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Neuralgia do Trigêmeo, a Dor Insuportável

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Técnica cirúrgica realizada em poucos minutos devolve qualidade de vida a pacientes que chegam a pensar em suicídio.

Revista Scientific American - por Claudio Fernandes Corrêa

Conceitos-chave

- Neuralgia do trigêmeo produz dor na forma de choque, pontada ou queimação; pode surgir sem aviso centenas de vezes ao dia.

- Alguns creditam a doença uma decrição de que o nervo trigêmeo perda a sua "bainha" ou "capa protetora", mas o motivo disso continua desconhecido.

- Pacientes podem extrair dentes sadios indevidamente responsabilizados como fonte da dor.

Imagine que tivesse em seu rosto um fio elétrico desencapado, gerando um curto-circuito sensí­vel aos mínimos estímulos, como uma simples bri­sa. Essa é a sensação relatada pelas pessoas que so­frem de neuralgia do trigêmeo - doença que afeta o nervo de três ramificações localizado na face, próximo à mandíbula. Ela produz dor na forma de choque, pontada ou queimação; pode surgir sem aviso centenas de vezes ao dia. A intensidade e fre­quência da dor variam, mas na maioria dos casos evolui para um estágio incontrolável. Dados da história antiga relatam casos de suicídio de pacien­tes desesperados.

Embora haja referências sobre a presença de portadores de neuralgia trigeminal anterior à era cristã, continuam calorosas as discussões sobre sua origem e a melhor técnica para o controle da inten­sidade desse sofrimento. Alguns creditam à doença uma descrição de que o nervo trigêmeo perca a sua "bainha" ou "capa protetora" ao longo do tempo, mas o motivo continua desconhecido.

A neuralgia trigeminal é uma doença rara, que afeta quatro em 100 mil pessoas. Por este motivo, seus portadores costumam percorrer diferentes es­pecialistas sem resposta satisfatória quanto a diag­nóstico, submetidos a um sofrimento por décadas. Também não é raro o caso de pessoas que têm den­tes sadios extraídos, com a suposição de estar rela­cionado à dor.

Como é de esperar, as pessoas afetadas pelo pro­blema ao longo de anos passam a ter um sério com­prometimento de sua capacidade de trabalho e atividades sociais, desenvolvendo isolamento acompa­nhado de quadros de depressão.

Algumas drogas podem controlar a crise em al­guns casos, mas com grandes possibilidades de efei­to colateral, como tonturas e perda de equilíbrio. No campo cirúrgico também já foram desenvolvi­das diferentes técnicas, todas direcionadas ao alívio do sintoma e não ao tratamento da causa.

Uma das mais recentes técnicas para o trata­mento da neuralgia trigeminal foi publicada há mais de 20 anos por Mullan e Lichtor: "Compres­são do gânglio trigeminal com balão". Trata-se de uma variante de outra técnica descrita por Shelden e colegas. Desde então, em todo o mundo, casos publicados em periódicos conceituados populari­zaram e tornaram essa técnica uma das opções mais simples e eficazes no controle da dor em pa­cientes com essa enfermidade.

Realizando este procedimento desde 1991, com mais de 1.200 casos atendidos, posso afir­mar que é a que oferece maior conforto, por maior tempo, com menor índice de recidiva (cer­ca de 30%), além de menor taxa de morbidade e ausência de mortalidade.

O procedimento dura poucos minutos e dis­pensa corte. Com uma pequena perfuração, de diâmetro equivalente ao da ponta de uma caneta esferográfica, é introduzido um cateter no rosto do paciente, por dentro da bochecha. Um peque­no balão é insuflado na extremidade do cateter, que comprime o gânglio trigeminal, fazendo com que a dor seja eliminada em 98% dos casos.

Para a realização do procedimento é necessário um exame de tomografia computadorizada ou ressonância magnética do encéfalo para identifi­car eventual causa orgânica, como má-formação vascular ou tumor, entre outros, embora esses ca­sos não apresentem contra indicação à compres­são com balão, na maioria dos casos. Eletrocar­diograma pré-operatório de rotina não é obriga­tório, mas é indicado para avaliar risco de arritmias durante o ato operatório.

Há pequenas modificações desde que a técni­ca foi descrita pela primeira vez em 1983. O pa­ciente é posicionado deitado, com um pequeno coxim firme sob sua cabeça. Mesmo não sendo unanimidade entre os profissionais, considero importante o uso de antibiótico pré-operatório, ainda que o índice de complicações infecciosas seja muito baixo.

O tipo de anestesia varia de acordo com a expe­riência do profissional envolvido no ato operatório. Pode ser geral, com ou sem entubação, ou com blo­queio da região a ser tratada com lidocaína ou ou­tra droga equivalente. Particularmente tenho feito o procedimento após a realização de anestesia ge­ral endovenosa, com exceção de pacientes obesos, difíceis de serem ventilados.

Como qualquer método percutâneo para trata­mento da neuralgia do trigêmeo, observa-se altera­ção da sensibilidade na face tratada. Quando isso não ocorre, é indicativo de que o procedimento ci­rúrgico não foi correto e o paciente não foi tratado. Portanto, é muito importante alertá-Io sobre esse fato. Poucos dias após, inicia-se a recuperação da sensibilidade e no final de dois meses, em média, a maioria das pessoas tratadas está praticamente sem essa queixa. Poucos casos de perda de sensibilidade, especialmente próximo aos lábios, são observados em média de 15% dos pacientes.

Os pacientes operados na vigência de crises de dor podem, em cerca de 10%, continuar apresen­tando o mesmo padrão de dor por aproximada­mente 12 a 24 horas. Também é importante alertar o paciente a esse respeito antes do ato operatório.

Dos mais de 1.200 casos de neuralgia do trigê­meo que tratamos, desde 1990, cerca de 68% eram pacientes entre 50 e 70 anos de idade. Ape­nas cinco tinham mais de 91 anos de idade e seis, menos de 30 anos. Assim, conclui-se que a doen­ça afeta mais a terceira idade, considerando o tem­po médio de vida do brasileiro.

Pouco mais de 3,9% dos pacientes tiveram o diagnóstico de neuralgia trigeminal do ramo oftál­mico, 34,7% do ramo maxilar, 25,18% do ramo mandibular, 10,8 % dos ramos oftálmico e maxilar; 20,7% dos ramos maxilar e mandibular e 3,8% dos ramos oftálmico, maxilar e mandibular. Esses dados são semelhantes aos de outros profissionais com trabalhos publicados.

Até três anos de tratamento, obtivemos 8,22 % de recorrência da dor. Outros profissionais obtive­ram 20% em cinco anos: 26% em quatro anos; 13,6% num período médio de seis a 67 meses; 21 % em quatro anos; 24% entre seis meses e sete anos, 20% em cinco anos e 20,5% em cinco anos.

Para conhecer mais

Trigeminal neuralgia. Editado por Richard l. Rovit, Raj Murali e Peter J. Jannetta.
Neurosurgery clinics of North America. Neurosurgical perspectives on trigeminal neuralgia. Editado por Jeffrey.A. Brown, MD, Guest Editor.
Neuralgia do trigêmeo. Sebastião Gusmão e Antônio Bento, 2009.

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