Podemos ser cada vez mais inteligentes?



Aumento contínuo dos resultados nos testes que medem o quociente de inteligência (QI) sugere que nossos descendentes farão com que a geração atual pareça lerda. Esse efeito, entretanto, pode revelar que estamos apenas encontrando outras formas de usar o cérebro.

Revista Mente & Cérebro - por Tim Folger


Há três décadas, o pesquisador James R. Flynn, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, descobriu um fenômeno que os cientistas sociais ainda se esforçam para explicar: os quocientes de inteligência (QI) vêm crescendo constantemente em todo o mundo desde o início do século 20. Por mais questionável que essa seja medição, o resultado da pesquisa de Flynn vale pelo menos ser considerada. Ele examinou dados de testes de inteligência de mais de 20 países e descobriu que a pontuação está subindo 0,3 ponto por ano - ou 3 pontos por década. Quase 30 anos de estudos de acompanhamento confirmaram a realidade estatística do avanço global, conhecido agora como efeito Flynn. E os pontos continuam subindo.

"Para minha surpresa, no século 21 os aumentos continuam", diz Flynn. "Os últimos dados mostram os ganhos acompanhando a velha taxa de três décimos de ponto por ano."Um dos aspectos mais estranhos desse efeito Flynn é certa monotonia - ele não desacelera, para ou recomeça. Apenas se move regularmente para cima, "como se guiado por uma mão invisível", reforça Flynn. O psicólogo Joseph Rodgers, da Universidade de Oklahoma, examinou os resultados dos testes de quase 13 mil estudantes americanos para ver se poderia detectar o fenômeno numa escala de tempo mais restrita. "Questionamo-nos se os pontos dos estudantes melhorariam num período de cinco ou dez anos. Bem, eles melhoraram num período de um ano. O aumento está lá, sistematicamente, ano após ano. Pessoas nascidas em 1989 têm resultado um pouco melhor que as nascidas em 1988."

O efeito Flynn significa que as crianças vão, em média, conseguir 10 pontos a mais nos testes de QI do que seus pais. Até o fim deste século, nossos descendentes terão uma vantagem de quase 30 pontos sobre nós - a diferença entre a inteligência média e os 2% do topo da população - se o fenômeno se perpetuar. Surgem, porém, algumas questões. A tendência se manterá indefinidamente, levando a um futuro repleto de pessoas que seriam consideradas gênios pelos padrões de hoje? Ou há algum limite natural ao desenvolvimento da inteligência humana? E, mais importante: aumentar a pontuação nesse tipo de teste significa realmente que as pessoas são mais inteligentes ou apenas que o cérebro encontrou formas de obter pontuações mais altas?

Mente moderna
Logo que reconheceram o efeito Flynn, os pesquisadores viram que os pontos ascendentes eram resultado quase inteiramente do avanço no desempenho em partes específicas dos mais usados testes de inteligência. Um deles, o Wechsler Intelligence Scale for Children (WISC, em inglês), tem múltiplas seções, e cada uma avalia capacidades diferentes. Seria mais plausível esperar avanços na inteligência cristalizada - caracterizada pelo tipo de conhecimento obtido na escola -, mas isso não acontece. Os pontos nas seções que medem os níveis de aritmética e vocabulário continuaram constantes ao longo do tempo.

A maior parte dos ganhos de QI veio justamente de dois subtestes dedicados ao raciocínio abstrato. Um lida com "similaridades" e apresenta questões como "Em que uma maçã e uma laranja são semelhantes?". Uma resposta de baixa pontuação seria "ambas são comestíveis". Uma de pontuação mais alta seria "as duas são frutas", já que transcende simples qualidades físicas.
Outro subteste contém uma série de padrões geométricos relacionados de alguma forma abstrata para que a pessoa identifique corretamente a relação entre os padrões.

Um paradoxo do efeito Flynn é que testes como esses foram projetados para ser uma medida completamente não verbal e culturalmente neutra do que os psicólogos chamam de inteligência fluida: uma capacidade inata para resolver problemas desconhecidos. Mas o efeito Flynn mostra claramente que algo no ambiente tem acentuada influência nos supostos componentes culturalmente neutros da inteligência em populações do mundo todo. Os psicólogos Ainsley Mitchum e Mark Fox, da Universidade do Estado da Flórida, que fizeram estudos detalhados das diferenças entre gerações no desempenho em testes de inteligência, suspeitam que o aprimoramento de nossa capacidade de pensar de maneira abstrata possa estar relacionado à tecnologia, que nos proporciona uma nova flexibilidade na forma como percebemos os objetos.

"Todo mundo conhece o 'botão' iniciar na tela do computador, mas não se trata realmente de um botão", diz Mitchum. "Eu estava tentando ensinar para minha avó como desligar o computador e disse: 'Aperte o botão iniciar e selecione desligar'. Ela bateu com o mouse na tela." Mitchum acrescenta, no entanto, que não se trata de falta de inteligência da avó: ela cresceu num mundo em que botões eram botões e telefones certamente não eram máquinas fotográficas. Muitos pesquisadores, entre eles o próprio Flynn, reconhecem que o aumento nos pontos do QI não reflete um aumento em nossos recursos intelectuais brutos. Na realidade, o efeito Flynn mostra como nossa mente se transformou. Esses testes exigem facilidade para reconhecer categorias abstratas e fazer conexões entre elas, o que se tornou mais útil no último século do que em qualquer época anterior na história humana.

"Se você não classificar abstrações e não estiver acostumado a usar a lógica, não pode realmente dominar o mundo moderno", avalia Flynn. "Ao fazer algumas entrevistas com camponeses russos nos anos 20, o psicólogo Alexander Luria dizia: 'Onde sempre há neve, os ursos são brancos. Então, se sempre há neve no polo norte, qual é a cor dos ursos de lá?'. E a maioria respondia que só via ursos marrons. Eles não entendiam a questão hipotética."

Mas os camponeses não eram ignorantes. O mundo deles exigia apenas habilidades diferentes.
"Acho que o aspecto mais fascinante não é que estamos indo muito melhor nos testes de QI", analisa Flynn. "É a nova luz que lança sobre o que chamo de história da mente no século 20." Uma interpretação ingênua do efeito Flynn leva rapidamente a algumas estranhas conclusões. A simples extrapolação do efeito ao longo do tempo, por exemplo, sugeriria que a pessoa com inteligência média na Grã-Bretanha em 1900 teria um QI de cerca de 70 pelos padrões de 1990. "Isso significaria que o britânico tinha deficiência mental limítrofe e não seria capaz de entender as normas do críquete", compara o psicólogo cognitivo David Hambrick, professor da Universidade do Estado de Michigan. Podemos não ser mais inteligentes que nossos antepassados, mas não há dúvida de que nossa mente mudou. Flynn acredita que a mudança começou com a Revolução Industrial, que trouxe novas realidades: maior acesso ao ensino formal, famílias menores e uma sociedade em que empregos técnicos e administrativos substituíram os agrícolas. Novas classes profissionais surgiram - engenheiros, eletricistas, arquitetos industriais - e seus postos exigiram domínio de princípios abstratos. A educação, por sua vez, tornou-se o motor de mais inovação e mudança social, desencadeando um circuito de realimentação positivo entre nossa mente e a cultura com base na tecnologia que não deve terminar em breve.

A maioria dos pesquisadores concorda com a avaliação geral de Flynn de que a Revolução Industrial e os avanços tecnológicos são responsáveis por esse efeito. Mas especificar as causas precisas - o que poderia permitir a elaboração de políticas educacionais e sociais para ampliar o resultado - tem sido difícil. Progressos na educação certamente respondem por parte dos avanços. Hoje, cerca de metade dos adultos tem pelo menos algum grau de escolaridade superior.

A educação formal, contudo, não explica completamente o que acontece. Alguns pesquisadores pressupõem que a maior parte do aumento no QI no século 20 possa ter sido liderada por ganhos na ponta esquerda da curva de sino da inteligência entre aqueles com as pontuações mais baixas, um resultado que seria provavelmente consequência de melhores oportunidades educacionais. Mas, em um estudo recente, Jonathan Wai e Martha Putallaz, da Universidade Duke, analisaram 20 anos de dados compreendendo 1,7 milhão de resultados de testes de alunos de 5ª, 6ª e 7ª séries e descobriram que os pontos de 5% dos melhores estudantes estavam subindo em perfeita sintonia com o efeito Flynn. Os resultados sugerem que, como a curva toda está mudando, as forças culturais por trás do aumento devem estar influenciando a todos igualmente. Os cientistas especulam que a disseminação dos sofisticados videogames e mesmo de alguns programas de televisão pode ajudar crianças a aumentar as habilidades necessárias para solucionar problemas propostos pelos testes de QI.

Para Rodgers, a universalidade do efeito Flynn confirma que é inútil buscar uma causa única: "Deve haver quatro ou cinco causas dominantes, cada uma se levantando contra fluxos ou desaparecimentos de outras". Melhor nutrição infantil, educação universal, famílias menores e a influência de mães com educação superior são algumas das mais prováveis. "Desde que duas causas estejam presentes, mesmo quando algo como a Segunda Guerra provoca o desaparecimento de outras duas, o efeito Flynn mantém sua curva."

Mais rápidos
O que o futuro trará? Os Qls seguirão subindo? Algo de que podemos ter certeza é que o mundo continuará mudando, em grande parte por nossas próprias ações. Flynn gosta de usar uma analogia tecnológica para descrever a interação de longo prazo entre mente e cultura. "A velocidade dos automóveis em 1900 era absurdamente baixa porque as estradas eram muito ruins", compara. Mas rodovias e carros evoluíram. Quando os caminhos melhoraram, também os veículos melhoraram - e estradas melhores levaram os engenheiros a projetar carros mais velozes. Tanto a mente quanto a cultura são atreladas num circuito de feedback semelhante. Estamos criando um mundo onde a informação assume formas e se move com velocidades impensáveis há apenas uma década. Cada ganho tecnológico demanda mentes capazes de acomodar a mudança - e a mente modificada reforma ainda mais o mundo.
Um fato a ser considerado é que a mente parece estar ficando mais rápida. Uma prática comum na pesquisa reação-tempo é descartar respostas que estejam abaixo de cerca de 200 milissegundos. "Pensava-se que 200 milissegundos era o mais rápido que as pessoas podiam responder, mas hoje digitamos textos, jogamos videogames, fazemos muito mais coisas que exigem respostas realmente velozes", diz o psicólogo cognitivo David Hambrick. Isso é bom? Não necessariamente, já que em muitas tarefas cruciais um instante a mais de hesitação pode significar menor possibilidade de erro. Assim como o efeito Flynn, a rapidez em si não é nem boa nem ruim - é uma evidência de nossa adaptabilidade. Com sorte, talvez continuemos construindo um mundo que nos torne mais inteligentes e hábeis para fazer melhores escolhas. Afinal, isso sim é sinal de inteligência.

Para saber mais:
Are we getting smarter?
Rising IQ in the twenty-first century. James R. Flynn
Cambridge University
Press,2012

Solving the IQ puzzle. James R. Flynn, em Scientific American Mind, vol. 18, nº 5, pags. 24-31, outubro de 2007.

Flynn's effect. Marguerite Holloway, em Scientific American, vol. 280, nº 1, págs. 3-38, janeiro de 1999.

 



Leitura Dinâmica e Memorização

Próximas Turmas

Grupos com 20 alunos

06/05/2017 à 04/06/2017
(5 Sábados e 5 Domingos - 13h às 16h)

11/05/2017 à 13/06/2017
(10 noites - 3ª e 5ª das 19h às 22h)

Preencha aqui seus dados