A busca pela felicidade nos deixa depressivos



 Uma das maiores autoridades em psicopatologias dos EUA diz que o mundo vive uma epidemia de depressão porque as pessoas querem se satisfazer a qualquer preço.

Revista IstoÉ - por Camila Brandalise.

"Você está feliz?" pode soar como uma pergunta corriqueira vinda de alguém interessado em saber como o interlocutor está se sentindo. Mas há algo de perigoso nesse questionamento. Colocar a felicidade como objetivo na vida e dar muita importância à alegria e à realização pode estar nos levando à tristeza. É o que afirma o pesquisador americano Jonathan Rottenberg, especialista na área das psicopatologias, membro da Society for Research in Psychopathology, doutor pela Stanford University e diretor do Laboratório do Humor e da Emoção da University of South Florida. Rottenberg lançou nos Estados Unidos o livro "The Depths: The Evolutionary Origins of the Depression Epidemic" (em tradução livre, "As Profundezas:  As Origens Evolutivas da Epidemia da Depressão"), no qual fala sobre como os índices de depressão vêm aumentando, apesar do avanço da medicina. Para o psicólogo, há algo de cultural, e não apenas biológico, elevando essas taxas. Nosso estilo de vida e a necessidade constante de nos mostrarmos felizes estariam contribuindo diretamente para o que ele caracteriza como uma epidemia do problema. De seu escritório na Flórida, Rottenberg falou com exclusividade à ISTOÉ sobre suas ideias, sobre como temos dificuldade em lidar com nossas variações de humor e sobre quanto ainda é preciso avançar nesse assunto, que provoca sofrimento em milhões de pessoas pelo mundo.

ISTOÉ - A depressão é comumente vista como uma questão biológica, química, a ser tratada com remédios. Em seu novo livro, o sr. mostra uma visão contrária. Qual é sua opinião sobre isso?

Jonathan Rottenberg - A maioria dos estudos sobre depressão é focada na biologia e no funcionamento do cérebro. A doença é vista como um desequilíbrio químico. A depressão envolve, sim, mudanças no cérebro.  Mas há doenças que possibilitam um diagnóstico a partir de exames, algo mais palpável, como a diabetes. Nesse caso, é possível monitorar o tratamento pelo exame de sangue, por exemplo. Com a depressão, há a teoria da deficiência dos neurotransmissores, mas não é possível medir ou monitorar se o tratamento está funcionando a partir disso. De alguma maneira, é como se fosse uma mentira branca contada aos pacientes. Não é falso, mas é uma metáfora, porque não é possível saber qual o desequilíbrio químico de cada pessoa.

ISTOÉ - O sr. aponta outra maneira de tratar a depressão que não seja com remédios?

Rottenberg - Não vou dizer a ninguém para não usar as ferramentas disponíveis, e isso inclui remédios. O problema é que os medicamentos não são tão eficazes quanto se imagina. Para alguns pacientes, há bons resultados. Os sintomas da depressão desaparecem em cerca de um terço das pessoas que passam pelo tratamento com remédios. Porém, há dois terços que não se beneficiam. É preciso olhar melhor para o que faz o humor mudar. Usar medicamentos está entre as soluções, mas há outras coisas que podem ser feitas.

ISTOÉ - Como o quê?

Rottenberg - Acredito que tem muito a ver com a mudança na rotina e o tipo de vida que cada um leva. A maioria das pessoas não toma sol, por exemplo. É só luz artificial, por causa da vida nas cidades. É a televisão, o computador... As mudanças podem ser feitas examinando a rotina. E há essa necessidade de procurarmos a felicidade e estarmos animados constantemente. Se a pessoa se sente um pouco desanimada, já entra em pânico e pensa: "O que está errado comigo? Por que não estou feliz como deveria ou feliz como as outras pessoas?" Acho que, quando alguém se debate sobre quão feliz está, quanto mais quer se sentir melhor, pior fica. E essa intolerância à tristeza é muito clara nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo.

ISTOÉ - Essa busca pela felicidade seria um dos motivos para estarem aumentando os casos de depressão?

Rottenberg - Sim, justamente porque estamos menos tolerantes ao humor deprimido. Ele ocorre, sempre vai ocorrer. E a busca pela felicidade nos torna depressivos. A felicidade acontece quando não estamos atrás dela. As pessoas estão infelizes e colocam a felicidade como um objetivo, quando ela não é. É um efeito colateral. Culturalmente aprendemos que devemos alcançar a felicidade, mas esse é um jeito perigoso de viver.

ISTOÉ - Então, ter como objetivo uma vida feliz pode ser pior?

Rottenberg - Sim. Quando há uma pessoa em meio a uma depressão, a pior coisa a se dizer é: "Por que você não se anima?" ou "Por que não faz algo divertido?". Obviamente, ela já tentou fazer isso. Parte do processo é aceitar esse humor depressivo, pensar o que ele significa e tentar entender o que ele está lhe dizendo.

ISTOÉ - De onde vem essa necessidade de buscarmos a felicidade?

Rottenberg - É um fenômeno cultural. Vem dos livros, da tevê, e muitas vezes é bem intencionado. Fica muito claro para as pessoas como elas devem agir e o que devem sentir. É uma cultura tão forte que nem pensamos sobre. Os pais dizem aos filhos que eles podem fazer qualquer coisa. Mas há situações em que você vai se dedicar muito a algo e aquilo não vai dar certo. Nesse caso, a pessoa pode entrar em depressão e acaba ficando ainda pior por não encontrar outro objetivo.

ISTOÉ - No caso dos pais, como o sr. acha que eles deveriam lidar com essas situações, para não estimular casos de depressão?

Rottenberg - Eles devem mostrar a diversidade de objetivos que podemos ter na vida. Uma das coisas que me fez estudar a depressão é que eu passei por um quadro depressivo quando era mais novo. Tinha somente um objetivo na vida e, quando aquilo começou a não dar certo, tudo pareceu ruir. Os pais podem mostrar aos filhos as várias maneiras de se viver em sociedade. Você pode ter um relacionamento, filhos, amigos, carreira, hobbies, fazer trabalho voluntário. Mas, com muita frequência, temos somente um objetivo. Você coloca toda a expectativa em um mesmo lugar e é preciso ter cuidado. Por isso, é importante pensar sobre as situações em vez de só tomar pílulas o tempo todo. É como se o humor fosse um despertador, quando ele muda, precisamos parar para pensar no que está acontecendo em nossa vida.

ISTOÉ - O sr. acredita que a epidemia de depressão é algo mais comum no Ocidente por vivermos essa cultura da felicidade?

Rottenberg - Acho que é um fenômeno mundial, principalmente porque todo o mundo está exposto à cultura ocidental. Na maioria das projeções sobre aumento da depressão não há exceções, porém pode ser que se manifeste mais forte em alguns lugares do que em outros. Mas no geral, nas nações asiáticas, se dá mais valor à capacidade de estar calmo do que à importância da excitação, da animação.

ISTOÉ - Precisamos aceitar que sintomas da depressão fazem parte das nossas vidas?

Rottenberg - Sim. Isso fica claro na maioria dos casos de depressão. Muitos pensam que têm uma doença que ninguém mais tem e se isolam. É algo que torna a situação ainda pior. Não são problemas isolados, pelos quais só aquela pessoa passa. Todos nós temos alguns níveis desses sintomas, é normal, faz parte da vida.

ISTOÉ - O sr. acredita que sabemos lidar com nossas variações de humor?

Rottenberg - Não. Temos que ser mais tolerantes com momentos de tristeza. Não aceitamos bem as mudanças de humor, quando na verdade deveríamos tentar entendê-Ias.

ISTOÉ - O fato de ficar pensando muito sobre essas mudanças de humor é ruim?

Rottenberg - Essa é uma situação pela qual as pessoas passam durante a depressão, faz parte da tristeza. O que pode acontecer é que alguns passam a ter pensamentos muito negativos e ficam presos a essa ideia destrutiva. Isso não vai resolver o problema. É uma coisa irônica em relação à nossa habilidade de pensar. Pessoas muito inteligentes acham que podem sair da depressão sozinhas, mas precisam reconhecer que há limitações, que necessitam de ajuda  e, algumas vezes, de certa distância dos pensamentos.

ISTOÉ - O sr. acredita que livros de autoajuda, que tentam fazer com que as pessoas saiam sozinhas da tristeza, de fato ajudam?

Rottenberg - Acho que as pessoas não vão ficar felizes só por lerem um livro. Há um processo muito mais complexo. Muitos dos livros prometem resultados instantâneos, é só observar os títulos. Isso faz as pessoas se frustrarem, pois não chegam a esses resultados. O ponto é: não se pode mudar certos temperamentos, mas é importante reconhecer o que é possível e o que não é possível transformar.

ISTOÉ - Recentemente, saiu uma pesquisa no Brasil mostrando que 21% dos jovens têm sintomas de depressão. Qual é a opinião do sr. sobre isso? É um dado alarmante?

Rottenberg - A depressão é mais comum em pessoas mais novas. Elas precisam lidar com muitas expectativas, próprias e dos outros. É uma das razões para encararmos esse problema com seriedade. Historicamente, as pessoas entram em depressão geralmente entre os 16, 17 anos. Acho que o número é, sim, alto, e precisa ser revertido.

ISTOÉ - No caso das mulheres, o índice também é maior. Pesquisas mostram que, para cada homem, há duas mulheres com depressão. Por quê?

Rottenberg - Aí entra o fato de as mulheres ficarem "ruminando", ou seja, pensando muito na mesma coisa, no que está errado consigo. Muitos estudos comprovam essa característica na população feminina. Claro que há mais razões. Entre os mais jovens, por exemplo, essa diferença de gênero não existe. O que acontece na idade adulta para chegar a esse índice é algo que ainda precisa ser estudado. .

 

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