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Na moderna versão do velho hábito de estudar em grupo, o ponto de encontro dos jovens é a internet. No ambiente virtual, eles participam de debates com gente que nem conhecem, tiram dúvidas com rapidez e ainda afiam habilidades imprescindíveis na era do aprendizado colaborativo.

Revista Veja - por Cintia Thomaz

Prova importante à vista? A regra é juntar três ou quatro amigos entre eles, de preferência, algum ótimo aluno - e promover uma tarde de estudo em casa ou na biblioteca. A turma nem sabe, mas está pondo em prática uma ideia que vem de Sócrates (470-399 a.C.), o pai da filosofia ocidental: a do aprendizado pelo diálogo. Com mais ou menos eficácia, o estudo em grupo sempre foi uma ferramenta usadíssima por jovens de toda parte para ampliar o conhecimento fora da sala de aula. E continua sendo - só que com uma roupagem, digamos, mais século XXI. Nos últimos tempos, os estudantes não se veem, ou melhor, se veem em uma tela; não folheiam livros, baixam arquivos; não escrevem em folhas de papel, digitam. Como tantas outras atividades no contexto das relações interpessoais, o estudo em grupo - ou colaborativo, para usar o léxico moderno - mudou para o ambiente sem paredes e sem fronteira que é a internet. "A interatividade virtual veio facilitar o exercício da atividade intelectual, estimulando habilidades altamente valorizadas em nosso tempo", diz Rafael Parente, especialista em tecnologias educacionais.

 A mudança de hábitos foi se dando aos poucos, no Brasil e no mundo, e hoje tirar dúvidas e trocar informações em rede é a regra. Segundo recente pesquisa de um site especializado, 73% dos universitários brasileiros usam a rede social e 58% utilizam serviços de mensagem de texto para estudar. Só 5,6% persistem na presença física dos colegas. Esse novo padrão consolida o papel da internet como fórum privilegiado de disseminação da aprendizagem fora dos muros escolares, superando as resistências iniciais quanto a confiabilidade do conteúdo de um mundo virtual sem regras nem leis. Um dos mais destacados indicadores do fenômeno é a multiplicação dos cursos on-line gratuitos de universidades de primeiríssima linha, que vêm estimulando a formação de classes globais
com alunos na casa das centenas de milhares. A troca de conhecimentos pela internet estimula benefícios que o estudo em grupo sempre ofereceu, só que em escala muito maior. "Dialogando com desconhecidos e destrinchando uma montanha de informações, o estudante desenvolve a capacidade de produção em equipe, de liderança e de autonomia", enfatiza o americano Ray Schroeder, diretor do Centro de Aprendizado, Pesquisa e Serviço On-line da Universidade de Illinois.

Entre os universitários, principalmente, tirar dúvidas com colegas pelo celular ou computador, no horário que quiserem, estejam onde estiverem, e ainda por cima com um vastíssimo materiaI à disposição, deu vida nova - e muito mais produtiva - ao velho grupo de estudos. "Eu e minhas colegas baixamos no celular ou no tablet os arquivos que o professor indica, provas antigas, exercicios resolvidos. Assim, podemos estudar em qualquer tempinho livre e tirar dúvidas umas com as outras", diz Amanda Simas, 24 anos, no último ano de engenharia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). É uma turma que faz estágio e leva vida corrida. Em época de prova, eles passam o dia todo de celular na mão, trocando mensagens e e-mails sobre a matéria - o que, aliás, não é sacrifício algum. "Os jovens já estão o tempo todo grudados nas redes sociais e nos serviços de mensagem. Transferir o estudo para o ambiente virtual é uma espécie de socialização do aprendizado", avalia o especialista João Mattar, autor do livro Web 2.0 e Redes Sociais na Educação.

Inicialmente uma prática informal entre colegas de classe, o estudo em grupo já virou negócio para uma safra de sites que sistematizam essa forma de aprendizado, organizando e disseminando a troca de informações, de exercícios e até de anotações em classe. Tocados por gente jovem e para gente jovem, eles vêm tendo enorme aceitação mundo afora. No Brasil, o Passei Direto (que realizou a pesquisa de uso da internet) fundado há dois anos no Rio de Janeiro, arrebanhou 1 milhão de usuários no primeiro ano e hoje congrega 2 milhões (de um total de 6 milhões de universitários). "O plano é ser uma rede tão ampla quanto o Facebook e o Twitter", extrapola o administrador Rodrigo Salvador, 24 anos, um dos fundadores. Nascido na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio, o Passei Direto conta com 2S funcionários e ainda não rende dinheiro - vive do patrocínio de uma empresa desenvolvedora de startups. O precursor foi o Ebah, criado em 2006 na Faculdade de Engenharia da USP pelos então estudantes de mecatrônica Renato Freitas, 30 anos, e Ariel Lambrecht, 32, em puro proveito próprio.
"Tudo passava pelas máquinas copiadoras, um processo desorganizado e trabalhoso no qual gastávamos muito dinheiro em coisas Que nem íamos usar", lembra Freitas. Hoje a plataforma tem 3 milhões de usuários e está presente ainda em Portugal, Angola e Moçambique. Ela continua a ser operada pelos dois fundadores e é financiada em parte por publicidade, em parte por outros negócios que eles têm na internet.

Uma vez cadastrados, os usuários desses sites clicam na matéria em que precisam de ajuda e os recursos se abrem: eles podem lançar perguntas na rede, entrar em algum debate em andamento, enviar e baixar arquivos de resumos, livros, anotações e testes postados pelos próprios usuários. O uso frequente vai ensinando a separar o útil do supérfluo; também se aprende, talvez com mais tropeços, a distinguir atitudes que não são de bom-tom para um aluno virtual. Essas conexões são mais impessoais do que as trocas de mensagens com colegas de classe, mas o resultado é imediato e eficiente. "Com o material que encontro nas plataformas de estudo em grupo, posso comparar métodos e explicações diferentes e chegar rapidamente a conclusões que, sozinho, levaria muito mais tempo para alcançar", diz o estudante de administração carioca Carlos Fernando Perico, 25 anos. A internet universalizou o tripé do aprendizado com professor, aluno sozinho e aluno em grupo - ao facilitar muito os dois últimos processos. A combinação de estratégias gera resultados muito ricos", explica Mattar. Requer, porém, um grande esforço de concentração para não se desviar do objetivo e tornar a coisa pura perda de tempo: quem se deixa levar pela tentação de passar uma mensagem ou postar uma selfie no meio da labuta vai perceber que, no fim, aprendeu muito pouco.

Plenamente assimilada entre universitários, a prática de estudar em grupo pela internet vem sendo adotada cada vez mais cedo na escola - o que pode ser um indício de alunos mais preparados no futuro. Uma pesquisa realizada com estudantes de 41 nacionalidades pela OCDE, a organização dos países mais desenvolvidos, mostrou que os mais bem-sucedidos no colégio são os que têm o hábito de usar o computador em casa; fazendo isso, eles passaram a dedicar 30% mais tempo aos estudos.
Para quem tem no laptop e no celular praticamente uma extensão do corpo, aprender on-line é a coisa mais natural do mundo. Ensinar também: Ana Helena Novaes, 16 anos, no 2º ano do ensino médio do Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo - e craque em matemática, é disputada pelos amigos em época de prova. "Ê bom para elas e para mim, que estudo em dobro", diz. A amiga Luisa Machado, 15, beneficiá direta da ajuda de Ana Helena, considera as redes sociais "uma salvação" em época de prova. "Nosso grupo no Facebook e no WhatsApp fica até congestionado com tantas perguntas e respostas". Em tempos de internet, estudar em grupo é atividade que se pratica com a ponta dos dedos. E com muito mais eficiência.