Oratória é mais do que falar bem

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Falar e Escrever Bem: Rumo à Vitória

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Do ponto de vista da clareza e da gramática, o primeiro debate dos candidatos deixou a desejar. Mas, para os brasileiros interessados em dominar o português, novas obras de referência podem ajudar a enriquecer o idioma cotidiano.

Revista Veja - por Jerônimo Teixeira e Daniela Macedo

Na quinta-feira última, a Band levou ao ar o primeiro debate da corrida presidencial deste ano, com a pre­sença dos três princi­pais candidatos - Dilma Rousseff, Jo­sé Serra e Marina Silva - e de um na­nico enfezado, Plínio de Arruda Sam­paio. Mas quase nada foi oferecido ao eleitor que porventura tenha assistido às duas horas de perguntas, respostas, ré­plicas e tréplicas: na maior parte, o de­bate foi simplesmente ininteligível. Os candidatos, em especial Dilma Rous­seff, afundaram-se em anacolutos, solecismas, frases inconclusas e erros gra­maticais. Dois homens e duas mulheres cujo ofício pú­blico exige a formulação clara de pro­postas concretas e princípios abstratos falharam todos, em maior ou menor medida, no uso de uma ferramenta bási­ca: a linguagem. Será a língua portu­guesa tão complexa a ponto de enredar aqueles que se propõem a dominá-Ia? Diante do fiasco desses profissionais, as pessoas comuns têm alguma esperança de expressar-se com maior clareza e efi­ciência? As respostas a essas duas per­guntas são, pela ordem, não e sim. Para quem está empenhado em aperfeiçoar o manejo do idioma - e não será neces­sário lembrar que o seu domínio, na fala ou na escrita, é crucial para o cresci­mento profissional, as oportunidades e as ferramentas são cada vez mais nu­merosas. Livrarias, bibliotecas e dicio­nários estão acessíveis pela internet, e a oferta de instrumentos auxiliares vem crescendo em volume e qualidade.

Neste ano, uma obra fundamental para quem busca aprimorar a expressão verbal voltou às livrarias, depois de mui­tos anos de ausência. Seu extraordinário autor não era gramático nem lexicógra­fo por formação. Formara-se agrimen­sor, em Ouro Preto, mas também ensi­nava línguas em sua cidade natal, Goiás Velho. Certo dia, Francisco Ferreira dos Santos Azevedo (1875-1942) passeava pelas ruas de Goiás Velho - sempre munido do caderninho em que tomava nota das conversas que tinha com os passantes - quando surpreendeu um grupo de meninos fazendo desenhos pornográficos em um muro. Francisco Ferreira aproveitou a oportunidade para, a partir do desenho, explicar conceitos de geometria - e ainda corrigiu a grafia de um palavrão. Prova de seu amor pela língua, mesmo em suas reentrâncias mais chulas. Conceitos e palavras são a matéria-prima de sua grande obra, o Di­cionário Analógico da Língua Portu­guesa. Na trilha do então inovador The­saurus, criado pelo inglês Peter Mark Roget no século XIX, cada verbete do dicionário de Francisco Ferreira é uma fascinante lista de palavras e expressões que gravitam em torno de um conceito. Ao consultar "amarelo", o leitor chega a substantivos como icterícia e açafrão, a adjetivos como fúlvido, e a verbos como auriluzir. É a obra certa para quem está atrás daquela palavra que parece pairar no ar mas escapa à memória imediata e que serviria com exatidão para dar corpo a uma ideia. Foi publicado postu­mamente, em 1950. Há poucos meses, ganhou pela primeira vez uma nova versão, atualizada, pela editora Lexicon (que acaba de lançar também uma edição do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha). Desde junho, vendeu 10.000 exemplares, número expressivo para uma obra de referência. Tal sucesso de­monstra que os brasileiros têm desejo (outras sugestões do dicionário analógi­co: anseio, ânsia, aspiração, ambição, ardor, avidez, gula) por ferramentas que os auxiliem no bom uso da língua, escri­ta ou falada. A expressão eficiente, afi­nal, revela a clareza (exatidão, fluidez, inteligibilidade, transparência) do pen­samento - qualidade que, no debate de quinta-feira, andou muito em falta.

Mal amparado por escolas que eva­dem qualquer menção à análise sintá­tica, o brasileiro nem sempre sabe onde buscar régua e compasso para dis­ciplinar a língua que fala. O português é uma entidade dinâmica, continua­mente alterada e enriquecida por novas gírias, expressões, palavras importadas. Mas essa fluidez não faz dela um terri­tório sem leis. As gramáticas norrnati­vas - como a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara ­- cumprem um bom papel no esclareci­mento de dúvidas sobre o que é ou não correto na escrita. A fala, porém, admi­te muitas construções que seriam aber­rantes na página impressa. "Vou no médico", por exemplo, é a forma mais comum em conversas informais, ainda que o correto seja "vou ao médico". O que é preciso é achar o equilíbrio, in­clusive nas diferenças de registro: um adolescente não pode empregar com os avós os mesmos termos que utiliza nas baladas com sua turma.

No Brasil, a gramática da língua oral foi alvo de um estudo pioneiro em 1969, quando o linguista Nelson Rossi, da Universidade Federal da Bahia, de­senvolveu o projeto Norma Urbana Lin­guístíca Culta (Nurc). O trabalho, feito em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Recife, resultou em 1500 horas de gravações de discursos formais, entrevistas e diálogos envol­vendo profissionais graduados de diver­sas áreas. As transcrições servem, ainda hoje, como base de estudo para teses e
artigos. Recentemente, o linguista Ata­liba Teixeira de Castilho, um dos coor­denadores do Nurc, lançou uma obra de fôlego baseada nesse material de análi­se. Sua Nova Gramática do Português Brasileiro (Editora Contexto) apresenta um recurso inovador em relação aos si­milares tradicionais: a análise sintática é feita sobre frases presentes no cotidia­no do leitor. Essa aproximação com a realidade estimula a observação dos re­cursos da língua no dia a dia - nas con­versas, nas novelas, nos noticiários. Ou seja, seu livro é uma ferramenta exce­lente não apenas para aprender a língua, mas também sobre ela.

Nas últimas décadas, por força da urbanização, o fosso que separava a fala culta da "popular" tem se estreitado. Em meados do século passado, por exemplo, "a gente" não era aceito como um equivalente de "nós". Hoje, é uma forma perfeitamente apropriada. "Nós" ganhou certo ar formal. "De terno e gra­vata, a reunião é conosco. De bermuda e chinelo, pode falar com a gente mes­mo", brinca o professor de português Sérgio Nogueira. "A gente fomos", é claro, continua sendo o que sempre foi: um erro. Aberrações como essa agridem tanto os ouvidos como a natureza da língua. O mesmo vale para a moda re­cente - instigada, talvez, pelo fato iné­dito de que duas mulheres estão concor­rendo à Presidência - de impor uma declinação feminina ao substantivo "presidente". No debate na Band, Dil­ma Rousseff reafirmou seu desejo de
ser "presidenta" do Brasil. Deveriam então os bancos ter "gerentas"?

É saudável manter distância desses modismos linguísticos, que logo viram vícios. A mania recente com os verbos terminados em "izar'' é um exemplo. O sufixo geralmente é usado para derivar verbos a partir de adjetivos - de "le­gal", chega-se, em um passo irretocável, a "legalizar". Mas o "obstaculizar" que anda por aí desvia-se da norma, já que vem de substantivo, "obstáculo" - além de ser feio de doer. Ao lado da correção, portanto, há uma medida mais sutil em jogo: a elegância. Outro exemplo ilus­trativo é o chamado "gerundismo". Não é que "vou estar enviando" seja errado do ponto de vista gramatical. Mas o transbordamento de verbos ofende a fra­se, que diria a mesma coisa com um "enviarei" ou, na fala, "vou enviar".

O "gerundismo" pegou porque al­guns creem que essa é uma forma "sofis­ticada" de falar. Outros, com o mesmo propósito, recorrem ao bacharelismo, confundindo afetação com riqueza voca­bular. Na carta aberta de despedida que enviou ao presidente da CBF o técnico Dunga, por exemplo, enredou-se em fra­ses longas e mal articuladas e, no final, tascou no texto um pedante "desiderato" - que é só um desejo. Dunga não faz defesas nos tribunais, não é candidato a cargo eletivo, não vive de proferir pales­tras. Não se espera e não se quer de um técnico da seleção que ele fale como um laudo jurídico. Mas, como muitos brasi­leiros, Dunga teve medo da simplicida­de. Trata-se de um medo infundado: ser simples é ser elegante. Dizer mais com menos é o ideal. E "falar difícil" é andar na contramão do bom-senso. No século XVII, o padre Antônio Vieira (que hoje, é verdade, soa rebuscado) já pregava a simplicidade. "O estilo há de ser muito fácil e muito natural", recomendava ele no Sermão da Sexagésima.

E aí se chega a uma recomendação que todo cidadão vem ouvindo desde que se sentou pela primeira vez nos ban­cos da escola: ler é indispensável para quem quer se expressar bem. E ler inclui de Machado de Assis e Graciliano Ra­mos até um blog decente na internet (mas atenção: é preciso ler de tudo ­ - não uma coisa ou outra). Ler mostra as infinitas possibilidades de expressão da língua, enriquece o vocabulário (e o bom vocabulário é o melhor amigo da preci­são), ensina o leitor a organizar seu pen­samento e ainda oferece a ele algo de valor inestimável: conteúdo. Ter coisas interessantes e pertinentes a dizer é o pri­meiro passo para falar ou escrever bem.

É de bom-tom, ainda, manter os ou­vidos afinados com os modos de ex­pressão correntes. À parte alguns elitis­tas e/ou esquerdistas que acusam a tele­visão de "empobrecer" a linguagem, o veículo faz um excelente registro da boa fala contemporânea. "Ao eliminar as peculiaridades regionais e etárias da língua, a televisão contribui para formar um português urbano padrão", diz Cláu­dio Moreno, coordenador do programa de português do Colégio Leonardo da Vinci, em Porto Alegre. A qualidade gramática das novelas da Globo pode oscilar. mas, em geral, seu texto atinge uma conciliação excelente de coloquia­lismo e correção. O recurso a gírias regionais, expressões grosseiras e erros de português é, sim, admissível - mas com parcimônia. "Nesses casos, deve-se deixar claro para o espectador que aquele linguajar é uma licença da ficção para retratar um tipo peculiar", diz o noveleiro Silvio de Abreu. Em Passione, há um desses tipos peculiares - e cômicos: Candê, a verdureira suburbana vivida por Vera Holtz, que gosta de chutar a concordância (diz frases como: "fazem dois dias que não vejo ela"). "O que interessa é que os personagens falem de maneira natural. Com cor­reção, mas não afetação", diz Abreu. E exemplifica: "A frase 'gostaria que você me fizesse um favor', não é muito colo­quial. É melhor dizer assim: 'Dá pra você me fazer um favor?´".

É pena que os candidatos não te­nham demonstrado o mesmo compro­metimento com a transparência e a cor­reção da linguagem. No auge da demo­cracia clássica grega, no século V a.C; a fala era a principal arma de interven­ção na vida pública. Em Roma, a retóri­ca conheceu seu ápice com Marco Túlio Cícero (106 a.C.-43 a.c.), que não só foi um brilhante orador, mas também um teórico de sua arte. O orador, dizia ele, devia alcançar três objetivos: doce­re (ensinar), delectare (deleitar, agra­dar) e movere (afetar emocionalmente, comover). Confuso, chato, frio, o pri­meiro debate presidencial falhou nos três fundamentos. Espera-se que, nos próximos encontros, os candidatos con­sigam, pelo menos, se fazer entender.

 

• O Português em debate

Como os três principais candidatos à presidência se saíram no debate de quinta-feira, o primeiro da campanha, no que toca ao uso apropriado da língua e à capacidade de se expressar com clareza.

A FALA

"Eu inclusive terei todo um nível de apoio a um tratamento especial, a investimento, inclusive no que se refere a acessibilidade, porque o Brasil não está, não estava ainda preparado pra dar isso pras pessoas e eu considero que, seja nos edifícios e em todo uso de equipamentos, isso é fundamental."

DILMA ROUSSEFF, respondendo a pergunta de José Serra sobre o que pretende fazer com as Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes).

A AVALIÇÃO

Dilma comete um erro clássico, e bastante grave, entre os oradores afoitos: não pontua suas orações. É difícil saber onde uma acaba e outra começa.Com os sujeitos e predicados assim embaralhados, a inteligibilidade fica seriamente comprometida. Quando Dilma chega a "isso é fundamental", o ouvinte já terá grande dificuldade em saber ao que "isso" se refere.

CONCLUSÃO: nas falas de improviso, Dilma é inarticulada e confusa. Atenta, assim, contra a língua e contra a própria necessidade de se fazer entender pelo eleitor.

A FALA

"Eu vou valorizar, eu vou estatizar as empresas que já são do governo no sentido que elas vão ficar servindo ao interesse público. E não de um partido, de um acordo político, ou de um grupo de parlamentares, de deputados, etc. Essa é uma questão muito importante em relação ao que que a gente vai fazer com o patrimônio do governo."

JOSÉ SERRA, criticando o aparelhamento dos Correios promovido pelo PT.

A AVALIÇÃO

Serra usa um recurso típico da oratória: a reitera­ção. Por exemplo, dois "eu vou" consecutivos frase seguinte, vários "de" que, a rigor, eram dispensáveis. Escrito, não é bonito. Dito, serve para manter a atenção do ouvinte.

O gerúndio "vão ficar servindo" é uma escorrega­dela feia e um vício pernicioso. O "que que", em vez de "que é que", é perdoável na lingua­gem falada, por questão de ritmo.

CONCLUSÃO: Serra não é um orador nato, mas aprendeu truques que, embora não muito ele­gantes do ponto de vista gramatical, o ajudam a ganhar tempo e a organizar o pensamento, tornando-o mais claro para o ouvinte.

A FALA

"O capitalista precisa de água potável, terra fértil e ar puro. O trabalhador e a criança pobre, lá da favela do Coque, aonde eu conheci o Dado, precisam também. Essa é uma luta generosa, que se cada um de nós não fizer sua parte - seje de esquerda, de direita ou de centro - nós não teremos futuro".

MARINA SILVA, em resposta ao comentário de Plínio de Arruda Sampaio, de que ela agia como uma "ecocapitalista"

A AVALIÇÃO

Marina erra no uso do "aonde" (só permitido com verbos de movimento), na coordenação desajeitada entre "essa é uma luta generosa" e a frase seguinte (o melhor seria " ...generosa. Se cada um de nós não fizer sua parte nela, não teremos futuro") e no "seje" .

Apesar dos erros gramaticais, a candidata pensa e se expressa com clareza e com efeito. A cadência que ela imprime às duas primeiras frases, em especial, é notável.

CONCLUSÃO: dos três candidatos, Marina é a que se comunica com mais vivacidade, clareza e imaginação.

 

• 10 erros de Português que acabam com qualquer entrevista de emprego.

1 - Deixei meu emprego porque houveram algumas dificuldades na empresa em que eu trabalhava.

Houve dificuldades. Haver, no sentido de existir, é impessoal e não admite flexão. Nunca, em hipótese alguma.

2 - Ela estava meia ameaçada de falência.

Meio ameaçada. Os advérbios são invariáveis. Não têm, portanto, concordância de gênero.

3 - Inclusive, o chefe reteu meu último pagamento.

O chefe reteve: "reter" deve seguir a conjugação do verbo do qual é derivado, "ter"

4 - Aliás, estudei na mesma faculdade aonde o senhor deu aula.

Onde o senhor deu aula: aonde (a + onde) só cabe depois de verbos que indicam movimento. Por exemplo, "fui aonde o senhor me mandou" .

5 - Segue anexo aqui, com meu currículo, dois trabalhos que fiz.

Seguem anexos, porque são dois trabalhos: cuidado com a concordância verbal (seguem dois) e também com a concordância nominal (trabalhos anexos).

6 - Agora, já fazem cinco anos que trabalho nesta área.

Faz cinco anos: quando o verbo "fazer" indica tempo, ele é sempre impessoal - faz um ano, e faz cem anos.

7 - Mas não terminei o curso por causa que decidi seguir outra carreira.

Porque decidi: "por causa que" é mais do que errado - nem sequer existe.

8 - Espero que eu seje aprovado. Preciso de trabalhar.

Dois erros inadmissíveis de uma vez só. O primeiro é a conjugação "seje", que não existe no português. Espero que eu seja aprovado é o correto. O outro erro grave é de regência. "Precisar" é um daqueles verbos cheios de truques: conforme o significado, requer ou dispensa preposição. No sentido de ter necessidade e seguido de verbo no infinitivo, ele não aceita preposição: preciso trabalhar.

9 - Tenho certeza de que, se eu dispor de uma boa equipe, poderei trazer mais clientes para a companhia.

Se eu dispuser é o correto. Como no item 3, os verbos derivados de ter, vir e pôr não podem ser conjugados de forma regular. Por exemplo: se ele vier, jantaremos. E, se eu intervier, essa briga vai acabar.

10 - Qualquer coisa que passem para mim fazer, eu entrego no prazo.

Para eu fazer: antes de verbo, nunca se usa pronome oblíquo. Só o pessoal é permitido.

 

• Para falar e escrever bem

Embora a língua portuguesa siga normas gramaticais estabelecidas tanto para a linguagem oral quanto para a escrita, alguns recursos são apropriados para a conversação (mesmo formal) - mas quase aberrantes quando utilizados na escrita. Confira abaixo algumas dessas diferenças.

Redundância

Exemplo: Há cinco anos atrás.

Na escrita NÃO - na fala SIM

Geralmente deselegante na escrita, a redundância cumpre, na linguagem oral, uma importante função de reforço do que está sendo dito. Na frase acima, como a letra H é muda, o ouvinte pode não perceber que se trata de uma flexão do verbo "haver". O advérbio "atrás" garante que a remissão ao passado será entendida. Algumas reduncâncias, porém, são inapropriadas mesmo na fala - tal é o caso de "subir para cima", "adiar para depois", e da horrenda expressão bilígue "plus a mais"

Contração da preposição DE + ARTIGO ou PRONOME PESSOAL em sujeito de oração infinitiva

Exemplo: Antes dele chegar ou Antes do menino chegar

Na escrita SIM - na fala SIM

Alguns gramáticos afirmam que o sujeito da frase acima não poderia ser regido pela preposição, e que a forma correta, portanto, deve ser "antes de ele chegar" ou "antes de o menino chegar". Mas isso é só um preciosismo dos mais chatos. A contração de preposição e artigo é meramente fonética e não tem nenhuma implicação na sintaxe da frase.

Anacoluto

Exemplo: As empregadas domésticas, elas têm direitos trabalhistas.

Na escrita NÂO - na fala NÃO

O fragamento "as empregadas domésticas" não tem função sintática. Solto na frase, forma o que os gramáticos chamam de anacoluto. Às vezes, como recurso para ênfase, essa construção pode ser usada na fala. O problema é que tende a se converter em vício de linguagem.

Mistura de tratamento

Exemplo: Você vai pegar teus filhos?

Na escrita NÃO - na fala SIM

No Brasil, o uso de "você" ou "tu" obedece a variações regionais. Nos lugares onde predomina "você", é comum que ele seja utilizado em conjunção com o pronome oblíquo "te" ou o possessivo "teu". Essa mistura coloquial, porém, é proibida na escrita formal.

Linguagem vazia

Exemplo: Entende? Tá ligado?

Na escrita NÃO - na fala SIM (com moderação)

Ausentes na lígua escrita formal, esses marcadores são indispensáveis nos diálogos. Por meio deles, o falante organiza a fala (bem, seguinte, então) e mantém contato com o interlocutor (tá?, entendeu?, viu?). O uso frequente dessas expressões, porém, torna a fala monótona e desarticulada.

• A boa política de importações

A importação de palavras estrangeiras é um processo natural em todas as líguas. Mas, pelo bem da elegância e do bom-senso, certos modismos e aberrações devem ser evitados. Abaixo, uma lista de estrangeirismos correntes - e uma avaliação da propriedade deles:

Use à vontade

Show - Completamente aclimatado ao português brasileiro. E já há quem proponha a grafia adaptada: xou.
Mouse - "Rato" seria um equivalente um tanto asqueroso.
Site - "Sítio" soa muito lusitano e é muito pouco utilizado.
E-mail - "Mensagem" é muito genérico.
Download/Dumping - Não há termos técnicos equivalentes em português.

Use com cautela 

Printar /Deletar /Restartar - Adaptados de verbos da língua inglesa - to print, to , to restart -, são específicos da informática. Mas há palavras em português para cumprir a mesma função com mais elegância: imprimir, apagar, reiniciar.

Não deveriam ser empregados nunca 

Off /Sale - Modismos para "liquidação" .
Emeiar - Tentativa canhestra de criar um verbo para enviar um e-mail.
Target - Comum no jargão publicitário, quer dizer "público-alvo".
Deliverar - Verdadeiro monstrengo linguístico, deriva do verbo " inglês "to deliver" e quer dizer " apresentar resultados" .

• Abaixo o Odoriquês!

Criação do dramaturgo Dias Gomes, Odorico Paraguaçú - vivido por Paulo Gracindo na televisão e por Marco Nanini no filme O Bem Amado - atropelava a gramática no afã de "falar bonito". O português corrente no Brasil, hoje registra seus "odoriquismos".

- Vou estar enviando os documentos na próxima semana.

Muito próprio do português falado no Brasil, o gerúndio hoje sofre de uma hipertrofia monstruosa, que perverte seu sentido original - a indicação de um temo contínuo. O cipoal de verbos na frase acima pode ser substituido, com vantagem, por "enviarei" ou "vou enviar".

- Essa questão deverá ser tratada a nível de diretoria.

Italianos, franceses e espanhóis também incorporaram "a livello di", "au niveau de" e " a nivel de", provavelmente a partir do inglês "at the level of". É uma afetação, uma forma de enredar o que deveria ser simples: a questão será tratada na diretoria.

- Disponibilizar, protocolizar, obstacularizar.

Em princípio, a sobreposição de sufixos na formação de novos verbos está de acordo com as normas da língua portuguesa. Mas, há um franco exagero no caso dos verbos terminados em IZAR, muito comuns em certo economês. Embora o intuito aparente seja enfeitar a linguagem, esses verbos são deselegantes. Fora duas letras a mais, o que "protocolizar" tem que "protocolar" já não tinha?

- Risco de morte

A proscrição de "risco de vida" - que aparece em obras de Machado de Assis e Aluísio Azevedo - é um modismo instaurado por gramáticos amadores, que ignoram um fato simples: as línguas são estritamente lógicas. A expressão "pois não", por exemplo, tem sentido afirmativo. No caso de "risco de vida", tem-se uma figura de linguagem chamada elipse: a supressão de um termo, que fica subentendido. Todo mundo entende perfeitamente que se trata do risco de perder a vida.

- Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se encontra parado neste andar.

As normas gramaticais admitem "mesmo" como pronome com valor demonstrativo - e não função de pronome pessoal, como na frase acima, comumente afixada em elevedores. Esse aviso esdrúxulo inspirou até uma comunidade no Orkut. "Eu tenho medo do Mesmo", com 100.000 integrantes, veicula a piada de que o Mesmo seria um psicopata que ronda elevadores. Solução mais simples e correta: "Antes de entrar no elevador verifique se ele se encontra parado neste andar."

- Eu, enquanto pessoa humana.

Embora esteja formalmente correto, o uso da conjunção "enquanto" no sentido de "na qualidade de", "na condição de" tornou-se uma espécie de tara dos textos acadêmicos. O mais grave, na expressão acima, é a redundância desnecessária de "pessoa humana". Existirão por acaso pessoas suínas - ou asininas?

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