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A Nova Onda dos Remédios para o Cérebro

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Mais e mais pessoas estão tomando drogas para aumentar a concentração e tentar ficar mais Intellgentes. Que consequências isso pode ter?

Revista Época - por Andres Vera

Maurício não é um workaholic. Engenheiro de 40 anos, gerente de uma seguradora, ele acredita que a esta altura da vida tem direito a aproveitar suas horas livres nas baladas, viagens, leituras, esportes e namoros. É por isso que ele toma Ritalina, um remédio indicado para portadores de síndrome de deficit de atenção (TDAH). Maurício não sofre de deficit de atenção. Mas diz que, quando toma a droga, sua capacidade de concentração aumenta e ele trabalha seis horas sem intervalos. "Sou chefe de 40 funcionários e preciso funcionar a qualquer custo."

Maurício (o nome é fictício, para proteger sua identidade) diz tomar Ritalina apenas uma vez por semana, quando seus prazos para a entrega de relatórios apertam. Ele afirma que a droga o ajuda a encarar planilhas recheadas de números, elaborar relatórios com rapidez e falar com desinibição em reuniões. "Como me recuso a trabalhar mais de nove horas por dia, preciso render mais nesse tempo." Ritalina é um remédio de tarja preta. Deveria ser consumido apenas por pessoas que precisam dele e têm uma receita médica para provar isso. Mas conseguir a receita não é muito difícil. Maurício obteve a sua de um amigo psiquiatra. Outros usuários pesquisam os sintomas conhecidos do deficit de atenção, marcam consulta com um psiquiatra e dizem sentir aquilo. Alguns compram cartelas de amigos. Ou pela internet.

A Ritalina - que atua como um estimulante do sistema nervoso central - está longe de ser a única droga usada para incrementar a eficiência do cérebro. Há milênios o ser humano testa receitas de vários tipos. Entre aquelas em voga hoje está o Gingko biloba (uma erva de origem chinesa que supostamente melhora a circulação de sangue no cérebro e a transmissão de impulsos entre os neurônios), a cafeína (um estimulante que melhora a concentração), a nicotina e diversas anfetaminas. Também vem ganhando adeptos no mundo um estimulante genericamente conhecido como modafinil, desenvolvido para tratar narcolepsia (uma sensação de sonolência exagerada). O modafinil, assim como o café, restaura o desempenho cognitivo em pessoas com sinais de fadiga.

No Brasil, o remédio que tem por base o modafinil se chama Stavigile. "Como a droga é nova aqui, muitos médicos ainda não a conhecem e por isso não a receitam", diz a neurologista Rosa Hasan, coordenadora do Departamento de Sono da Academia Brasileira de Neurologia. "A Anvisa autorizou seu uso para tratamento de narcolepsia, mas em muitos países ela é usada por pessoas que têm trabalhos noturnos." Ou executivos que precisam evitar os efeitos do fuso horário em viagens de negócios.

Outra droga capaz de incrementar o funcionamento do cérebro é o donepezil, vendido sob a marca Aricept. Ele é um dos remédios aprovados pela FDA (Food and Drug Administration, o órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos) para reduzir a perda de memória característica do mal de Alzheimer. Um estudo publicado em 2002 na revista Neurology concluiu que pilotos que tomaram donepezil melhoraram seu desempenho. Eles fizeram manobras complicadas com mais precisão e reagiram a situações de emergência melhor que os demais pilotos da experiência, a quem foi dada uma dose de placebo (comprimidos sem droga nenhuma).

E esses são apenas os remédios disponíveis hoje. Segundo uma recente pesquisa da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, cientistas de diversos laboratórios estão trabalhando em mais de 600 drogas para distúrbios neurológicos. A maioria delas deverá ser reprovada pelos órgãos reguladores de saúde, mas é provável que muitas estejam em farmácias do mundo inteiro nos próximos anos. Cada uma dessas drogas mexe com algum dos processos químicos que regulam a atenção, a percepção, o aprendizado, a memória recente, a memória de fundo, a capacidade de tomar decisões, a linguagem. Espera -se que, com elas, pacientes com deficiências como Alzheimer, demência ou deficit de atenção consigam levar uma vida mais próxima do normal. Mas remédios desse tipo costumam atrair um mercado bem além do seu público-alvo original.

"O uso das drogas psicoativas por indivíduos saudáveis vai se tornar um evento crescente em nossa  vida", disse o pesquisador Gabriel Horn, que liderou a pesquisa de Cambridge. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Viagra e seus congêneres. Originalmente destinados a homens com problemas de ereção, tornaram-se rapidamente campeões de venda porque milhões de pessoas sem sintomas decidiram experimentá-Ios, seja para garantir o desempenho depois de uma balada, seja para incrementar a rotina com uma parceira.

O mesmo parece estar ocorrendo com a Ritalina. Suas vendas no Brasil triplicaram em cinco anos, atingindo mais de 1 milhão de caixas em 2006. Existem pelo menos 12 comunidades dedicadas à Ritalina no site de relacionamentos Orkut, com quase 5 mil participantes. Muitos estão nessas comunidades para discutir os problemas reais de deficit de atenção que os acompanham desde a infância. Mas sobram comentários sobre os efeitos da Ritalina no organismo de uma pessoa sem deficiência. "Mesmo depois de ter acabado com duas cartelas, fiquei com vontade de tomar mais", diz um adolescente na comunidade Amigos da Ritalina, cuja foto de identificação é um garoto sorrindo dentro de uma caixa de cereal.

Em outras comunidades, encontram-se anúncios de venda do remédio. "Vendemos pela internet há mais de três anos", diz um deles. A demanda parece corresponder. "Preciso comprar esse medicamento, mas não tenho receita médica...", diz uma adolescente. Por R$ 25, compra-se uma caixa do remédio, despachado pelo correio.

Segundo o neurologista Anjan Chaterjee, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, estamos diante de um novo fenômeno social, que em 2004 ele apelidou de "neurocosmética". Ele acredita que daqui a alguns anos o uso de drogas para melhorar o raciocínio será tão aceitável quanto a cirurgia plástica. Não há dúvida de que existe demanda para isso. Dos idosos ávidos por combater os sinais de envelhecimento; dos trabalhadores submetidos a uma pressão crescente pela produtividade; até dos pais e mães que fazem questão de dar o máximo de oportunidades a seus filhos. Se é verdade que vivemos hoje na era do conhecimento, como dizem tantos gurus e sociólogos, é natural que as pessoas cobicem a ferramenta dessa era: cérebros melhores.

Em alguns ambientes, essa competição já está em curso. Um estudo da Universidade de Michigan, citado em reportagem recente da revista New Yorker, concluiu que 4,1 % dos universitários de 119 faculdades americanas usaram estimulantes sem receita médica em 2004. A revista científica Nature fez no início do ano passado uma pesquisa informal com seus leitores (a maioria cientistas). Das 1.400 pessoas que responderam, 20% disseram que já haviam tomado Ritalina, modafinil ou algum betabloqueador (droga que reduz a ansiedade) com o intuito de estimular a memória ou melhorar a concentração. A pressão por resultados explica essa tendência. Nem sempre o intuito é melhorar o desempenho. Muitas vezes, trata-se de manter o desempenho normal e conseguir uma energia extra para usar na vida social. É o caso de Maurício, citado no início da reportagem. Ou de Fábio (também nome fictício), um estudante de engenharia de Campina Grande, na Paraíba. Ele diz tomar cinco comprimidos de Ritalina por dia. "Acho que as 24 horas do dia são muito pouco para quem precisa estudar o que estudamos." Ele diz usar o remédio para se concentrar nos trabalhos da faculdade durante a semana. O rendimento extra proporcionado pela Ritalina serve para deixá-Io livre no fim de semana.

O uso de drogas para melhorar o desempenho suscita questões éticas, além das médicas. A prática não seria equiivalente ao doping dos atletas, tão condenado? Mais: na pesquisa informal da Nature, a maioria dos 1.400 respondentes se disse contra a oferta de remédios para as crianças que não tivessem deficiências, mas cerca de um terço afirmou que ficaria tentado a dar drogas a seus filhos se descobrisse que os pais das demais crianças estivessem dando. Numa sociedade já tão competitiva, não estaríamos todos pressionados demais a nos drogar? Como diz Elaine (de novo, um nome fictício), gerente na mesma seguradora de Maurício, que também faz uso da Ritalina: "Eu recomendaria o remédio para alguns dos meus funcionários mais lentos, para que eles acompanhassem meu ritmo".

No entanto, há um bom grupo de defensores dos neurocosméticos. Em dezembro, acadêmicos renomados como os neurologistas Michael Gazzaniga, da Universidade da Califórnia, e Martha J. Farah, da Universidade da Pensilvânia, publicaram um artigo na Nature em defesa do "uso responsável" de medicamentos para aumentar a concentração, assim como estímulos para que os alunos dumam melhor e pratiquem exercícios físicos. "As sociedades têm usado drogas para potencializar o cérebro durante toda a história", diz o neurocientista inglês Steven Rose, autor do livro O cérebro no século XXI - como entender, manipular e desenvolver a mente? (Editora Globo). "Se há pessoas que cursam escolas de elite ou usam o privilégio de uma classe social mais elevada para alcançar o sucesso, por que os estimulantes para o cérebro deveriam ser proibidos?" Em recente reportagem sobre drogas para o cérebro, a revista The Economist defendeu seu uso: "Se os cientistas conseguirem desvendar os segredos do Universo com auxílio da química, tanto melhor. Se a química ajudar a aumentar o espectro da vida humana, os benefícios poderiam ser enormes".

A principal questão, aí, seriam os efeitos colaterais. O café - um relativamente poderoso estimulante - tem vários efeitos colaterais e é aceito há séculos pela sociedade. Como disse Larry Squire, um pesquisador da área de memória da Universidade da Califórnia, à revista Scientific American: "Pode-se dizer que toda a história desse campo de pesquisa tem se concentrado no controle dos efeitos colaterais de drogas que já conhecemos".

Há outra questão que o uso de remédios levanta, e ela é ainda mais difícil de responder. Afinal, o que é inteligência? Vários usuários de Ritalina afirmam que seus efeitos estão no campo da concentração, na velocidade e disposição com que se entregam ao trabalho. Dizem que, uma vez ordenadas as ideias, a droga ajuda a pô-Ias em prática. Mas afirmam que, se as ideias não estão lá, o remédio apenas cria uma disposição infrutífera. "Você não cria nada, só executa melhor", diz Maurício. Há até o risco de executar demais: tornar-se prolixo, falar mais alto que o desejável, ficar aflito. Disso eu posso falar com conhecimento de causa. Para escrever esta reportagem, tomei dois comprimidos de Ritalina. À primeira vista, o efeito foi positivo. Eu me senti confiante para executar a tarefa, as palavras saíam fáceis, o bloco de anotações quase podia ser deixado de lado - eu lembrava de tudo. O chato foi reler o que escrevi. Na primeira revisão, desfez-se a minha ilusão de brilhantismo. Percebi que a memória não tinha melhorado tanto quanto a impressão de que ela tinha melhorado. Não sei dizer se minha confiança vinha do aumento da capacidade ou da diminuição da auto crítica. Percebi que meus reflexos melhoraram muito - mas meus dotes analíticos, não. Tive de refazer todo o texto.

Segundo a neurologista Martha J. Farah, esse resultado decepcionante se explica porque os efeitos dos estimulantes cerebrais em algumas formas vitais de inteligência, como pensamento abstrato e criatividade, foram muito pouco estudados até agora. "A literatura disponível trata de tipos de raciocínio enfadonhos: quanto tempo você consegue ficar em vigília enquanto olha para uma tela à espera de uma luz piscar", disse ela à New Yorker.

Mesmo assim, os avanços da ciência rumo à melhoria do funcionamento do cérebro são incontestáveis. Uma das maiores promessas para o desenvolvimento de novas drogas são os ampakines, compostos que atuam sobre o neurotransmissor glutamato, essencial nos circuitos ligados à memória. Curiosamente, drogas à base de ampakines servem tanto para melhorar a memorização quanto para apagar fatos do cérebro (isso acontece porque o processso de desaprender algo é similar ao de aprender, segundo os neurologistas). O esquecimento pode ser muito útil não para apagar um caso de amor não correspondido, como no filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças, com Jim Carrey, mas para tratar distúrbios pósticos ou mesmo reprogramar o cérebro para se livrar de um vício.

O segredo para o desenvolvimento de drogas assim não é tanto o estudo de substâncias químicas, e sim os avanços no entendimento de como funciona o cérebro humano.

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