Leitura Dinâmica: leia rápido, compreenda

Você também pode ler 300 páginas em 3 horas.

O fantasma das provas

ImprimirEnviarFavoritos

Para muitos estudantes, situações em que seus conhecimentos ou habilidades são testados deflagram sensações físicas e mentais extremamente desconfortáveis que fogem ao controle em alguns casos, o estresse pode atingir níveis tão elevados que até conhecimentos mais simples parecem desaparecer da mente.

Revista Scentific American - por Selma Corrêa

É sempre assim: toda vez que vou fazer uma prova meu estômago dói, fico com as mãos molhadas, transpiro e preciso ir ao banheiro várias vezes. Na hora de responder às questões, não consigo me concentrar. As pequenas preocupações do dia a dia - uma conta a ser paga ou qualquer tarefa burocrática - ficam dançando.em minha mente e impedem que eu me concentre por mais de dez segundos no enunciado das perguntas. Nao sei por que isso acontece. E confesso que, para não viver essas angústias, já cheguei a faltar às provas. Acho que vou desistir de tudo. E me pergunto se, afinal de contas, eu sirvo para estudar.

O relato de A., uma universitária de 19 anos, pode parecer exagerado para aqueles que enfrentaram, no máximo, a sensação de frio na barriga e uma ligeira apreensão diante de um exame, uma avaliação bimestral ou mesmo um concurso. Para a moça, porém, é um tormento que pode comprometer seu futuro profissional. Uma pesquisa recente com graduandos de psicologia, coordenada pela psicóloga Eveline Bouteyere, mestre em psicopatologia, pesquisadora do Laboratório de Estudos Clínicos e Sociais da Universidade de Ruão, no noroeste da França, mostra que A. está entre os aproximadamente 25% de estudantes que, no período anterior às provas, sofrem de uma ansiedade muito próxima de um estado depressivo. E essa dificuldade às vezes os faz fracassar. O mais curioso é que, em alguns casos, os sintomas surgem repentinamente. No caso de A., por exemplo, nada anunciava o surgimento dessa dificuldade. Ela nunca a havia sentido antes de entrar para a faculdade.

O testemunho da jovem revela três reações psicológicas: manifestações de ansiedade, um humor depressivo que transparece no fim do depoimento, e a estratégia de furtar-se ao problema deixando de comparecer às provas. No Brasil a situação também é preocupante.

Um estudo desenvolvido pelos pesquisadores Júlio de Meio Cavestro, da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), e Fábio Lopes Rocha, do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (IPSEMG), que comparou os índices de depressão e risco de suicidio entre 342 estudantes de medicina, fisioterapia e terapia ocupacional matriculados na FCMMG revelou dados preocupantes. O artigo feito com base na pesquisa e publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria informa que de 15% a 25% dos estudantes universitários apresentam algum tipo de transtorno psiquiátrico durante sua formação acadêmica relacionados principalmente à depressão e à ansiedade. Segundo os autores, a maioria dos estudos foi realizada entre estudantes de medicina; portanto, estima-se que os transtornos depressivos nessa população oscilem entre 8% e 17%. Alguns autores acreditam que existam fortes aspectos estressores ao longo de um curso que influenciariam a prevalência de quadros depressivos nessa população. No início das aulas aparecem dificuldades como o volume de informações que o aluno passa a receber, mudanças nos métodos de estudo e carga horária exigida; no final, surge a insegurança com relação à própria competência e o receio de enfrentar os desafios do mercado.

Um trabalho desenvolvido pela equipe de Henri Chabrol, pesquisador da Universidade de Toulouse, na França, revelou que, num universo de 2 mil alunos do curso secundário, com idade em torno de 17 anos, 10% dos rapazes e 24% das moças sofrem de depressão. O pesquisador M. Carta, da Universidade de Cagliari, na Sardenha, constatou a existência de 14% de jovens deprimidos, tanto rapazes como moças, com idade entre 18 e 24 anos. Se extrapolássemos esses números, terfamos uma considerável incidência da depressão entre jovens, principalmente do sexo feminino. Existiria uma ligação entre depressão e manifestações de ansiedade diante da aproximação das provas? Para verificar essa hipótese, Éveline e sua equipe analisaram as proporções de depressão e ansiedade nas provas entre estudantes de psicologia de uma universidade de Paris. Dez dias antes das provas de fim de semestre, entrevistaram 412 alunos (83% de moças), distribuidos em números iguais entre os seguintes nfveis: bacharelado, licenciatura, mestrado, doutorado. Foram apresentados aos voluntários três questionários. Um avaliava as reações de ansiedade nas provas, o outro o grau de depressão, e o terceiro identificava estratégias adotadas para enfrentar a ansiedade. Os psicólogos chamam essas reações de coping (do inglês, to cope with = enfrentar, lidar).

O questionário sobre ansiedade foi elaborado em 1984 pelo psicólogo Irwin G. Sarason. Nele encontram-se perguntas como: "Você fica tenso antes das provas?"; "Sente coceiras?"; "Durante as avaliações você tem a impressão de que divaga e suas ideias se misturam?"; "Quando os exames começam seu coração bate mais forte?". Dessa maneira, avaliam-se as reações dos estudantes diante do estresse. O questionário revelou que cerca de 20% apresentam sinais de ansiedade.

O quadro manifesta-se principalmente por meio de quatro sintomas: estado de grande tensão, insegurança quanto ao resultado das provas  e as consequências disso, manifestações fisiológicas e pensamentos inadequados. O primeiro afeta 25% dos universitários: antes das avaliações eles se sentem incomodados, tensos, sem saber como reverter a situacão. A segunda reacão é apresentada por 23% dos estudantes: surge grande apreensão em relação ao futuro, o que, de forma excessiva, tanto pode estimular quanto inibir, e em vez de se concentrar nas questões o aluno só pensa no que acontecerá se não obtiver bom resultado. A terceira reação, apresentada por 18% dos entrevistados, se caracteriza por manifestações fisiológicas. A quarta constitui-se de pensamentos inadequados: a mente se distrai com divagações que nada têm a ver com o assunto, e parece impossível se concentrar na prova. Essa última reação, característica da ansiedade, é em grande medida diretamente responsável pelos maus resultados nos exames.

Buscando traçar um paralelo entre essas manifestações de ansiedade e um eventual estado depressivo, foi apresentado aos estudantes o questionário de depressão desenvolvido pelo psicólogo Pierre Pichot, que traz perguntas como: "Nessa situação, você se sente triste?"; ou  "Sua mente se enche de maus pensamentos?"; ou ainda "Você se sente obrigado a se esforçar para fazer qualquer coisa?". Foi constatado que 18,4% dos alunos pesquisados sofriam de depressão.

HORA DE PAGAR A CONTA

Para parte dos alunos, o desafio das provas deflagra um estado de ansiedade e de depressão subjacente, embora não haja comprovações claras da existência de relação causal entre esses dois tipos de reação. Se considerarmos as percentagens obtidas no primeiro e segundo ano da universidade (26% de depressão e 20% de ansiedade), logo surgirá uma hipótese: a passagem da vida no curso secundário, em que ainda se conta com a proteção dos pais, à vida de estudante universitário, que exige a responsabilidade pessoal, o que é fonte de ansiedade e depressão ao mesmo tempo. Em muitos casos, é nessa fase que os jovens deixam a casa da família pela primeira vez e assumem novas funções, relacionadas à sua autonomia.

Para compreender como essa transição propicia o surgimento da depressão e da ansiedade, temos de analisar as diferentes posturas dos jovens diante dessa mudança. Tomemos um exemplo clássico: confrontado com problemas concretos, como pagar o aluguel ou a conta de luz, o estudante tem várias possibilidades. Quando os aluguéis não pagos se acumulam, a primeira solução consiste em preencher um cheque, e depois pedir dinheiro emprestado a alguém: de certo modo, é uma forma de "pegar o touro à unha". Os psicólogos chamam a isso de "coping ativo", e as pessoas que se valem desse tipo de estratégia em geral não são depressivas. Ao que parece, a resolução concreta dos problemas cotidianos tem boas consequências para a saúde mental.

Outra atitude consiste em deixar as contas se acumular num canto da mesa e não fazer nada: reação de evitação, muito prejudicial. O jovem espera a situação melhorar para abri-Ias, mas, um  belo dia, como as cobranças não tiveram resposta, a eletricidade e o telefone são cortados. Esse círculo aumenta o estado depressivo, por mais leve que tenha sido inicialmente, provocando também reações de ansiedade frente a quaisquer problemas da vida cotidiana. O mesmo se aplica a textos que deveriam ser lidos mas são deixados de lado. O problema é que os deprimidos em geral não tomam providências para resolver aquilo que os aflige, e as consequências desse comportamento os tornam ainda mais angustiados, irritados ou apáticos.

Que tipo de estratégia os estudantes adotam quando fazem as provas? Num estudo francês, a questão foi abordada por meio de outro questionário, a escala de Toulouse de coping, criada em 1993 por Sylvie Esparbés, da Universidade de Toulouse. Num primeiro momento avaliamos o nrvel de resposta emocional, perguntando, por exemplo, se o estudante procura falar sobre suas angústias em relação aos estudos e às notas com pessoas próximas e se procura o encorajamento de seus interlocutores.

Para avaliar a estratégia do coping ativo, pergunta-se ao aluno que medidas ele toma para diminuir a angústia das provas. Desenvolve um plano de ação para esse período? Obriga-se a fazer revisões antecipadas? Faz fichas detalhadas das matérias estudadas? Recusa-se a ir ao cinema com os amigos nos dias que precedem as provas?

Existe ainda um terceiro tipo de estratégia, preferida por alguns estudantes: o coping cognitivo. O estudante procura controlar a ansiedade discutindo com professores ou trabalhando em grupo com colegas que não tenham esse tipo de dificuldade e, eventualmente, recorrendo a um terapeuta? Depois de responder a todas as perguntas o participante do estudo obtém uma nota, que reflete a intensidade de seus esforços, nos planos emocional, ativo e cognitivo, para atenuar as consequências negativas de sua ansiedade diante das provas.

Éveline Bouteyere constatou que os estudantes se valem dos três tipos de estratégia de coping, mas não com a mesma frequência. Mais da metade dos estudantes ansiosos e deprimidos adota a estratégia emocional, enquanto 48% se valem da estratégia cognitiva e 46% optam pela ativa.

No primeiro caso, eles dizem refugiar-se na fantasia, esquivando-se da pressão; ou então procuram, a todo custo, pensar em outra coisa, buscando a simpatia e o estímulo dos outros; ou ainda se sentem profundamente culpados de não ter se preparado para a situação. Nada disso, porém, em geral é muito útil.

Na estratégia cognitiva, os jovens perguntam aos amigos que tiveram experiência parecida o que fizeram para lidar com a situação. Dizem que, às vezes, conseguem se concentrar para não entrar em pânico. Os que seguem a estratégia ativa buscam a cooperação de outros alunos para se preparar e fixam objetivos como estudar três horas por dia.

A estratégia emocional, embora muito utilizada, não é eficaz e pode contribuir para agravar quadros de depressão. Não obstante, nem todos os resultados obtidos são alarmantes. "O alto nível de tensão que se manifesta durante o exame revela a importância que os estudantes dão às provas; essa tensão é um indício de seu interesse, ainda que para alguns deles ela seja importuna", observa Éveline.

"Os resultados de nossa pesquisa mostraram que as percentagens de alunos deprimidos se tornam cada vez mais reduzidas à medida que examinamos as turmas mais avançadas", afirma a pesquisadora. O sucesso faria desaparecer o medo do fracasso? Para verificar essa hipótese, devem ser realizados novos acompanhamentos de grupos de estudantes durante vários anos para que seja observado se suas reações de angústia se atenuam com o sucesso nos estudos.

Segundo Éveline, as moças parecem mais expostas que os rapazes, em razão de seu maior grau de depressão: "A grande percentagem de deprimidas revelada por nossa pesquisa se deve à grande quantidade de alunas nas turmas de psicologia", ressalta. Apesar dessa afirmação, psicólogos suspeitam que rapazes também apresentam altas taxas de depressão, embora grande parte deles não se disponha a admitir isso nos questionários.

Embora as reações de ansiedade durante os exames prejudiquem muito os estudantes, elas não constituem um obstáculo intransponível. A psicologia dispõe de instrumentos eficazes para vencer essas dificuldades. A psicoterapia costuma ser bastante eficiente, principalmente quando não trabalha apenas com o problema em si, mas amplia a questão, buscando sentidos para os sintomas e seus desdobramentos. Isso termina por ajudar o estudante a lidar não só com a ansiedade de forma específica, mas também com outros desconfortos que o afligem e nem sempre são identificados mas, ainda assim, desencadeiam angústia. Muitas vezes, o acompanhamento psicoterápico é decisivo para a continuação dos estudos e ajuda a evitar que os jovens comecem sua vida adulta com a sensação de que acumularam fracassos. Porém, é difícil identificar um jovem deprimido ou ansioso numa sala de aula lotada. "Por isso mesmo pais e educadores precisam deixar de lado os preconceitos e considerar que se estudantes desistem dos cursos que escolheram, isso não acontece necessariamente por não terem estudado ou porque seu nível intelectual é insuficiente; é preciso buscar outras razões, principalmente de ordem psicológica", alerta Éveline. E é aí que os psicólogos certamente podem ajudar. .

 

Novos jeitos de pensar e sentir

Em vez tentar esquivar-se da angústia e deixar-se levar pelas fantasias de fracasso é mais eficiente cercar-se de informações e impor-se desafios graduais:

Veja as coisas de maneira realista:

. É importante recorrer a todas as informações, inclusive as positivas

. É melhor ser realista que pessimista

. Use os fatos - e não seus sentimentos - para fazer previsões

. Trate sensações de "e se tal coisa acontecer" como parte de sua imaginação

. Prefira probabilidades a possibilidades

Normalize as consequências:

. Os alarmes falsos não correspondem à realidade

. De fato, talvez você se sinta exausto por causa de sua ansiedade

. Ninguém morre por obsessões, pânico, preocupação ou medo

Abandone a necessidade de se controlar:

. Você não precisa controlar sua mente ou sentimentos

. Pensamento mágicõ mantém ansiedade: desista dele e pense racionalmente

. Você é capaz de resolver problemas na vida real

Admita e assuma o mal-estar:

. Busque experiências que o deixam ansioso.

. Não espere até o momento de ficar pronto

. Aceite riscos razoáveis e gradativos . Suporte o desconforto, pois ele tende a diminuir

Nem sempre é doença

Mas se atrapalha o dia a dia e faz sofrer é melhor procurar ajuda logo.

Numa sociedade que tanto valoriza a expressão escrachada do sucesso e da alegria, o desconforto psíquico - fundamental para a elaboração de conflitos e para o amadurecimento emocional- é quase sempre visto como fracasso. E o sentimento de desencanto, tão necessário quanto inerente à vida, é muitas vezes interpretado como fraqueza ou, pior ainda, como uma patologia que precisa ser curada. Mas, afinal, quando a ansiedade, essa sensação tão conhecida por parte da maioria dos adolescentes, se torna doença? Se pensarmos que falamos aqui de um sentimento de antecipação, um medo de não dar conta do que nem chegou ainda, é acertado considerar que o início da vida adulta deflagra esse tipo de inquietação. Afinal, ela está associada aos tempos de transformação, quando somos instigados a assumir responsabilidades e a fazer escolhas para as quais nem sempre julgamos estar preparados.

Um sinalizador precioso que pode fornecer informações confiáveis a respeito de que algo não vai bem - embora nem sempre saibamos exatamente o que é - são nossas emoções. Quando prestamos atenção nelas em vez de fugir do desconforto que causam, costumamos nos fortalecer. Infelizmente, porém, às vezes tendemos a ignorar o que sentimos ou nos iludimos que algo de natureza psíquica "vai passar" se evitarmos pensar no assunto. Ledo engano. Às vezes, o sintoma até "adormece" mesmo, mas geralmente "acorda" mais fortalecido e às vezes transformado - em uma dor ou doença que aparece no corpo, talvez. Quando a sensação de ansiedade, marcada por manifestações físicas - como taquicardia, sudorese, dificuldade de respirar - é intensa demais e começa atrapalhar (impedindo a pessoa de sair-se bem numa prova para a qual se preparou, por exemplo) pode ser um sinal de que está na hora de procurar um psicólogo ou psicanalista. Esse profissional poderá não apenas ajudá-Io lidar com as questões imediatas, mas também com desconfortos que muitas vezes não sabemos nomear - ou até sabemos, mas temos medo de fazê-Io sozinhos.

PARA SABER MAIS

Aprendizagem: o que (de fato) funciona. John Dunlosky, Katherine A. Rawson, Elizabeth J. Marsh, MitchellJ. Nathane Daniel T. Willingham. Mente e Cérebro n" 250, 2012.

Étude de Ia CES.D sur un échantillon de 1.953 étudiants adolescents. H. Chabrol e outros, em Encéphale, vol. 28, pág. 429, 2002.

Por que a psicanálise. Elizabeth Roudinesco. Zahar, 1999