Anatomia do Medo


O hipocampo compara experiências; o córtex pré-frontal integra informações sensoriais, emocionais e culturais para formular planos de ação em situações de emergência - e a amígdala dispara o alarme.

Revista Scientific American - por Christophe André

O medo funciona como um sinal de alerta. Sua principal função é nos proteger: ao chamar a atenção para um risco iminente, nos permite enfrentá-lo. O medo é uma reação inerente ao ser humano - esperada e útil em determinadas circunstâncias - ativada quando há um bom motivo, ou seja, diante de um perigo real (e não da eventualidade ou da lembrança). Em alguns casos, porém, esse sistema pode estar desregulado.

A intensidade do temor costuma ser proporcional ao risco, permitindo que a pessoa aja de maneira adaptada à situação, por exemplo, recuando lentamente diante da serpente prestes a dar o bote - em vez de sair correndo. Certamente, pode haver erros e alarmes falsos nesse sistema. Nesse caso, tem-se medo "por nada" - pois a natureza entende que é melhor por engano. Mas, em geral, esses falsos sinais são ocasionais e controláveis.

Em sua regulação, o medo normal se desfaz rápida e facilmente quando o perigo passa, ou quando percebemos que não se tratava de algo tão ameaçador. É o que ocorre em situações em que ouvimos um barulho violento ou pessoas que chegam silenciosamente atrás de nós.

Uma vez cumprido seu papel de avisar o organismo, o temor deve diminuir, caso contrário se torna inútil e perigoso. A desregulação desse processo provoca ataques de pânico, que aniquilam as capacidades de adaptação e provocam paralisia momentânea. A reação é equivalente a uma crise de asma numa pessoa alérgica. Já o medo normal pode ser modulado, focado nesse ou naquele perigo. É possível regular nossa intensidade de temor de acordo com o contexto e as necessidades em cada circunstância: em meu computador mental, eu não inicio o software do medo para fazer minhas compras no quarteirão onde moro, mas o ativo se tiver de caminhar na selva ou à noite numa região onde o índice de assaltos é alto. Podemos, portanto exercer um relativo controle sobre esta "programação".

Um bom exemplo de adaptação é a sensação que experimentamos ao fazer uma trilha e passar por um morro íngreme: olhando para o vazio que se abre ao lado, sabemos que uma queda daquele lugar seria mortal tanto pela altura quanto pelas rochas que estão lá embaixo. Portanto, sentimos um pouco de medo. Mas também temos consciência de que, caminhando devagar e olhando onde colocamos os pés não corremos risco de cair. Assim, podemos controlar o temor, mas é bom senti-lo, pois ele nos protege e nos dissuade de caminharmos excessivamente despreocupados.

    Uma cobra no caminho

    Vias corticais e subcorticais no cérebro podem evocar uma reação de medo a uma cobra no caminho. Estímulos visuais são inicialmente processados pelo tálamo, que repassa informações grosseiras, quase arquetípicas, diretamente para a amígdala. Essa transmissão rápida permite que o sistema cerebral reaja ao perigo potencial. Ao mesmo tempo, o córtex visual também recebe informações do tálamo e, com maior sofisticação perceptiva, determina que existe uma cobra no caminho. Essa informação é retransmitida para a amígdala, causando o aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial, além de contração muscular. Caso, entretanto, o córtex determine que o objeto não é uma cobra, a mensagem enviada para a amígdala fará com que a reação de medo seja suprimida.

  • À flor da pele

    Atualmente, o circuito cerebral do medo é bastante conhecido em linhas gerais. Um de seus principais estudiosos é o neurocientista Josef E. LeDoux, professor da Universidade de Nova York. Sabemos que sob o nosso córtex existe um cérebro emocional um pouco mais rústico, que partilhamos com nossos primos do reino animal. Quando se colocam indivíduos diante de seus objetos de temor, observa-se um aumento muito significativo do débito sanguíneo nessa região, sede neurológica da ativação emocional.

    Nossos órgãos sensoriais (visão, audição, olfação etc.) recebem informações do ambiente indicando a presença ou a possibilidade de um perigo, por exemplo uma serpente ou uma corda no chão parecida com o réptil. Algumas informações sensoriais, sobretudo visuais e auditivas, recebem um primeiro tratamento no tálamo, uma zona central do cérebro; existem dois circuitos cerebrais capazes de acionar o alarme de medo, um curto entre o tálamo e a amígdala, e um longo, no qual o córtex se interpõe entre essas duas estruturas.

    Uma vez acionada, a amígdala lança um primeiro alarme corporal, sob a forma de uma reação de vigília, de posição de tensão. Depois, a pertinência desse sinal é avaliada por diversas estruturas cerebrais próximas da amígdala, envolvidas no "circuito do medo", principalmente o hipocampo, uma zona que age independentemente de nossa vontade, e o córtex pré-frontal, que atua - apenas em parte - em função de nossa vontade.

    O nódulo cerebral denominado "hipocampo" exerce, entre outras, a função de fazer comparações com nossas experiências. O hipocampo também é capaz de considerar o contexto em torno do objeto do medo. É o caso, por exemplo, do tigre enjaulado que nos provoca um discreto arrepio de medo (a amígdala dispara uma pequena reação de alerta) - mas o fato de ele estar preso freia o medo. Os fóbicos não dispõem desse "breque contextual"; para eles, qualquer estimulação fóbica é levada muito a sério. O contexto exerce apenas um papel secundário. Os medos sociais severos podem ocorrer mesmo diante de amigos ou parentes, se os olhares e a atenção das pessoas são direcionados para o paciente.

    O córtex pré-frontal, por sua vez, funciona como regulador das reações automáticas. É ele que deve integrar todas as informações sensoriais, emocionais, culturais e subjetivas para formular um plano de ação adequado, às necessidades e ao contexto de cada situação. Existem ainda outras partes do cérebro envolvidas, como o nódulo ventral da estria terminal, que asseguraria, de certa forma, a passagem do medo à ansiedade, ou como o locus ceruleus, que obedece às ordens da amígdala e aciona as reações físicas.

    Retomemos o exemplo da serpente (ou da silueta), avistada no chão durante uma caminhada. Nossos olhos percebem a forma sombria e sinusoidal no chão, aparentemente imóvel. Eles transferem a informação à amígdala, que lança um primeiro alarme: Atenção! Atenção! Forma suspeita!". E aciona um primeiro procedimento de sobrevivência: "Não se mexa!".

    O hipocampo, então, percorre rapidamente nosso arquivo de lembranças: "Essa forma está registrada em minha memória coletiva ou pessoal como fonte de perigo?". Durante esse tempo, o córtex pré-frontal tenta assumir o comando das operações: "Mantenha-me informado, mas aproximando-se com cuidado para observar. Vamos ver de que se trata sem correr riscos exagerados". Se, por um motivo ou outro, o hipocampo ou o córtex pré-frontal não interromperem o alarme disparado pela amígdala, nada mais pode interromper a intensa sensação de medo - e o pânico se instala. Assim, fugimos em disparada de um inofensivo galho de árvore.

    Ou ainda, se houver um perigo real - o que pode acontecer -, ficaremos aterrorizados diante da víbora, e teremos ainda mais medo daí para frente. Assim, a sensação de pânico se repete e o circuito biológico do medo se intensifica. As crises podem, então, deslanchar sozinhas, em ausência do estímulo deflagrador, de formas aparentemente absurdas, como um programa desregulado que se lançasse sozinho na tela do seu computador, depois de ter sido acionado um comando ao qual você nem mesmo lembra ter dado atenção.

    "Eu me sinto como um animal assustado, estou sempre com receio de que falem comigo e eu comece a gritar, tremer ou transpirar de modo absurdo por uma coisa banal", dizia-me um paciente com fobia social, referindo-se às suas saídas na rua. Sem modulação, uma situação corriqueira pode causar reações incontroláveis. É por esse motivo que muitos pacientes sofrem do que se costuma chamar de "síndrome do pânico". "Se eu começo a ficar assustado, logo acho que esse mal-estar vai se transformar em desespero completo, vai me deixar fora de controle essa angústia é aterradora", confidenciou-me outro paciente.

    Quanto mais uma pessoa tem medos violentos e frequentes, mais essas sensações retornam - é como um círculo vicioso que precisa ser interrompido. Certas pessoas podem sofrer de uma espécie de "auto-estimulação fóbica", por exemplo: quem tem receio de ruborizar, pode ficar absurdamente vermelho, mesmo ao conversar com alguém por telefone, quando não pode ser visto, pelo simples fato de pensar na possibilidade de ficar com o rosto avermelhado, mesmo que a conversa gire em torno de um tema que não provoque constrangimentos.

    Outro exemplo são os ataques de pânico espontâneos ou noturnos em pessoas que sofrem de agorafobia (medo de lugares públicos e amplos). Esse tipo de crise de angústia pode aparecer mesmo desvinculado de situações angustiantes.

      Assombrações à espreita

      Como todos os humanos, você deve ter sentido medo de escuro, de lobo, de monstros escondidos embaixo da sua cama, de desconhecidos, de se afastar de sua mãe, de pular de um trampolim etc. Essas reações são comuns na infância. Afinal, quanto mais frágil é um ser vivo, mais o medo lhe serve de proteção instintiva, preciosa e indispensável. A um dado momento de seu desenvolvimento, toda criança manifesta medos excessivos que, aos poucos, irão desaparecer ou ser controlados, sob efeito da educação e da vida em sociedade. Tais emoções existem por acaso. Por exemplo, o medo de altura e de estranhos aparece quando ocorre a locomoção: colocados numa superfície de vidro pendendo sobre o vazio, crianças de menos de 8 meses não manifestam ainda sinais de apreensão. Só mais tarde eles surgirão.

      Os temores só surgem quando a criança começa a ter necessidade deles, para fazer com que evite correr muitos riscos. A educação irá permitir que supere o caráter absoluto desses medos e possa assim equilibrar sua reação. Com relação à utilidade dessas apreensões, um estudo coordenado pelo pesquisador B. I. Bertenthal, publicado em 1984 na revista americana Psychophysiology, mostrou que as crianças que tinham pouco medo de altura caíam e se feriam mais do que as outras. Em contrapartida, um baixo nível geral de medos na infância parece estar associado a um melhor desempenho nos esportes, na adolescência e na idade adulta, conforme comprovou R. Poulton, em pesquisa realizada em 2004. Com o tempo, a maioria dos medos da infância desaparece, embora os excessivos em certos casos evoluam para casos de fobia. É por isso que a tendência atual é de não considerar sistematicamente todos os medos da criança como "normais", benignos e destinados a desaparecerem com a idade.

      Uma pesquisa dirigida por P. Muris e publicada na Behaviour Researeh and Therapy, em 2.000, concluiu que cerca de 20% das crianças dissimulam ansiedades que deveriam ser tratadas desde cedo. Talvez porque, contrariamente ao que se pensa, os pais subestimam muitas vezes os medos de seus filhos, tanto os diurnos quanto os noturnos.

  • De volta à floresta

    Todo mundo tem medo. Vários deles, aliás. Minha experiência clínica e a literatura internacional mostram que metade dos adultos tem verdadeiro pavor de pelo menos um estímulo. Dentre as pessoas que admitem esse problema, observa-se que quase metade sofre de fobia - uma das psicopatologias mais frequentes, ao lado das doenças depressivas e do alcoolismo e muitas vezes, pode acompanhá-las. Os chamados objetos fobógenos ou fóbicos, que provocam medo, (com ou sem razão aparente) são muito variados. Mas eles não têm nada de aleatório: normalmente, temos medo daquilo que a natureza nos ensinou a temer. De alguma forma, isso representa ou representava ao longo de nossa evolução um perigo para nossa espécie.

    Voltemos ao exemplo da pessoa que, ao caminhar pela mata, percebe no chão uma forma semelhante à de serpente - e imediatamente salta para o lado. Talvez o objeto não passasse de um inofensivo galho seco. Mas se fosse uma cobra, sem o salto, a pessoa poderia ter sido picada. O medo a protegeu com o alerta. O gesto foi proporcional ao estímulo: o caminhante assustado não saiu correndo pelo mato, fugindo desesperado. Este é um progresso em relação a algumas espécies de animais menos sofisticadas e a nossos ancestrais distantes.

    Pelo fato de a sede de nossas reações emocionais de medo ficar no sistema límbico, uma das regiões mais primitivas do cérebro, é comum nos comportarmos de maneira rústica diante de determinados estímulos: a primeira ação em momentos de medo é um movimento que privilegia a velocidade - e não características desenvolvidas ao longo da evolução humana, como precisão da percepção ou rapidez de raciocínio. Também é por isso que, como todas as reações institintivas, o medo pode escapar à nossa vontade: não conseguimos impedir seu aparecimento. Mas podemos aprender a regulá-lo.

    Durante o processo evolutivo, herdamos um sistema cerebral mais complexo do que o simples aparato límbico. O novo cérebro recobre o precedente e por isso é chamado neocórtex literalmente "nova camada", "novo envelope". Graças a ele somos capazes de decodificar e regular nossas emoções. É uma das explicações para o relativo "sucesso" do ser humano em relação às demais espécies. Nosso comportamento não obedece somente a determinismos simples do tipo "estímulo-resposta", o que faria com que, diante do mínimo susto fugíssemos ou ficássemos automaticamente imobilizados. Em teoria podemos coordenar nossas reações: ter um primeiro reflexo de medo e dar um pulo imediato e, em seguida, reconsiderar e ver que não havia nenhum perigo, analisar o que aconteceu e o que nos causou o medo.

    Ao longo do desenvolvimento a natureza acrescentou novos estratos sobre nosso "novo cérebro", deixando a região emocional arcaica em seu lugar. Hoje, portanto, capacidades reguladoras do medo residem nas partes mais recentes da anatomia: o córtex cerebral. Reações de medo resultam dos intercâmbios entre os dois cérebros e derivam da síntese entre a emoção de medo e sua regulação.

    Assim se ter medo é conveniente para a sobrevivência saber modulá-lo faz bem para a qualidade de vida. Capacidades herdadas das fases mais recentes de nossa evolução - como previsão, simbolismo, memorização, imaginação - nos permitem aprimorar e tornar mais flexíveis nossas reações. Por isso talvez a definição mais exata do medo é que ele é a consciência de uma situação ameaçadora: posso não temer enfrentar um grande risco ou ainda sentir pavor mesmo quando o perigo está apenas no âmbito da fantasia.

    Eis aí o problema: o aumento da complexidade do cérebro humano que deveria, em princípio, melhorar o controle sobre os medos, desencadeia também maiores riscos de disfunções. Nossa imaginação pode aprender a ter medo de fantasmas, e a capacidade de previsão pode antecipar a angústia, transformando a apreensão em medo, bem antes que ele seja útil - ou perdure de forma estressante nos "pré"-ocupando com acontecimentos que nunca ocorrerão.

  • Fatores ambientais

    Como todas as emoções fundamentais, o medo provoca ansiedade, angústia, susto, pânico. Os teóricos consideram que tais fenômenos psicológicos pertencem à família do medo e devem ser compreendidos em relação a ele. Assim, do ponto de vista comportamental, podemos dizer que a ansiedade é um medo antecipado; é a vivência associada à expectativa, ao pressentimento ou à proximidade do perigo. A angústia é uma ansiedade com vários sinais físicos. Ambos são medos "sem objeto": o perigo ainda não está presente, mas já se sente o pavor. Pânico, terror e susto são medos que diferem entre si pela intensidade e têm como características comuns tanto a impossibilidade de exercermos controle sobre eles quanto o fato de que podem advir na ausência de qualquer perigo real, simplesmente por um equívoco dos sentidos, por lembranças ou pela previsão de risco. Em suma, o termo "medo" pode englobar inúmeros fenômenos psicológicos.

    Considera-se atualmente que os medos patológicos e as fobias resultam de uma dupla predisposição: biológica, essencialmente inata (carga genética individual herdada, mas também herança coletiva, da espécie) por um lado e, por outro, influências ambientais (e, portanto, adquiridas). O peso de cada um desses dois pólos é variável.

    Alguns medos pronunciados como de água, de altura ou de animais parecem muito ligados a fatores genéticos. O pavor de dirigir após um acidente, associado a determinantes ambientais, tem maior peso. Porém, mais frequentemente, os grandes medos se explicam pela epigênese, ou seja, a interação entre genes e ambiente. A influência genética real é um determinante flexível, e não há um único gene capaz de transmitir vulnerabilidade ao medo, mas diversos, já que se trata de um mecanismo poligênico. Além disso, a interferência pode se manifestar de diferentes maneiras, dependendo da história de vida, das características pessoais e das interações com o ambiente.

    Enfim, é possível que o que é geneticamente transmitido seja apenas uma tendência geral a uma "afetividade negativa", isto é, o conjunto de predisposições para sentir emoções patológicas como o medo ou a tristeza.

    Estudos mostram que tendências biológicas para a ansiedade estão ligadas a acontecimentos precoces de vida. Isso foi demonstrado nos animais: os filhotes de rato privados da mãe, ou criados em ambientes artificiais, têm mais manifestações de medo e ansiedade quando adultos. Acredita-se que o stress in utero, ou seja, o impacto dos problemas emocionais da mãe sobre o feto, ocorra também em humanos. Nossas experiências de vida sempre deixam marcas no cérebro. Mas a neuroplasticidade não é unilateral. Terapias eficazes podem modificar a dimensão biológica das fobias.

      Aprendendo a temer

      Estudos desenvolvidos em diversos centros de pesquisa indicam que quatro tipos de aprendizado podem facilitar a aquisição de medos extremos:

      - Acontecimento traumático marcante: ter vivido uma ameaça que deixasse marcas na memória (agressão, acidente etc.).
      - Traumas repetidos: sofrer pequenos traumas de maneira regular, sem possibilidade de controle da situação (humilhações, negligência, etc.).
      - Aprendizagem social, por imitação de modelos: ver frequentemente alguém assustado, em geral um dos pais.
      - Assimilação de mensagens de precaução: ter recebido educação que insistia nos perigos ligados a determinado tipo de situação.

  • Patrimônio da Humanidade

    O psiquiatra inglês lsaac Marks, professor de psicopatologia experimental do Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres por mais de 20 anos, costumava contar a seguinte história: uma de suas pacientes olhava fotos de serpentes durante uma viagem de carro, quando ocorreu um acidente. De que você acha que a moça desenvolveu fobia? De carros? Que nada, de serpentes...Parece que, quando podemos, de certo modo, "escolher" entre desenvolver medo patológico de um objeto ou de outro, é sempre sobre o medo mais "natural" e ancestral que se fixará nossa fobia: a força do inconsciente coletivo.

    Psicólogos evolucionistas propõem a hipótese da seleção natural sobre a existência e a persistência de nossos medos: a maior parte dos estímulos fóbicos tem a ver, de fato, com objetos ou situações que representavam eventual perigo para nossos ancestrais longínquos, como os animais, o escuro, os precipícios ou a água. No ambiente tecnológico contemporâneo, em que a natureza está em grande medida controlada, os animais perigosos vivem a uma distância segura e os precipícios são protegidos por barreiras, essas situações não parecem nem um pouco ameaçadoras como eram outrora. Provavelmente carregamos a memória desses perigos numa espécie de inconsciente biológico coletivo.

    Os medos maiores pertenceriam, assim, a um "pool genético" da espécie, que graças a eles teve sua sobrevivência facilitada, sendo levada a evitar situações perigosas, ao menos em determinadas épocas. A essas fobias chamamos de preparadas (pela evolução), pré-técnológicas, ou filogenéticas (relativas ao desenvolvimento humano).

    Estas fobias naturais seriam facilmente desenvolvidas na maioria das pessoas e mais resistentes ao desaparecimento. Já o medo de avião, de dirigir e de armas são os não-preparados, tecnológicos, ou ontogenéticos (relativos ao desenvolvimento do indivíduo). Estes são adquiridos por meio da aprendizagem, sobretudo, a partir de experiências traumáticas.

    A amígdala "aprende" e memoriza perfeitamente as experiências e condicionamentos de medo. Graças às técnicas de neuroimagem, que permitem visualizar quais regiões do cérebro encontram-se implicadas nas diferentes situações vitais, o papel desse órgão pôde ser estudado. Uma pesquisa muito interessante foi realizada recentemente para descobrir o que acontece em nosso cérebro quando tomamos a palavra em público. Sentimos alguma tensão nessas situações é quase sempre inevitável, mas para os fóbicos sociais esse nervosismo vem acompanhado da incapacidade total de reunir pensamentos e de encadear uma linha lógica de pensamentos e de conhecimentos ou lembranças. Imagens cerebrais revelaram que, entre os indivíduos acometidos por "nervosismo normal", falar em público aumentava a irrigação sanguínea da região da amígdala (o que mostra que também sentiam medo). Mas, sobretudo, aumentava o consumo de oxigênio nas diferentes regiões corticais, conforme o aporte da energia necessária para mobilizar os recursos intelectuais, a fim de enfrentar a situação.

    Com os fóbicos ocorria o inverso: uma ativação muito forte da amígdala e, em comparação com os não-fóbicos, menor irrigação sanguínea das regiões do córtex. Tais resultados correspondem exatamente ao que nos contam os pacientes que sofrem de grandes medos sociais: a impressão de uma catástrofe, de um enorme desconforto interior, é o resultado do funcionamento intenso da amígdala. A sensação de "vazio" ou de "branco" resulta das zonas corticais totalmente desorientadas pelo alarme imponente, onipresente e terrificante.

    A amígdala sempre é alertada por primeiro: diante de uma ameaça, é como se o corpo sentisse medo antes mesmo de psiquicamente nos darmos conta disso. Mas por que uma zona cerebral mais arcaica toma o poder sobre zonas neurológicas mais "nobres" e mais "evoluídas"? A explicação é anatômica: nosso cérebro possui redes sinápticas mais numerosas no sentido amígdala-córtex pré-frontal do que na direção oposta.

  • Auto-inflamáveis

    Somos controlados pelo medo desde que nascemos, e é a vida que nos ensina a desenvolver uma capacidade de selecioná-los: com base naquilo que nos ensinam, que observamos ao nosso redor e pelo que experimentamos. É como se nosso cérebro fosse "equipado" no padrão evolutivo com um programa que nos prepara a sentir o maior número de medos possível. É provável que essa capacidade seja similar a de nosssos ancestrais, mas os perigos que encontramos não são os mesmos - daí a necessidade de modulação e flexibilização. Atualmente, não precisamos aprender a ter medo (já somos preparados para isso por natureza), mas, sim aprender do que devemos ter medo - e também a deixar de temer.

    Alguns medos são auto-inflamáveis e podem principiar totalmente ou praticamente sem estímulo externo: um pensamento, um olhar ou um silêncio, um batimento cardíaco mais forte, um despertar no meio da noite. O sistema nervoso simpático dessas pessoas está sempre num nível de funcionamento bastante elevado, como se estivessem sempre tensos.

    A fobia tem memória longa. Mesmo depois de se ter feito progressos, enfrentando vitoriosamente seus temores, mudado sua visão de mundo (diminuído os cenários catastróficos), o medo sempre pode reaparecer, como aquele refrãozinho insistente que sempre retorna e ninguém agüenta mais ouvir...O fato é que nosso cérebro nunca esquece seus medos, e os conserva arquivados, como se estivessem dormindo. Portanto, mesmo depois de termos vencido nossos temores, pode ser suficiente o confronto com uma situação outrora relacionada ao pânico, somada a uma fragilidade momentânea, para que uma onda de pânico reapareça. Mas, na realidade, esses retornos do medo são totalmente controláveis pelos pacientes que foram orientados a respeito, principalmente aqueles que treinaram na terapia comportamental: eles sabem perfeitamente o que fazer para controlar a extensão do medo e colocá-lo novamente para fora de cena, caso antigos reflexos emocionais se aventurem a apontar novamente na sua frente.

  • Neuroplasticidade

    Não é simplesmente por estar ancorado na biologia que um fenômeno é irremovível. O que funciona em um sentido - a sensibilização ao medo - pode ser usado para o oposto - dessensibilização. Pesquisas recentes mostraram que as anomalias cerebrais associadas aos problemas fóbicos podiam se normalizar com tratamento, seja com medicamentos ou com psicoterapia. Esse fenômeno chamado "neuroplasticidade cerebral" é um dos assuntos mais estudados dos últimos anos por pesquisadores em psicologia e psicoterapia: ele relembra, nada mais, nada menos, que nosso cérebro está em evolução contínua em função das experiências que vivemos. Podemos agir sobre o cérebro, e é possível reconfigurá-lo para que as emoções patológicas não sejam mais uma fatalidade.

    Na luta contra a fobia acontece a mesma coisa: podemos aprender a dominar os excessos, mas isso exigirá esforços durante certo tempo. Os primeiros benefícios, porém, podem vir rapidamente.

    Um de meus pacientes me fez, um dia, a seguinte comparação: "Hoje eu me sinto com meus medos como um domador na jaula dos animais ferozes. Continuo receoso, mas sou eu que comando. Eu não passo a vida dentro da jaula, mas, sempre que tiver de entrar nela, sei que consigo fazê-lo. E, às vezes - apenas às vezes - eu percebo que dominar meu medo em certas circunstâncias me dá uma certa satisfação...".

    Para conhecer mais

    Psicologia do medo - como lidar com temores, fobias, angústias e pânicos. Christophe André. Editora Vozes, 2007.
    Paisagens do medo. Yi-fu Tuan. Unesp, 2005.
    Medo social: da violência visível ao invisível da violência. Luzia Fátima Baierl. Cortez, 2004.
    Ano 1000 ao ano 2000: na pista de nossos medos. Georges Duby. Imprensa Oficial de São Paulo, 1999.
  • Oratória

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