
Estudos do cérebro sugerem novos caminhos para melhorar a leitura, a escrita, a aritmética - e até mesmo as aptidões sociais.
Revista Scientific American - por Gary Stix
Em síntese
Os métodos de tecnologia e pesquisa da neurociência começaram a revelar, em nível mais básico, o que acontece no cérebro quando aprendemos algo novo. Conforme estes estudos amadurecem, podem tornar possível a um pré-escolar ou até mesmo a um bebê participar de exercícios simples para garantir que a criança esteja cognitivamente equipada para a escola. Se bem-sucedidas, essas intervenções podem exercer um efeito potencial enorme sobre as práticas educacionais, reduzindo drasticamente a incidência de várias dificuldades de aprendizado. Cientistas, educadores e pais também devem tomar cuidado com alegações exageradas de métodos de treinamento do cérebro que se propõem ajudar os jovens, mas cuja eficácia ainda não foi comprovada.
Lucas Kronmiller, de 8 memses, acaba de ter grande parte da superfície da cabeça carequinha ajustada numa touca com 128 eletrodos. Diante dele, um assistente de pesquisa sopra bolhas freneticamente para entretê-lo, mas Lucas parece calmo e alegre. Afinal, o Laboratório de Estudos sobre a Infância, da Rutgers University, já não é novidade para ele. Lucas frequenta esse espaço desde os 4 meses de idade. Ele e mais de mil outros jovens nos últimos 15 anos estão ajudando April A. Benasich e suas colegas a desvendar, mesmo na mais tenra idade, se uma criança terá dificuldades de linguagem, uma carga difícil no início do ensino fundamental.
Benasich está entre os cientistas de um grupo que emprega técnicas de gravação do cérebro para entender os processos essenciais que fundamentam a aprendizagem. A nova ciência da neuroeducação busca respostas a perguntas que sempre intrigaram os psicólogos cognitivos e os pedagogos. É o caso, por exemplo, da capacidade de um recém-nascido de processar sons e imagens relacionados à aptidão de a criança aprender letras e palavras, alguns anos mais tarde? O que significa a média de capacidade de concentração mental de um jovem em idade pré-escolar para o posterior sucesso acadêmico? O que os educadores podem fazer para promover aptidões sociais das crianças - também essenciais na sala de aula? Esses estudos podem complementar a riqueza de conhecimento estabelecida pelos programas de pesquisa em psicologia e educação.
Também prometem oferecer novas ideias, fundamentadas na ciência do cérebro, para melhorar o aprendizado dos alunos e preparar bebês e crianças para a leitura, escrita, aritmética e sobrevivência na complexa rede social da creche e além dela. Grande parte desse trabalho concentra-se nos primeiros anos de vida e nos anos iniciais do ensino fundamental, pois alguns estudos mostram que o cérebro tem maior capacidade de mudança nesse momento.
• Momento do "ahá!"
April estuda anomalias no modo como o cérebro de crianças mais jovens percebe o som, processo cognitivo fundamental para a compreensão da linguagem que, por sua vez, forma a base para a competência em leitura e escrita. A ex-enfermeira, que batalhou até obter dois doutorados, concentra-se no que chama de o momento "ahá!" - uma transição abrupta na atividade elétrica do cérebro, sinalizando que algo novo foi reconhecido.
Os cientistas do laboratório de April, em Newark, Nova Jersey, expõem Lucas e outros bebês a tons de certa frequência e duração. Depois, gravam uma mudança nos sinais elétricos gerados no cérebro quando uma freqüência diferente é tocada, Em geral, o traço eletroencefalográfico (EEG) desce em resposta à mudança, indicando que o cérebro basicamente diz: "Sim, algo mudou"; um atraso no tempo de resposta para os tons diferentes aponta que o cérebro não detectou o som com rapidez suficiente. A pesquisa descobriu que esse padrão lento de atividade elétrica aos 6 meses pode prever problemas linguísticos dos 3 aos 5 anos de idade. Diferenças na atividade que persistem durante os 3-4 anos e na idade pré-escolar da criança podem predizer problemas no desenvolvimento dos circuitos cerebrais que processam as transiçoes rápidas durante a percepção das unidades básicas do discurso. Se as crianças deixam de ouvir ou processar os componentes do discurso - vamos dizer, um "da" ou um "pa" - com a rapidez necessária, aos 3-4 anos, elas podem demorar "a questionar o som" de letras escritas ou sílabas na cabeça que mais tarde podem impedir fluência na leitura. Essas descobertas recentes oferecem confirmação mais rigorosa de outra pesquisa de April, que mostra que as crianças que deparam com problemas no início do processamento desses sons saem-se mal em testes psicológicos de linguagem 8 ou 9 anos mais tarde.
Se April e outros conseguem diagnosticar problemas futuros de linguagem em bebês, também podem conseguir corrigi-I os, explorando a plasticidade inata do cérebro em desenvolvimento sua capacidade de mudar, em resposta a novas experiências. Eles podem até mesmo melhorar o funcionamento básico de um cérebro de bebê que está se desenvolvendo normalmente. "O melhor momento para ter certeza de que o cérebro está se organizando de maneira ideal para o aprendizado talvez seja na primeira parte do primeiro ano'; avalia ela. Os jogos, mesmo no berço, podem ser uma resposta. April e sua equipe criaram um jogo que treina o bebê a reagir à mudança de tom girando a cabeça ou movendo os olhos (ações detectadas por um sensor de rastreamento). Quando o movimento ocorre, um trecho de vídeo é reproduzido como recompensa pelo esforço. Em um estudo preliminar relatado no final do ano passado, este treinamento do cérebro para bebês, praticado por um período de semanas, permitiu que um grupo de 15 bebês saudáveis reagisse mais rapidamente aos tons que um grupo de controle. April espera que sua pesquisa confirme que o jogo também possa ajudar crianças deficientes a responder mais rapidamente no processamento desses sons. Ela começou a conversar com um desenvolvedor de brinquedos interessado em criar um móbile que poderia ser colocado na lateral do berço, em casa, para treinar as crianças na percepção de sequências rápidas de som.
• O senso numérico
A flexão precoce dos músculos cognitivos também pode ajudar bebês a sintonizar rudimentos de aptidões matemáticas. StanisIas Dehaene, neurocientista do Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisas Médicas, é líder no campo da cognição numérica e vem tentando desenvolver maneiras de ajudar crianças com dificuldades precoces de matemática. Os bebês têm certa capacidade de reconhecer números desde o nascimento. Quando a aptidão não está em vigor desde o início, segundo Dehaene, uma criança pode ter dificuldade com aritmética e matemática avançada, posteriormente. Intervenções que construam esse "senso numérico'; como Dehaene o chama, podem ajudar o aluno lento a evitar anos de dificuldades na aula de matemática.
A comunidade da neurociência vem acumulando um corpo de pesquisas evidenciando que os seres humanos e outros animais têm um sentido numérico básico. É evidente que os bebês não saem do ventre realizando equações diferenciais na cabeça. Mas as experiências descobriram que as crianças de 3-4 anos costumam buscar pacotes de guloseimas que têm mais doces. Outras pesquisas demonstraram que mesmo crianças de apenas alguns meses compreendem o tamanho relativo. Se veem cinco objetos sendo escondidos atrás de uma tela e depois mais cinco adicionados ao primeiro conjunto, transmitem surpresa ao verem apenas cinco quando a tela é retirada. Os bebês também parecem nascer com outras habilidades matemáticas inatas. Além de campeões em estimativa, eles conseguem distinguir números exatos, mas apenas até o três ou quatro. Dehaene foi fundamental na identificação de uma região do cérebro, uma parte do lobo parietal (sulco intraparietal), onde os números e as quantidades aproximadas são representados. (Coloque a mão sobre a parte de trás no topo da cabeça para localizar o lobo parietal.)
A capacidade de estimar o tamanho do grupo, também presente em golfinhos, ratos, pombos, leões e macacos, é provavelmente uma vantagem evolutiva prática para avaliar se o seu clã deve lutar ou fugir diante de um inimigo e para saber quais árvores carregam mais frutos para colher. Dehaene, juntamente com o Iinguista Pierre Pica, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, na França, e seus colegas, descobriu mais evidências dessa habilidade instintiva trabalhando com os índios mundurucus na Amazônia brasileira, uma etnia que tem apenas um léxico elementar para os números. Seus membros adultos conseguem dizer se uma matriz de pontos é maior que a outra, mas a maioria é incapaz de responder quantos objetos permanecem quando quatro objetos são retirados de um grupo de seis.
Este sistema de aproximação é a base sobre a qual a matemática mais sofisticada é construída. Qualquer déficit nessas capacidades inatas pode significar problemas posteriores. No início da década de 1990, Dehaene lançou a hipótese de que as crianças constroem em seu sistema interno de estimativa figurada cálculos mais sofisticados à medida que crescem. Nos últimos 10 anos, vários estudos descobriram que o funcionamento deficiente do sistema de estimativa numérica primitiva em jovens pode prever que uma criança vai se sair mal em aritmética e nos testes de desempenho padrão de matemática a partir dos anos fundamentais. "Percebemos agora que o aprendizado de um domínio, como a aritmética, tem de ser fundamentada em determinados conhecimentos básicos que estão disponíveis já na infância", analisa Dehaene.
Acontece que a "discalculia" (o equivalente computacional da dislexia), evidenciada por atraso nas habilidades computacionais, afeta 3% a 6% das crianças. A "discalculia" recebe muito menos atenção de educadores que a dislexia para a leitura, mas, ela pode ser tão incapacitante quanto. "Eles ganham menos, gastam menos, são mais propensos a ficar doentes e a ter problemas com a lei e precisam de mais ajuda na escola", observa um artigo de revisão publicado na Science em maio passado.
Cama na linguagem, a intervenção precoce pode ajudar. Dehaene e sua equipe desenvolveram um jogo de computador simples com a qual esperam aumentar a aptidão matemática. Chamada Corrida dos Números, ele exercita essas habilidades básicas em crianças de 4-8 anos, Numa versão, as jogadores devem escolher a quantidade maior entre dois conjuntos de moedas de ouro antes que um adversário controlado pela computador roube a pilha maior, O jogo se adapta automaticamente à aptidão da jogador, e nos níveis mais altos a criança deve adicionar ou subtrair o ouro antes de fazer uma comparação para determinar a pilha maior. Se a criança ganhar, avança uma série de passos equivalente ao ouro que acabou de conquistar, O primeira jogador a chegar à última etapa no tabuleiro virtual é o vitorioso.
O software de fonte aberta, traduzido em oito línguas, não faz reivindicações hiperbólicas sobre as benefícios do treinamento do cérebro. Mesmo assim, mais de 20 mil professores baixaram a software de um instituto de pesquisa apoiado pela govemo na Finlândia. Atualmente, está sendo testado em vários estudos controlados para verificar se ele impede a "discalculia" e se ajuda crianças saudáveis a reforçar seu senso numérico básico.
• Cinco Mitos sobre o Cérebro
Algumas ideias amplamente difundidas sobre a maneira como as crianças aprendem podem levar educadores e pais a adotar princípios de ensino equivocados.
MITO: Os seres humanos usam apenas 10% do cérebro.
FATO: O mito dos 10% (por vezes elevado a 20) é mera lenda, perpetrado recentemente pelo enredo do filme Sem limites, que gira em torno de uma droga milagrosa que dota o protagonista de memória prodigiosa e poderes analíticos. Na sala de aula, professores podem incentivar os alunos a se esforçar mais, mas isso não vai acender os circuitos neurais "não utilizados"; o desempenho acadêmico não melhora simplesmente ao aumentar o volume neural.
MITO: As pessoas com ênfase no "cérebro esquerdo" ou "direito" são diferentes.
FATO: O argumento de que temos um cérebro esquerdo racional e um intuitivo e artístico do lado direito é lenda: os seres humanos usam os dois hemisférios do cérebro para todas as funções cognitivas. A noção de cérebro esquerdo/cérebro direito se originou da constatação de que muitos (embora nem todos) processam a linguagem mais no hemisfério esquerdo e as habilidades espaciais e expressão emocional mais no lado direito. Os psicólogos vêm usando a ideia para explicar distinções entre os diferentes tipos de personalidade. Na educação, surgiram programas que defendem menos dependência em atividades racionais do "cérebro esquerdo". Estudos de imagens cerebrais não mostram nenhuma evidência do hemisfério direito como um local de criatividade. E o cérebro recruta os dois lados, esquerdo e direito, tanto para a leitura quanto para a matemática.
MITO: Você deve falar uma língua antes de aprender outra.
FATO: Crianças que aprendem inglês ao mesmo tempo que o francês não confundem uma língua com a outra, e se desenvolvem mais lentamente. Essa ideia de idiomas interferentes sugere que diferentes áreas do cérebro competem por recursos. Na verdade, as crianças que aprendem dois idiomas, mesmo concomitantemente, obtêm um conhecimento mais generalizado da estrutura da linguagem como um todo.
MITO: Cérebro de homem e cérebro de mulher diferem em aspectos que ditam a capacidade de aprendizagem.
FATO: Existem diferenças nos cérebros de homens e mulheres, e a fisiologia distintiva pode resultar em diferenças na forma como os cérebros operam. Mas nenhuma pesquisa demonstrou diferenças específicas, quanto ao gênero, em como as redes de neurônios se conectam ao aprendermos novas habilidades. Mesmo que possam surgir algumas diferenças entre os gêneros, provavelmente serão pequenas e baseadas em médias, ou seja, não serão necessariamente relevantes para qualquer indivíduo.
MITO: Cada criança tem um estilo de aprendizagem especial.
FATO:A noção de que um aluno tende a aprender melhor ao favorecer uma forma especial de entrada sensorial - um "aprendiz visual" em oposição ao "auditivo" - não recebeu muita validação em estudos reais. Devido a esse e a outros mitos, as percepções públicas parecem ter sobrepujado a ciência. Uta Frith, neurocientista que conduziu um painel britânico que observava a promessa da neuroeducação, instiga os pais e educadores a tratá-Ia com cuidado: "Há uma demanda enorme por parte do público em geral para ter informações sobre a neurociência para a educação. Em consequência, há um suprimento enorme de métodos totalmente carentes de testes e experimentos e não muito científicos"
FONTES: Mind, brain, and educatian science, por Tracey Tokuhama-Espinosa (W. W. Norton, 2010); Understanding the brain: the birth af a learning science (OECD, 2007); Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico - Reunião Ministerial sobre Educação, 4 e 5 de novembro de 2010.
• Controle-se
Os fundamentos cognitivos da boa aprendizagem dependem muito do que os psicólogos denominam função executiva, termo que abrange atributos cognitivos como a capacidade de atenção, de retenção do que acabou de ser visto ou ouvido no bloco de anotações mental da memória operacional, e de postergação da gratificação. Esses recursos podem prever o sucesso na escala e até mesmo no mundo do trabalho. Em 1972, um famoso experimento da Stanfard University: "Aqui está um marshmallow, e eu vou te dar outro se você não comer este até eu voltar', mostrou a importância da função executiva. As crianças que conseguiam esperar, por mais que quisessem o doce, saíram-se melhor na escola e mais tarde na vida.
Durante os últimos 10 anos especialistas têm acalentado a ideia da função executiva como uma aptidão passível de ser ensinada. Um currículo educacional denominado Tools of the Mind (Ferramentas da mente) tem obtido sucesso em alguns bairros escolares de baixa renda, onde as crianças normalmente não se saem tão bem academicamente se comparadas com as de bairros mais ricos. O programa treina crianças a resistir às tentações e distrações e a praticar tarefas projetadas para melhorar a memória operacional e o pensamento flexível. Em um exemplo de uma tarefa de autocontrole, uma criança pode dizer a si mesma em voz alta o que fazer. Essas técnicas são potencialmente tão poderosas que nos centros de ensino superior economistas agora contemplam medidas de política pública para melhorar o autocontrole, como forma de "melhorar a saúde física e financeira da população e reduzir os índices criminais'; segundo os autores de um estudo publicado na edição de fevereiro de Proceedings of the National Academy of Sciences USA.
As recentes e corroboradas descobertas dos laboratórios de neurociência foram e revelaram que o enfado na prática de resistir a marshmallows metafóricos pode não ser necessário. O treinamento musical pode funcionar bem. Repetindo o Grito de guerra da mãe tigre, eles estão descobrindo que a prática assídua de instrumentos musicais pode resultar em recompensa em sala de aula, semelhante à lógica da "mãe tigre'; em que a autora Amy Chua insistiu que suas filhas passassem horas intermináveis ao violino e ao piano. A prática de um instrumento musical parece melhorar a atenção, a memória operacional e o autocontrole.
Algumas pesquisas que propiciaram essas descobertas foram feitas por um grupo de neurocientistas liderados por Nina Kraus, da Northwestem University. Nina, chefe do Laboratório de Neurociência Auditiva de lá, que cresceu com uma paisagem sonora diversificada em casa. A mãe, musicista clássica, falava com a futura neurocientista em seu italiano nativo, e Nina ainda - toca piano, violão e bateria "Eu adoro! - isso toma grande parte da minha vida", enfatiza ela, embora se considere "apenas uma musicista picareta".
Klaus usou registros de EEG para medir como o sistema nervoso codifica altura, tempo e timbre de composições musicais e se as alterações neurais resultantes da prática de música melhoram as faculdades cognitivas. Seu laboratório descobriu que o treinamento musical melhora a memória operacional e, talvez mais importante, torna os alunos melhores ouvintes, permitindo que abstraiam o discurso da atmosfera de bagunça coletiva que, por vezes, prevalece na sala de aula.
O treinamento musical como tônico cerebral ainda está em sua infância, e várias questões permanecem abertas sobre exatamente que tipo de prática melhora a função executiva: tudo bem se você tocar piano ou violão, ou se a música foi composta por Mozart ou pelos Beatles? As aulas de música ajudarão, de forma crítica, os alunos com dificuldades de aprendizado, ou que venham-de escolas de bairros de baixa renda?
Mas Kraus aponta para a evidência prática sugerindo que o impacto do treinamento musical se estende até mesmo às aulas acadêmicas. O Harmony Project oferece educação musical para jovens de baixa renda, em Los Angeles. Nos últimos anos, dezenas de estudantes se formaram no ensino médio e foram para a faculdade, sendo em geral o primeiro da família a fazê-lo.
A fundadora do programa Margaret Martin convidou Nina a usar uma versão móvel de seus sensores de EEG e do software de processamento de som para medir como a música afeta as crianças do programa. A musicista é defensora do violão no lugar de jogos cerebrais. "Se os alunos têm de escolher como gastar o tempo entre um jogo de computador que supostamente aumenta a memória ou um instrumento musical, não há dúvida, na minha mente, sobre qual será mais benéfico para o sistema nervoso", avalia Nina. "Se você está tentando copiar um lead de guitarra, é preciso mantê-lo na cabeça e tentar reproduzi-Io várias vezes por meio de prática insistente".
• Alerta contra o exagero
Conforme as pesquisas sobre os mecanismos cerebrais ocultos no que se refere às "quatro competências" - as três tradicionais, mais o controle de impulsos como o quarto - prosseguem, muitos cientistas envolvidos em neuroeducação se esforçam para evitar a promoção exagerada das intervenções em teste. Estão ansiosos para traduzir suas descobertas em auxílio prático para as crianças, mas também têm bastante consciência de que a pesquisa ainda tem um longo caminho a percorrer. Sabem, ainda, que os professores e os pais já são bombardeados por vários produtos confusos e não testados para a melhora no aprendizado e que algumas ferramentas muito elogiadas se mostraram decepcionantes.
Em um desses casos, uma pequena indústria se desenvolveu há vários anos em torno da ideia de que apenas ouvindo uma sonata de Mozart um bebê poderia se tornar mais inteligente, tese que não resiste a um teste mais apurado. A pesquisa de Nina sugere que, para obter qualquer benefício, é preciso realmente tocar um instrumento, exercitar áreas de processamento auditivo no cérebro: quanto mais praticar, melhor a sua capacidade de distinguir sutilezas no desenvolvimento de sons. Mas não basta apenas ouvir.
Da mesma forma, mesmo algumas técnicas de treinamento cerebral que afirmam ter provas científicas sólidas de sua eficácia vêm sendo questionadas. Uma meta-análise que apareceu na edição de março da revista Journal of Child Psychology and Psychiatry revisou estudos do que é provavelmente o método mais conhecido entre todos os softwares de treinamento do cérebro chamado Fast ForWord, desenvolvido por Paula A. Tallal, da Rutgers, Michael Merzenich, da University of California, São Francisco, e seus colegas. A análise não encontrou qualquer evidência de eficácia no auxílio a crianças com dificuldades na linguagem ou leitura. Assim como acontece com os métodos usados por April, companheira de pós-doutorado anterior de Paula, o software tenta melhorar déficits no processamento de som que podem levar a problemas de aprendizagem. A meta-análise provocou uma refutação firme da Scientific Learning, a criadora do software, que alegou que os critérios de seleção foram restritivos demais, que a maioria dos estudos na análise foi mal aplicada e que o software foi aperfeiçoado após os estudos terem sido conduzidos.
O refrão clichê - é preciso mais pesquisa - aplica-se de forma ampla em muitos empreendimentos na neuroeducação. O jogo dos números de Dehaene ainda necessita de ajustes antes de receber larga aceitação. Um estudo controlado recente mostrou que o jogo ajudou as crianças a comparar números, embora essa conquista não tenha se transformado em saber contar melhor ou em aptidões aritméticas. Os pesquisadores esperam resolver esses problemas com a nova versão que está sendo lançada. No entanto, outra descoberta questionou se o treinamento musical melhora a função executiva e, assim, estimula a inteligência.
Em um campo emergente, muitas vezes um estudo contradiz o outro, apenas para ser seguido por um terceiro que contesta os dois primeiros. Esta trajetória em ziguezague permeia toda a ciência e, às vezes, leva a alegações superestimadas. Em neuroeducação os professores e pais, às vezes, se tornam vítimas de publicidade de softwares e programas educacionais "baseados em ciência". "É confuso. É desconcertante", avalia Deborah Rebhuhn, professora de matemática na Center School, uma instituição de educação especial em Highland Park, Nova Jersey, que aceita alunos de escolas públicas de todo o estado. "Não sei o que experimentar. E não há evidência suficiente para ir até o diretor da escola e dizer que algo funciona".
• Afinação desde a pré-escola
Cientistas que passam os dias meditando sobre as formas de ondas do eletroencefalograma e os complexos padrões digitais das imagens de ressonância magnética percebem que ainda não podem oferecer recomendações mais definitivas baseadas em neurociência para melhorar a aprendizagem. Mas o trabalho está levando a uma visão do que seria possível, talvez para a geração Z ou seus descendentes. Considere o ponto de vista de John D. E. Gabrieli, professor de neurociência, que participa de um programa de colaboração entre a Harvard e o Massachusetts Institute of Technology. Em artigo de revisão na Science em 2009, Gabrieli supôs que, finalmente, os métodos de avaliação baseados no cérebro, combinados com os testes tradicionais, o histórico familiar e talvez os testes genéticos, pudessem detectar problemas de leitura aos 6 anos e permitir a intervenção precoce intensiva, que poderia eliminar muitos casos de dislexia entre crianças em idade escolar.
• O melhor treinamento do cérebro, tocar um instrumento
O treinamento musical intensivo desde tenra idade promove aptidões além da mera capacidade de tocar um instrumento.A concentração do músico sobre a acústica fina do som ajuda a compreensão da linguagem e promove as habilidades cognitivas: atenção, memória operacional e autocontrole.
- Melhores ouvintes
Os músicos percebem o som mais claramente que os não músicos porque praticar treina o cérebro todo. Os sons de um instrumento viajam da cóclea no ouvido interno até o tronco cerebral primitivo antes de se deslocar para o córtex, um lócus de funções de alto nível do cérebro, e depois voltar novamente ao tronco cerebral e à cóclea. Este ciclo de alimentação pennite que o músico recrute várias áreas do cérebro para produzir, digamos, a altura adequada para uma canção. O monitoramento de um sinal elétrico no tronco cerebral revela a sensibilidade apurada do músico quanto à altura: o músico percebe uma onda sonora entrando com mais precisão que quem não é músico.
Para conhecer mais
The number sense: how the mind creates mathematics. Edição revista. Stanislas Dehaene. Oxford University Press, 2011.
Maturation of auditoly evoked potentials from 6 to 48: prediction to 3 and 4 year language and cognitive abilities. Naseern Choudhoury e April A Benasich, em Clinical Neurophysiology. vol.122, págs. 320-338,2011.
Mind, brain, and education science. Tracey Tokuhama Espinosa. W. W. Norton, 2010.
Laboratório de Neurociênàa Auditiva de Nina Kraus na Northwestern University. www.brainvoks.northwestem.edu
SCIENTIFIC AMERICAN ON-LINE
Assista o vídeo da pesquisa de April A. Benasich em www.sciam.com.br
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