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Altas habilidades: desafio para pais e educadores

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Revista Escola Particular por Paula Hernandes.

A discussão sobre os Portadores de Altas Habilidades (PAH), também conhecidos como superdotados, ganhou recentemente espaço na mídia, com a divulgação pelo jornal “O Estado de S. Paulo” do aumento do número de registros de alunos com essas características pelo MEC. Pensando em esclarecer escolas e professores a respeito da temática, “Escola Particular” procurou especialistas para saber mais sobre as características dessas crianças, as formas de atender às suas necessidades e descobriu que o assunto é muito mais complexo e requer a atenção de pais, professores e psicólogos.

De acordo com Ada Toscanini, presidente da Associação Paulista para Altas Habilidades/Superdotação (APAHSD), de 3% a 5% da população mundial apresenta QI superior a 150, porém, sozinho, o teste não é suficiente para contemplar todas as áreas do conhecimento. “O teste de QI somente trabalha com a área de raciocínio lógico, não mostra se a criança tem alta habilidade nas áreas artística e corporal”, afirma Ada Toscanini. “Levando em conta todas as inteligências, o número de superdotados ou talentosos se eleva a 20%”, completa.

Em primeiro lugar deve-se trabalhar a mitificação que existe em torno da figura do Portador de Altas Habilidades e entender que essas crianças precisam ser desafiadas com atividades que as estimulem. “As pessoas tendem a acreditar que o superdotado é um gênio capaz de tudo, que não erra”, diz Ada, falando sobre a contraposição de deficientes e alto habilidosos. “Uma deficiência visual não compromete a parte corporal, musical e artística, assim como um aluno cadeirante não tem comprometido seu desenvolvimento cognitivo, visual, sensorial e artístico. Esse é outro mito”.

O grupo de superdotados se caracteriza pela heterogeneidade de comportamentos, o que dificulta o diagnóstico e um encaminhamento apropriado. Um alto habilidoso, de maneira geral, se interessa por uma ou mais áreas específicas e direcionam suas atenções para isso, mas uma criança com desenvolvimento considerado normal também pode adotar esse comportamento sem necessariamente ser superdotada. "Tanto o aluno mais estudioso, como o mais brigão, irrequieto ou mesmo apático tem as mesmas chances de ser alto habilidoso; até arrisco a dizer que é mais provável que o brigão seja superdotado”, diz Cristina Colavite, psicóloga especialista no atendimento a Portadores de Altas Habilidades e membro do GEPeInSES — Grupo de Estudos e Pesquisas das Inteligências, Saúde Emocional e Superdotação.

Apesar dessa heterogeneidade, Cristina enumera algumas características que considera mais frequentes, embora não na mesma criança. “Elas se entediam facilmente, muitas vezes apresentam um sentimento de inadequação, possuem alta capacidade de integração de elementos, liderança, rapidez no processamento de informações, reclusão, bom humor, apurado senso ético, gosto por desafios, ou mesmo agressividade”.

De acordo com Ada Toscanini, as crianças superdotadas são extremamente curiosas e questionadoras. “Elas adotam posturas extremas e podem ser agressivas na hora de expor o que pensam. Da mesma forma, podem ser apáticas e nem sequer manifestarem o desejo de participar de uma discussão para poder continuar pensando o que querem”. O ambiente também interfere na maneira como essas crianças se expressam. “Vivemos em uma sociedade machista em que a menina inteligente é considerada chata, enquanlo o menino é visto como líder e é admirado. A menina, antes de mostrar o que sabe, tem que ser aceita pelo grupo e, se não o for, ela "esconde" essa habilidade”, diz Ada.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional assegura atendimento específico tanto ao alto habilidoso, quanto aos alunos com dificuldades de aprendizagem. No caso de crianças superdotadas há dois caminhos a serem adotados: a aceleração curricular, quando a criança apresenta um excelente desenvolvimento em várias áreas cognitivas como em Português e Matemática e pode frequentar aulas com crianças mais velhas ou o enriquecimento curricular, que é a oferta, pela escola, de um currículo diferenciado nas áreas que a criança apresenta as altas habilidades. “Para ser considerada superdotada, a criança precisa ter um alto conhecimento em apenas uma área, mas se, por exemplo, uma criança apresentar altas habilidades em Português e Ciências, ou em Artes e Matemática, como fazer indicar uma aceleração? Nesses casos, é mais apropriado o enriquecimento curricular nestas áreas, para que essa criança se sinta desafiada”, diz Ada Toseanini.

Um enriquecimento curricular deve abranger atividades que tenham mais profundidade envolvam as crianças, mas o que seria considerado “ideal” esbarra no despreparo do professor para lidar com a situação, já que em sua formação, não há disciplinas que tratam especificamente dos Portadores de Altas Habilidades. “Muitas vezes, no Fundamental 1, temos professores polivalentes que se identificam mais com uma área do que com outra e, se de repente a criança apresenta alta habilidade na área que ele não se identifica, ele tem que ir atrás e estudar para propor os desafios a essa criança”, afirma a presidente da Associação Paulista para Altas Habilidades.

Segundo a psicóloga Cristina Colavite é importante que o professor saiba quando tem um superdotado em sala para que possa trabalhar sem podar o seu desenvolvimento, mas não deixar que essa criança atrapalhe os demais. Isso deve ser feito de forma a não segregá-lo para não reforçar seu sentimento de inadequação. “É ideal que haja à disposição da criança algum curso livre de seu interesse que ela possa fazer com crianças normais, assim como algum programa de enriquecimento curricular que seja preferencialmente desenvolvido com outros PAH e, por fim, um atendimento psicológico, preferencialmente em grupo”, afirma Cristina.

Quando se fala em enriquecimento curricular, é importante ressaltar que não se trata de excesso de tarefas, pois a criança, ao perceber que lhe são pedidas mais atividades do que a seus colegas, pode se recusar a fazê-las e entrar em atrito com o professor. “Essas crianças são extremamente inteligentes e manipuladoras, veem muito rapidamente os interesses dos outros, por isso, as atividades devem ter mais profundidade e o professor precisa estar preparado”, diz Ada.

Mas como identificar um alto habilidoso? A família e a escola devem observar se criança demonstra interesse especifico em uma área, estuda e se aprofunda, se ela cria atritos na escola, pergunta muito e se sente mal por considerar a escola “perda de tempo”. Essas atitudes são uma espécie de alerta. “Quando crianças superdotadas estão na educação infantil, fazem coisas diferenciadas na área que têm alta habilidade: cantam, dançam, contam histórias, aprendem a ler ou a escrever muito cedo. Normalmente essa criança se sente muito bem ao ser elogiada por pais e professores pelo que faz. O problema acontece quando elas entram no Ensino Fundamental e já não recebem a mesma atenção que antes, pois os grupos são maiores e o professor não tem tempo de escutar o que ela fala. Em casa, essa criança começa a ouvir frases como "agora não, filho, mais tarde a gente conversa". A partir desse momento, ela começa a adotar novas posturas, fechando-se ou tornado-se agressiva, querendo mostrar a todo custo o que sabe”, explica Ada.

Essa postura agressiva, em muitos casos é mal identificada pelo professor que, por não estar preparado para lidar com alunos PAH, pode tratá-los como crianças-problema, impulsivas, hiperativas. Temos aqui crianças que já foram expulsas de quatro ou cinco escolas porque não se adaptam, porque respondem, porque querem mais e as escolas não têm condições de atender. Por vários motivos eles são "convidados a se retirar”, diz Ada. “Muitas escolas trabalham com sistemas apostilados que não dão muita liberdade para o professor aprofundar muito e responder a todas as questões desse tipo de aluno, pois o cronograma é apertado. Então a criança fica com uma série de insatisfações com a escola e com o professor. Ela começa a provocar, inquirir os professores para que respondam às suas questões. Na maior parte das vezes, o professor vai colocá-la para fora por estar atrapalhando. Se eles forem encaminhados para o psicólogo e não der resultado, são encaminhados ao neurologista e acabam medicados. Boa parte dos que chegam aqui na associação toma Ritalina”, relata Ada Toscanini. A Ritalina (cloridrato de metilfenidato) é um estimulante do Sistema Nervoso Central que tem ação no controle do déficit de atenção e do distúrbio de hiperatividade em crianças. É uma droga com propriedades semelhantes à anfetamina.

Além das crianças PAH que são tratadas como hiperativas ou com transtorno de déficit de atenção (TDAH), há crianças que chegam aos consultórios de psicólogos por terem boas notas ou por orgulho paterno. Embora ainda haja dificuldades na identificação e no encaminhamento de crianças superdotadas, Cristina Colavite acredita que atualmente os profissionais estão melhor amparados teoricamente para estudar os aspectos relacionados às altas habilidades. “O que falta são núcleos próprios para o atendimento específico e, acima de tudo, falta que a psicologia e a pedagogia deem as mãos neste momento crucial”.

Um tópico polêmico no que diz respeito aos superdotados é a aceleração curricular. Para Cristina Colavite é preciso analisar bem o lado emocional da criança. “Embora uma aceleração curricular possa parecer favorável no campo intelectual-formal, tal ação pode tornar tenso o frágil campo emocional destas crianças”. Já Ada Toscanini vai por outro caminho. “As grandes teorias pedagógicas se baseiam no que as crianças podem fazerem determinadas idades. Se uma criança tem um excelente desempenho em piano, por exemplo, os pais geralmente não se importam que ela treine e participe de audições com crianças mais velhas ou adultos. Se uma criança tem um excelente desempenho corporal, os pais geralmente não se preocupam com a idade das outras crianças que vão treinar com ela. Eles se preocupam somente na hora das competições, para que seu filho compita com crianças da mesma idade. Então porque na área cognitiva se tem tanto problema?”, questiona. No entanto, Ada faz uma ressalva e diz que os pais devem deixar claro que, caso a criança venha a estudar com alunos mais velhos o grupo de estudos é um e o grupo para saídas e lazer pode ser outro, sobretudo na entrada da adolescência, quando eles começam a querer mais liberdade.

As propostas de trabalho com PAH são diversas, dependendo dos objetivos. Para Cristina Colavite é importante que se desenvolva um trabalho de aconselhamento e acolhimento para os pais dessas crianças, O intuito é trabalhar o ambiente familiar para que se complemente o trabalho da escola. O mesmo vale para tutores e escolas, que precisam saber como atender essas crianças. No consultório há um atendimento individual para uma identificação mais precisa do caso e, após essa triagem, a criança é encaminhada para um trabalho em grupo ou para a continuidade do trabalho individual, sempre com enfoque à promoção da saúde emocional.

A Associação Paulista para Altas Habilidades e Superdotação (APAHSD) oferece cursos de capacitação para professores e atende crianças superdotadas. “Aqui tentamos colocar crianças de altas habilidades em diferentes áreas juntas, para que entendam que, se eles tem facilidade em uma área, podem ter diliculdade em outra e nessa outra área, há um colega que tem facilidade e pode ajudar”, explica Ada Toscanini.

As crianças desenvolvem projetos conjuntos de caráter multidisciplinar nos quais aplicam seus conhecimentos, elegendo temas, trabalhando suas habilidades coletivamente. Em uma das atividades, crianças de quatro a oito anos de idade escolheram trabalhar com vulcões. Elas construiram uma espécie de maquete, pesquisaram materiais efervescentes para simular a lava. Em outro momento viram a relação proporcional entre uma montanha natural e o vulcão construído para estudar até onde a lava do vulcão que elas montaram poderia ir para que não construíssem moradias perto, caso houvesse erupção. “Nesse projeto, eles estudaram geografia, proporção, matemática e o que mais quiseram. Um ajudou o outro”, conta Ada, que afirma que trabalhos deste tipo os fazem entender onde falham e quando podem precisar de ajuda.

• Cuidado!! 

Cristina Colavite, membro do GEPeInSES — Grupo de Estudos e Pesquisas das Inteligências, Saúde Emocional e Superdotação enumera algumas atitudes a serem adotadas em sala de aula para não tornar o PAH alvo de preconceito ou constrangimento.

- Não se deve exibir o PAH, como “exemplo a ser seguido, ou “Troféu", fazendo com que mostre a todos o que sabe fazer.

- Não é apropriado colocar o PAH para "ajudar os coleguinhas”: isso pode reforçar o preconceito e o sentimento de inadequação ao fazê-lo confrontar a dificuldade de outros em compreendê-lo.

- Não é produtivo transformá-lo no “queridinho do professor".

- Não se deve interromper bruscamente sua linha de questionamento sem lhe oferecer uma forma de continuá-la após a aula (caso os  questionamentos estejam prejudicando o andamento da aula para os demais).

- Não é apropriado julgar seu desempenho de acordo com o desempenho em outras matérias.

- O ideal é tratar o aluno de acordo com seu próprio ritmo.

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