Hiperatividade: Doença ou Falta de Educação?


Revista Planeta - Por Sheila Lobato

Freqüentemente confundida com falta de educação, a hiperatividade, ou o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), afeta cerca de quatro milhões de pessoas - entre crianças e adultos - somente no Brasil. Tendo como características básicas a falta de persistência em atividades que requeiram atenção, fazer várias coisas ao mesmo tempo sem concluir alguma delas e desorganização, a doença compromete o desempenho profissional, afetivo e familiar de seus portadores. Mas atualmente ela já pode (e deve) ser tratada.

Quando uma criança não pára quieta, anda de um lado para o outro, pula, sobe nos móveis, derruba tudo pela frente, espalha as roupas e os brinquedos, revira as gavetas, interrompe o professor a cada momento, não termina as lições, tem problemas de relacionamento com os colegas, responde impulsivamente, está sempre se esquecendo do que já aprendeu, geralmente conclui-se que é mal educada. Provavelmente é verdade, mas pode ser que sofra de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): 3% a 5% das criannças com menos de 7 anos têm a doença.

O problema, quando tratado, diminui na adolescência, mas há controvérsias quanto à persistência entre os adultos. Para alguns estudiosos, a proporção de crianças hiperativas que mantêm o distúrbio na idade adulta varia de 4% (Salvatore Mannuza) a 66% (Russel Barcley). O certo é que o transtorrno de déficit de atenção e hiperatividade compromete o desempenho profissional, afetivo e familiar dessas pessoas.

Agora, muita calma e atenção. Nem toda criança bagunceira, levada e desatenta é doente. Somente um exame clínico profundo, incluindo também suas condições de vida e sua história pessoal, permite a conclusão do diagnóstico. Em primeiro lugar, os sintomas precisam manifestar-se em dois ambientes distintos - geralmente em casa e na escola. E, dos comportamentos que caracterizam o problema, é necessário a observação de, no mínimo, oito deles duurante seis meses seguidos. Observe se a criança:

- Fica freqüentemente irrequieta com as mãos, os pés ou se remexendo muito na cadeira.
- Tem dificuldades de permanecer sentada quando alguém lhe pede que o faça.
- É facilmente distraída por estímulos exteriores.
- Tem dificuldade de esperar pela sua vez nos jogos ou em situações de grupo.
- Com freqüência, dá respostas precipitadas antes mesmo de a pergunta terminar de ser feita.
- Tem dificuldade de seguir instruções(não como rebeldia ou falta de compreensão).
- Tem dificuldade de manter a atenção nas tarefas ou atividades de jogo.
- Alterna-se, freqüentemente, de uma atividade não terminada para uma outra.
- Demonstra ter dificuldade de brincar silenciosamente.
- Freqüentemente, a criança fala excessivamente.
- Quase sempre se intromete ou interrompe outras pessoas.
- Parece não ouvir o que a(s) pessoa(s) lhe diz(em).
- Perde os materiais necessários à realização de tarefas ou de atividades em casa ou na escola.

O TDAH é um dos distúrbios menos conhecidos pelos profissionais da área da educação e até mesmo entre os da saúde, provocando a demora do diagnóstico e do tratamento. Embora as suas causas não sejam totalmente conhecidas, a influência genética é demonstrada por estudos com famílias de portadores do transtorno. Provavelmente, vários genes de pequeno efeito determinam a vulnerabilidade do indivíduo.

É importante ressaltar que se trata de dois sintomas agregados: a hiperatividade propriamente dita e a impulsividade. A hiperatividade está ligada à motricidade, aos movimentos. A impulsividade se caraccteriza pela impaciência, intempestividade - que se manifesta também em adolescentes e adultos. Há casos de predominância de apenas um dos sintomas, mas, na maioria das vezes, tanto a , Hiperatividade como o déficit de atenção se apresentam juntos.

Quase sempre o TDAH está associado a um risco significativamente maior de baixo desempenho escolar, repetência, expulsões e suspensões escolares, relações difíceis com familiares e com colegas, desenvolvimento de ansiedade, depressão, baixa auto-estima, problemas de conduta e delinqüência, experimenntação e abuso de drogas, acidentes de carro e multas por excesso e velocidade.

Na vida adulta, são mais freqüentes a ansiedade e a depressão, que aumentam as dificuldades de relacionamento - tanto no casamento quanto no trabalho. Nas crianças, além da ansiedade, surgem os transtornos de conduta que não decorrem apenas da distração. São dificuldades de aprendizado específicas, como a dislexia(dificuldade para compreender o que lê), a disgrafia(dificuldade para escrever), a discalculia(dificuldade para fazer cálculos).

Nos adolescentes, o problema maior é o uso de drogas. Não existe uma explicação para o fato, mas os estudos demonstram que o uso de drogas é maior entre os portadores de TDAH, na comparação com indivíduos sem o transtorno. E que o consumo de cocaína é comum entre eles, segundo Mario Louzã, coordenador do Projeto de Déficit de Atenção e Hiperatividaade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

"Sob a ação da droga ficam mais atentos, mais concentrados. Aí entra um aspecto interessante dessa doença: os estimulantes diminuem a hiperatividade e a desatenção, tanto que o tratamento é feito com medicação que contenha esse tipo de substância. Apesar de parecer paradoxal, atende ao que se supõe ser o mecanismo dela: a falta de uma ação inibitória do sistema nervoso central sobre algumas áreas. Portanto, quando se estimula a inibição, aumenta o controle da atenção, da atividade motora e da impulsividade", explica Louzã.

No Brasil existe só um medicamento com esse princípio ativo. É o metilfenidato, que age reduzindo os três sintomas básicos do TDAH - desatenção, hiperatividade e impulsividade. Os efeitos colaterais conhecidos são a diminuição do sono e do peso, além de dores de cabeça. Mas são passageiros e suportáveis, caso contrário a medicação é suspensa pelo médico. O remédio é eliminado do organismo em cerca de cinco horas.

No adulto, associado à psicoterapia, o medicamento ajuda a controlar a doença. Na criança, o tratamento é mais complexo e freqüentemente envolve uma equipe multidisciplinar, pois requer também a aplicação de medidas pedagógicas e comportamentais.

Para Louzã, se o paciente é criança, o ideal é acompanhar a evolução do quadro. "Estudos demonstram que até a idade adulta os sintomas diminuem e em 50% dos casos desaparecem espontaneamente. Se persistirem, provavelmente a doença se estabilizou. A hipótese é que, nesses 50%, os sintomas continuem sempre os mesmos pelo resto da vida. Logo, o tratamento deve ser mantido indefinidamente."

Márcia Maria de Toledo, psicóloga da equipe multidisciplinar de pesquisas sobre o TDAH em criannças no Hospital das Clínicas da Unicamp, explica que o tratamento depende ainda da idade da criança. Em alguns casos, no entanto, a psicóloga acredita que o remédio seja imprescindível. "Mas ele tem de ser usado por pouco tempo, até a criança aprender a viver sem a medicação. O remédio só remove o sintoma", adverte.

O neurobiologista César de Moraes defende a necessidade do medicamento, independentemente de existir ou não acompanhamento. "Embora o ideal seja que a criança tenha um tratamento integral, com profissionais de diversas áreas atuando em conjunto, o risco de não tratar é muito maior que o risco de tratar somente com o medicamento. O metilfenidato, apesar de não curar, ajuda a melhorar os sintomas." De acordo com ele, metade das crianças leva o transtorno para a vida adulta.

Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (Idum) constatou que, entre os anos de 2000 e 2004, a venda do metilfenidato teve um crescimento de 940%. Embora não haja explicação concreta, alguns especialistas acham que houve uma maior divulgação do transtorno pela mídia, enquanto outros atribuem o fato a investimentos da indústria farmacêutica no marketing do produto.

Um dos laboratórios que fabrica o medicamento acredita que o aumento das vendas se justifica pelo maior conhecimento dos profissionais da saúde sobre o problema e considera que, mesmo assim, o número de pacientes medicados é ainda muito pequeno. A empresa estima que 25 mil pacientes tenham sido tratados em 2005, mas dados de prevalência da doença (3% a 6% em crianças e 2% em adultos) apontam para cerca de quatro milhões de pessoas com TDAH no Brasil. "Portanto, ainda que tenha havido aumento nas vendas, existem milhões de pacientes não diagnosticados ou não tratados."

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