terapia psicológica ajuda também o paciente a melhorar sua habilidade de lidar com as situações, tentando, por exemplo, evitar a exposição continua às emoções negativas. E aumentar a capacidade de sentir só o que faz bem ao coração.

      Coração Vulnerável

      A influência das emoções sobre o funcionamento do coração é hoje inquestionável. Conheça as mais recentes descobertas da ciêncai sobre o tema.

      O Caminho

      1 - Os estímulos emocionais são enviados ao sistema límbico, estrutura cerebral responsável por seu processamento.
      2 - As reações irão variar de acordo com o sentimento. Mas os caminhos pelos quais atingirão o coração são os mesmos.
      3 - O primeiro é via sistema nervoso autônomo. Ele envia sinais elétricos, recebidos por fibras nervosas presentes no tecido cardíaco. Seu papel é acelerar ou reduzir o ritmo cardíaco.
      4 - A outra via é química . Seu principal agente são os hormônios, como a adrenalina, por exemplo, secretados por algumas glândulas. Elas entram em ação após receber as ordens do hipotálamo, parte do sistema límbico.

      Os efeitos

      Dependerão da natureza das emoções

      Negativas- Raiva, irritação, ansiedade, tristeza e depressão

      As glândulas adrenais, situadas acima dos rins, aumentam a produção de adrenalina. Esse hormônio provoca:

      - Diminuição do calibre dos vasos sangüíneos. Isso causa a elevação da pressão arterial
      - Maior produção de fatores pró-coagulantes, deixando o corpo mais vulnerável à formação de coágulos que podem entupir as artérias.
      - Desequilíbrio na atividade do endotélio, tecido que reveste as paredes dos vasos. Ele produz substâncias que ajudam na dilatação das artérias e outras envolvidas em processos inflamatórios. Como resultado, há maior estreitamento dos vasos e produção de compostos inflamatórios.
      - Pelo sistema nervoso, são emitidos sinais que elevam a freqüência cardiaca.
      - Há prejuízo do sistema de defesa do corpo.
      - A depressão, particularmente, aumenta o batimento cardiaco e prejudica sua variabilidade. Se não há variação, há sobrecarga do músculo cardíaco, o que piora sua função de bombear o sangue e facilita o aparecimento de arritmias.

      Conseqüências

      Aumento da chance de infarto em portadores de fatores de risco, como alto nível de colesterol e hipertensão.

      Probabilidade de ocorrência da chamada síndrome do coração partido em indivíduos sem fatores de risco oficiais. Nesses casos, o paciente sofre os mesmos sintomas de um infarto, mas não apresenta obstrução das artérias por placas de gordura ou alteração dos batimentos. Mas a descarga de adrenalina provoca espasmo nas coronárias e dilatação do músculo cardíaco. O problema pode matar.

      Positivas- Alegria, amor, paixão, otimismo, confiança

      - O hipotálamo determina a produção de substâncias como a serotonina e a dopamina. Esses compostos cerebrais estimulam a função cardíaca e contribuem para regular a pressão arterial.
      - A hipófise estimula maior produção de endorfinas, substâncias associadas à sensação de prazer e tranqüilidade.
      - O sistema imunológico fica fortalecido.

      Conseqüências

      Há maior proteção do endotélio, o que possibilita a manutenção da integridade das paredes dos vasos.

      A pressão arterial tende a ficar em equilíbrio.

      É mais fácil manter o ritmo dos batimentos no compasso correto.

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