A ciência da meditação



Com os avanços na compreensão dos reais benefícios do hábito oriental para a mente e para o corpo, a prática perde seu cunho original, essencialmente religioso, e ganha novos adeptos, sobretudo entre os homens.

Revista Veja - por Carolina Melo.


Seria um combate naturalmente difícil. Em dezembro de 2007, aos 29 anos, o lutador de MMA Lyoto Machida enfrentaria o camaronês Rameau Thierry Sokoudjou, uma das estrelas do Pride - evento internacional de artes marciais mistas que precedeu a explosão de sucesso do UFC. Sokoudjou não apenas era o favorito como também havia nocauteado dois brasileiros em lutas anteriores. Para aumentar a tensão, Machida, que deveria chegar a Las Vegas cinco dias antes da luta, só desembarcou nos Estados Unidos na véspera do confronto. "Meus amigos diziam que o atraso era um sinal de que seria trucidado por Sokoudjou", lembra. "O mais prudente seria desistir." Ele não desistiu, não foi trucidado e voltou para o Brasil com o título de campeão mundial dos meios-pesados. As incansáveis horas de treino foram, sem dúvida, decicivas para a vitória. Mas o lutador baiano radicado em Belém teve a ajuda de outra poderosíssima arma, exponencialmente mais suave, a meditação. "Graças a ela, entrei no octógono com a mente vazia, sem pensar que meu adversário era considerado o mais forte", diz Machida. "Eliminei a emoção, estava plenamente atento apenas ao meu desempenho." O lutador aprendeu a meditar aos 8 anos. Seu pai, Yoshizo, mestre em caratê, lhe ensinou desde cedo alguns conceitos essenciais nas artes marciais, como a total concentração e a importância de manter a mente limpa, livre de distrações. Com o tempo, Machida, apelidado de "o dragão", percebeu que os ensinamentos recebidos na infância se tornariam fundamentais para sua vida pessoal e, sobretudo, de atleta.

"Quando treino, atinjo até 80% da minha capacidade de performance, força e técnica", diz ele. "No combate, no entanto, com toda a tensão típica de um grande evento, não consigo ter desempenho 100% adequado, e a meditação faz a diferença." A imagem de um lutador do violentíssimo MMA em posição de lótus, sereno e tranquilo, pode parecer paradoxal, uma contradição em termos. Mas não é. Comumente associada aos ripongas zen, a meditação, hoje, é hábito comum aos mais diferentes estilos de vida, conquistando especialmente os homens. Do lutador profissional ao artista plástico. Do executivo ao músico. Do chef ao cineasta.

Em sua origem, a meditação está fundamentalmente associada à religião. Há registros da prática desde a pré-história, com a entoação de cânticos em homenagem a divindades. Para os cristãos, ela consiste em uma oração de reflexão e conexão com o amor de Deus. Para os islâmicos, compõese da repetição de palavras sagradas para a comunhão com Alá. Para os budistas, a meditação é um dos oito passos para a iluminação espiritual - simbolizada pela roda de oito raios, dharmachakra, em sânscrito. Entre as outras etapas estão, por exemplo, a perfeita compreensão (dominar a doutrina budista), a aspiração (perseverar até a iluminação), a fala (expressar-se de modo agradável, verdadeiro, cortês e tranquilo) e a conduta (seguir os mandamentos budistas). Nos últimos anos, com os avanços nos conhecimentos científicos sobre os benefícios da meditação para a saúde do corpo e da mente, a prática começou a se distanciar de seu cunho religioso e, assim, a arrebanhar mais adeptos. Uma das técnicas mais populares é a meditação transcendental, desenvolvida na década de 50, e que tem praticantes como Clint Eastwood e Hugh Jackman. A Sociedade Internacional de Meditação, com uma sucursal em São Paulo, registrou, de 2012 para 2014, um aumento de 140% na procura da prática entre os homens - é um tabu que se esvai, como em outras atividades humanas delicadas e sensíveis que já são autorizadas para machos, sim, sem preconceito. Some-se a compreensão científica e dá-se a bonança perfeita.

Os cientistas começaram a se interessar pela meditação nos hippies e psicodélicos anos 70. Naquele tempo, o principal objeto de pesquisa era o cortisol, o hormônio do stress. Comprovou-se que o hábito de esvaziar a mente ajudava a controlar as taxas da substância no sangue - sendo, assim, adotado como prevenção contra as doenças cardiovasculares. A partir de meados dos anos 90, com o aperfeiçoamento dos exames de imagem, capazes de flagrar o cérebro em pleno funcionamento, a meditação perdeu em definitivo sua aura quase sagrada. Ao compararem a atividade cerebral de pessoas que meditam com a de quem não está habituado à reflexão demorada, os pesquisadores conseguiram provar que a meditação tem impacto nas estruturas cerebrais.

Um dos trabalhos mais emblemáticos sobre o tema foi realizado em 2005 com monges budistas pelo neurocientista Richard Davidson, pesquisador da Universidade Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, e um dos principais estudiosos do assunto. Oito religiosos, com 10 000 a 50 000 horas de meditação, ao longo de quinze a quarenta anos, tiveram suas ondas gama medidas por eletroencefalogramas. Essas ondas estão diretamente associadas à capacidade de atenção e consciência. Outros dez voluntários, sem a rotina de meditar, passaram pelo mesmo exame. Da comparação dos dois grupos, brotou uma constatação: no cérebro dos monges, a amplitude das ondas gama era muito superior à dos outros participantes. Uma amplitude, ressalve-se, jamais vista em nenhum outro eletroencefalograma de pessoas saudáveis. O trabalho foi publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

Em 2012, o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, realizou um estudo com dois perfis de participantes: meditadores regulares e pessoas sem nenhuma experiência com meditação. A todos foi pedido que realizassem testes de atenção. Entre outras questões, eles tinham de dizer em que cor estava escrito o nome de outra cor - a palavra "vermelho", por exemplo, aparecia pintada de verde. Enquanto respondiam, eles tiveram as funções cerebrais monitoradas por imagens captadas em uma máquina de ressonância magnética funcional. "As pessoas que não tinham o hábito de meditar acionaram mais áreas cerebrais para realizar o teste. Ou seja, fizeram mais esforço cerebral do que o grupo dos meditadores para completar o mesmo desafio", diz a neurocientista Elisa Kozasa, uma das autoras do estudo, publicado na revista científica Neurolmage.

Um dos tipos de meditação que mais têm atraído os novos meditadores é a mindfulness - ou "atenção plena". A partir da técnica, de origem budista, em 1979 o biólogo americano Jon Kabat-Zinn desenvolveu, na Universidade de Massachusetts, um programa para a redução de stress no tratamento de uma série de doenças. Dali, a atenção plena ganhou o mundo. O método tem por objetivo aprimorar a concentração no que está sendo feito aqui e agora. Se a pessoa estiver jantando, por exemplo, sua mente deve se concentrar somente no ato de ingerir o alimento - do sabor e consistência da comida aos movimentos de mastigação e deglutição. Esse, aliás, é um dos primeiros exercícios de uma aula de atenção plena: comer  uma única uva-passa em longos quinze minutos. A grande diferença entre a atenção plena e as outras técnicas de meditação é que ela pode ser praticada em qualquer lugar, a qualquer momento. "Não é preciso desligar-se do mundo para praticá-Ia", diz o irlandês Stephen Little, responsável por trazer a técnica para o Brasil. A atenção plena pode ser treinada durante o banho, o almoço, uma caminhada ou até mesmo enquanto se espera o elevador. "O fundamental é aprender a realizar as atividades com atenção total ao que se está fazendo", afirma Little. A mente bem treinada toma decisões difíceis com mais rapidez, é mais criativa e tem o raciocínio mais aguçado, entre outras vantagens.

Nos hospitais, a meditação é usada como coadjuvante no combate e alívio dos sintomas dos mais diversos males. Essa prática invadiu também o mundo corporativo: empresas a oferecem aos funcionários. Chegou às escolas: jovens que meditam antes da aula tiveram notas melhores e mostraram maior nível de concentração. Além disso, foi observada uma melhora no relacionamento entre os alunos e dos estudantes com os professores. A etimologia ajuda a explicar o amplo leque de benefícios da meditação. Meditatum, em latim, significa ponderar. Não há como fazer mal.

. Ansiedade
Imagens de ressonância magnética mostram que a meditação ativa o córtex cingulado anterior, a insula anterior e o córtex pré-frontal, regiões cerebrais associadas ao controle das emoções e da impulsividade. Por isso, a meditação vem sendo indicada para o tratamento da depressão e da dependência química.

. Câncer
Segundo levantamento feito por alguns dos maiores centros de tratamento e pesquisa de câncer nos Estados Unidos, como os hospitais MD Anderson e o Sloan Kettering, a meditação é de grande ajuda aos pacientes vítimas de tumores malignos, como os de mama, em processo quimioterápico. A prática é importante para o controle da alteração do humor, muito comum entre esses doentes.

. Dor crônica
A meditação tira o foco da dor e libera endorfina, hormônio que age como analgésico natural.

. Infecções
Um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, associou a prática da meditação a um aumento na síntese da telomerase, enzima que protege contra a morte celular. Como consequência, ocorre o fortalecimento do sistema imunolófico.

. Hipertensão
Ao meditar, o corpo relaxa e diminui a liberação de cortisol, o hormônio do stress. Em excesso, o cortisol aumenta a contração dos vasos sanguíneos, o que predispõe à hipertensão - e consequentemente ao infarto e ao derrame.

. Doenças Cardiovasculares
Entre os que meditam, os parâmetros de saúde associados às doenças cardiovasculares são até 83% melhores que os de quem não é adepto da prática, revelaram pesquisadores da Universidade Brown, nos Estados Unidos. Os principais fatores avaliados no trabalho foram: tabagismo, sedentarismo, índice de massa corporal, pressão arterial e hábitos alimentares.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

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